Catraca Livre e a mente presa: o retrato da miséria da informação

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O Catraca Livre é uma daquelas ações que revolucionam a internet. Nos últimos anos, não só inovou, como possibilitou outras formas de se divulgar e produzir arte, cultura, informação na vida contemporânea. Talvez seja por isso que o nosso desapontamento seja tão grande nesse momento. A sensação que temos é a de que o projeto cresceu tanto, que desandou e perdeu a forma ou talvez tenha perdido apenas o bom senso. Sabe-se lá.

Esses dias escrevemos sobre a miséria jornalística, ou seja, que jornalistas para produzir matérias sensacionalistas e depreciativas sobre as modificações do corpo, são vários. Todavia, quando precisamos de jornalistas para divulgar iniciativas e ações que visam a informação, visibilidade, promoção e fomento dessas mesmas práticas, o número era insignificante. A exemplo do próprio Catraca Livre, que no dia 05 de Maio enviamos uma pauta sobre uma mostra de filmes, debate e oficina sobre os usos do corpo e que até o presente momento consta como “pendente”.

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Segundo informação do site o prazo é 72 horas, bem… Enviei mais de três e-mails e nenhuma resposta. Tentei contato via twitter e o silêncio se manteve. Silêncio que não foi o mesmo ao produzirem uma matéria completamente leviana, equivocada, deturpada, ofensiva, falaciosa e preconceituosa, sobre o eyeball tattooing.

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A matéria assinada por Redação – o que quer dizer que sim, corresponde a opinião do Catraca Livre – recebeu inicialmente o título pitoresco de “Apesar das advertências médicas, prospera a moda da tatuagem no olho“. Não satisfeitos, coletaram inúmeras imagens avulsas contendo implante ocular, eyeball tattooing, lente de contato, mudança de cor da íris e, inclusive, montagens de photoshop e generalizaram de maneira porca, como tudo sendo a mesma coisa, no caso, eyeball tattooing.

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Assim que a matéria foi divulgada nas redes sociais, começamos uma campanha pedindo uma retratação pública por parte do Catraca Livre, afim de assumirem que publicaram uma matéria errada e pedindo desculpas para a comunidade da modificação do corpo. Ao mesmo tempo diversas pessoas começaram a bombardeá-los denunciando que a matéria estava errada. Para nossa surpresa a Redação excluiu as imagens onde a montagem (feita com editor de imagem)  era aberrante e permaneceram com todos os demais erros. Por sua vez o título foi alterado para a “A moda da tatuagem no olho“. Novamente a publicação na rede social, seguida do texto “louco ou corajoso para fazer uma tatuagem ocular?”

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Sempre tivemos pavor dessa didática maniqueísta, bem típica de Fala que eu te escuto. Por outro lado há de se dizer que historicamente sempre existiu uma tentativa de patologizar todas as pessoas que – por iniciativa própria – interferem em seus corpos. Então, sugerir que a pessoa que faz a coloração da esclera é louca, é reproduzir o discurso normatizador e patologizante do século XIX, que supostamente já deveríamos ter ultrapassado.

Em todo caso, novamente fizemos a mesma ação, denunciando que a matéria ainda estava errada, ofensiva, leviana e que gostaríamos de uma retratação. Simples assim: erramos, pesquisamos e aqui está a informação correta. Desculpe as pessoas que ofendemos e/ou todas as pessoas que se sentiram ofendida, seja pela informação errada como pelo modo rude como nos expressamos.

A resposta que veio, não só nos surpreendeu pela baixeza, mas pela falta de sensibilidade e falta de ética. Fazemos questão de reproduzir as mesmas palavras abaixo:

“Publicamos um post sobre tatuagem ocular que provocou ( e com razão) muito debate. Conheça agora os novos trabalhos da maquiadora que faz arte usando olho e sobrancelha “

 
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Espera. O Catraca Livre passa informação errada (mente para milhares de leitores e leitoras), ofende uma população que vive as práticas de se modificar o corpo e por fim oferece que conheçamos “novos trabalhos da maquiadora que faz arte usando olho e sobrancelha”?  É isso mesmo? Inaceitável.

 

A matéria, se é que podemos chamá-la assim, provoca mais debate sobre a ética dos jornalistas, do que sobre a prática da tatuagem no olho , que ao fim e ao cabo, eles não falaram e tão pouco mostraram corretamente. Ficamos com a profunda sensação que a gigante preocupação em produzir conteúdo por parte do Catraca Livre, não anda acompanhada com o respeito com as diversidades individuais (e porque não coletivas) que rondam o mundo contemporâneo e tão pouco respeita os seus incontáveis leitores e leitoras Brasil afora.

A preguiça jornalística e a miséria da informação (ou humana) se faz muito clara, até mesmo para as pessoas que não fazem parte da comunidade da modificação do corpo.

 

É lamentável ver um canal com tanto potencial, que até a pouco tinha todo o nosso respeito e admiração, causar tamanho desserviço para a sociedade. E pior, colaborar com a manutenção do preconceito de práticas que já são suficientemente marginalizadas.

Muito provavelmente a pessoa responsável pela matéria não sabe – basta vez a ausência de pesquisa – que no presente momento circula um projeto de lei para criminalizar a prática do eyeball tattoo no Brasil. Ironicamente, o projeto de lei –  por preconceito, preguiça ou prepotência – faz confusão bastante parecida como a que foi feita pela questionável matéria publicada. Talvez seja bom que desastres assim aconteçam para que a população, de modo geral, repense a credibilidade que dá para os meios de comunicação, assim como para os políticos.

Nós do Frrrk Guys em conjunto com o GESMC- Grupo de Estudos Sobre Modificações Corporais, deixamos aqui o nosso repudio pela matéria veiculada no Catraca Livre e nosso pedido de retratação. Não só com a comunidade da modificação do corpo, mas com todos os leitores e leitoras que foram enganados com tal miséria de informação.

Pedimos gentilmente aos nossos leitores e leitoras que enviem notas de repudio para o Catraca Livre.

http://catracalivre.com.br/contato/

https://www.facebook.com/CatracaLivre

Twitter: @CatracaLivre

 

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