Caso de violência contra mulher e tortura animal choca a comunidade da modificação do corpo

0 Flares 0 Flares ×

cruelty

No último dia 12 de janeiro a fanpage Brigada Animal divulgou o caso em que o Victor Master Tattoo enforca um filhote de cachorro para ameaçar a ex-namorada, CLICANDO AQUI você pode ver a publicação original. Segundo a matéria:

“O tatuador Victor Master Tattoo, de 23 anos, que ficou famoso por utilizar, no Brasil, a técnica americana denominada “eyeball tattoo”, que consiste em injetar tinta na camada de proteção dos olhos, chantageou a namorada com seu filhote de cão da raça Bull Terrier. A namorada teve que fugir para outra cidade, deixando para trás, seus três cães com ele. O tatuador a ameaçava constantemente e filmou ele próprio dando inicio ao enforcamento de um dos cães – um filhote com menos de 6 meses de idade – caso a namorada não retornasse. Segundo a namorada, ela soube que Victor doou dois cães e vendeu este, do vídeo. Ela não pôde fazer nada, pois teve que sair às pressas e não conseguiu levar seus animais.(sic)

Também foi divulgado uma série de ameaças escritas e gravadas em áudio e CLICANDO AQUI você tem acesso.

Para nós é claro que a crueldade com que ele trata o filhote de cachorro, parte da violência com que ele trata sua ex-namorada que está grávida. As agressões (que não só físicas) beiram o absurdo. Bem, já denunciamos por AQUI o machismo que existe dentro da comunidade da modificação do corpo e essa situação vem reforçar aquilo que escrevemos. Na verdade a situação é um grito de alerta: é preciso modificar não só o corpo. Passou da hora de dar a devida atenção para essas questões, pois elas são injustificáveis.

Maus tratos e crueldade com animais são crimes. Ameaçar, intimidar, assediar moralmente e perseguir uma pessoa também pode se configurar como crime. Se tratando de agressão contra as mulheres, existe um aparato legislativo específico, a exemplo, a Lei Maria da Penha que:

“Cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher, nos termos do art. 226 da Constituição Federal, da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres e da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e a Violência contra a Mulher; dispõe sobre a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher; altera o Código de Processo Penal, o Código Penal e a Lei de Execução Penal; e dá outras providências.”— Lei 11.340

A opinião pública via redes sociais pede pela morte, enforcamento e demais usos de tortura contra Victor Master Tattoo. Também não faltam comentários que relacionam as modificações corporais do agressor como parte da causa da agressão. As pessoas dizem que “quem faz isso na cara é um demente“, que ele “tem cara de demônio“, “drogado“, “demente” e a lista com a reprodução dos mais variados preconceitos segue. Tudo bem, a situação é revoltante, claro que sim e não questionamos isso. Todavia, mais do que a reprodução de mais violência é preciso coerência no que se quer e no que se pede, o que visivelmente está faltando.

Ora, utilizar as modificações corporais do rapaz para estabelecer julgamentos morais e/ou psicossociais generalizados é errado. É errado pois existem incontáveis ativistas e protetores de animais que tem o corpo modificado tanto quanto o agressor em questão. É errado pois existem incontáveis agressores de animais que não têm nenhuma modificação do corpo. Em outras palavras, ao utilizar esse tipo de argumento sem fundamento, vocês estão reproduzindo o velho preconceito  de julgar as pessoas pelo corpo que tem.

Ora, chamá-lo repetidamente de demente e ou dizer que pela cara dá para perceber sua demência, é automaticamente reproduzir o capacitismo e isso é errado. Em outras palavras, identificar o outro como louco é abrir um campo de abuso de poder, intolerância e violência, como já nos ensinou o filósofo francês Michel Foucault (1926-1984) na obra História da loucura na Idade Clássica. Ainda, o capacitismo é um termo utilizado para descrever a discriminação, opressão e abuso advindos da noção de que pessoas com deficiência (física e/ou intelectual) são inferiores às pessoas não-portadoras de deficiência.

Ora, clamar pela morte, tortura e enforcamento do agressor, é apenas reproduzir mais violência e isso é errado. A tortura não se justifica em hipótese alguma e a história já deveria ter nos ensinado isto.

Os registros e todas as provas apontam que existe uma situação criminosa de crueldade animal e de violência contra a mulher, a sociedade tem o direito e o dever de cobrar as autoridades responsáveis para que cuide disso. Entendam, vingança não é justiça e enquanto continuarmos confundido isso, estaremos dando tiros nos pés. Por fim, se engajar pelos direitos dos animais se esquecendo dos direitos humanos é no mínimo incoerente. Uma causa não deveria anular a outra. E nenhuma, repito, nenhuma violência contra a mulher deve ser tolerada.

Concluindo, o FRRRKguys é pontualmente contra toda e qualquer tipo de violência contra as mulheres. Apoiamos e nos apoiamos em todas as lutas contra o machismo e/ou que promovam a sua desconstrução. Somos também contra toda e qualquer forma de violência contra os animais. Lamentamos profundamente essa situação toda e nos entristecemos, pois sabemos que ela tem o poder de reforçar todo o tipo de estereótipo, estigma e preconceito contra as pessoas da comunidade da modificação do corpo, como já tem feito. Além da enorme tristeza de ver tamanha violência, obviamente. Pela libertação humana e animal.

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Google+ 0 Pin It Share 0 Reddit 0 Email -- 0 Flares ×

About T. Angel

No cenário da modificação corporal brasileiro desde 1997, inicialmente como entusiasta e posteriormente atuando no campo da pesquisa. Parte de seu trabalho está incluso no livro "A Modificação Corporal no Brasil - 1980-1990" e grande parte depositada aqui no FRRRKguys.com.br.