Body Hacking Manifesto 2.0 de Lukas Zpira

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Foto: divulgação

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Antes de começarmos a falar sobre o Body Hacking Manifesto 2.0 escrito por Lukas Zpira em 2004, precisamos reforçar que o Hacktivism no senso da modificação corporal não deve ser confundido com o Hacktivism no sentido dos gênios da informática. São duas terminologias distintas. Olhemos para o body hacking, como bem coloca a enciclopédia do BMEzine, sendo ele a fusão de hacking e ativismo, assim como da política e tecnologia. Importante também não retirar o manifesto do contexto em que foi escrito, começo do século XXI, e principalmente a ideologia de quem o escreveu. Quero dizer com isso, que é preciso conhecer um pouco sobre o autor para que possa se compreender o que de fato o manifesto quer dizer. Uma biografia de Lukas Zpira pode ser lida AQUI em inglês.

Falemos de agora em diante especificamente do texto. O Body Hacking Manifesto 2.0 foi escrito em 14 de janeiro de 2004, pelo body artist e performer francês Lukas Zpira. Apesar de francês há de se pontuar que Lukas é um nômade e que está em constante movimento pelo mundo, principalmente Europa e Ásia. Não podemos deixar de mencionar que as suas visitas ao Brasil foram revolucionárias em vários sentidos, sua imagem por si só já evocava uma série de novas reflexões e possibilidades sobre e para o corpo. Evocação que foi se complementando com performances, workshops e procedimentos. Foi em sua primeira visita ao Brasil em 2001 que o conhecemos.

O berço do Manifesto foi Osaka, Japão, e não podemos nos esquecer de mencionar o incentivo de Ryoichi Maeda, que infelizmente não conseguimos localizar uma biografia, todavia, há diversos registros que ele tenha atuado como produtor, fotógrafo e amigo de Zpira. Assim surgiu um novo movimento filosófico, o Body Hacking ou Hacktivism, e os seus respectivos entusiastas sendo hacktivists.

Um ponto a se destacar no manifesto é que ele surge como um divisor de águas, isto é, se colocando em oposição ao movimento dos Primitivos Modernos criado por Fakir Musafar no final dos anos 70. Lukas Zpira coloca que:

“(…) o termo body hacktivism nasceu da necessidade de se definir um movimento de artistas, pesquisadores e pensadores que trabalham em torno de mutações e utilizando modificações corporais como um meio. Estes artistas – ao contrários dos primitivos modernos que usam antropologia tribal como base – praticam, teorizam e/ou inventam perspectivas de modificações corporais de vanguarda que são influenciadas pela cultura mangá, quadrinhos, filmes e literatura de ficção científica.”

Lukas escreve ainda que o Body Hacking é uma expressão da vontade individual de ultrapassar as fronteiras do biológico. Aqui podemos traçar uma relação com a teoria do corpo obsoleto posta por Stelarc.

Segundo a Enciclopédia do BMEzine a escolha dos termos hacktivists e hackitivism se deu para enfatizar a necessidade de ação, que está ligada a importância da (re)apropriação de si, do próprio destino e de se reinventar. Ao nosso ver, uma firme crítica ao corpo alienado pelo capitalismo.

O que se torna curioso no manifesto é a colocação do autor da não obrigatoriedade de que se tenha modificações corporais para ser um hackitivist. Posição acentuada com a afirmativa de que nem todas as pessoas modificadas façam necessariamente parte do hacktivism. Lukas é enfático e coloca que o Hacktivism deve ser percebido como uma filosofia e um estado mental.

Abaixo compartilhamos a tradução em português do Manifesto:

BODY HACKING MANIFESTO 2.0

Criado no início do século XXI por Lukas Zpira sob o impulso de Ryoichi Maeda, o termo body hacktivism nasceu da necessidade de se definir um movimento de artistas, pesquisadores e pensadores que trabalham em torno de mutações e utilizando modificações corporais como um meio.

Estes artistas – ao contrários dos primitivos modernos que usam antropologia tribal como base – praticam, teorizam e/ou inventam perspectivas de modificações corporais de vanguarda que são influenciadas pela cultura mangá, quadrinhos, filmes e literatura de ficção científica.

Se tornou possível graças a uma curiosidade constante sobre a evolução das descobertas Tekno-médicas dessas práticas, experimentais por essência, sendo definidas como Body Hacking, e expressam a vontade destes artistas, pesquisadores e/ou pensadores de ultrapassar as fronteiras biológicas.

Os termos body hacktivist  e body hacktivism também significam a necessidade de agir e tomar nosso destino em nossas próprias mãos e a vontade perpétua de nos reinventar.

Body Hacktivism também é um questionamento sobre as liberdades de escolhas diante de um número crescente de opções de transformações de nossa humanidade, encarando e reavaliando a noção de interesse coletivo versus interesse individual.

Body Hacktivists só podem refutar a validade de uma patente, de licença ou de direitos autorais em relação ao corpo e sua transformação.

Body hacktivism não inclui a necessidade de ser modificado.

Todas as pessoas modificadas não são necessariamente consideradas como body hacktivists.

De fato, muitos artistas, pesquisadores e filósofos aparecem como body hacktivists sem necessariamente reivindicar isso.

Body Hacktivism não é um grupo e deveria acima de tudo ser compreendido como um estado mental, como uma filosofia que cada um é livre para adotar.

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Autor: Lukas Zpira
Data: 14 de Janeiro de 2004, Osaka, Japão.
Tradução: T. Angel
http://www.hackingthefuture.org

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