‘Robin Hood – A Origem’ traz personagem com escarificações

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Robin Hood – A Origem chega aos cinemas em 2018. Foto: reprodução / Google

 

Um novo filme de Robin Hood – o fora da lei inglês que roubava dos nobres para dar aos pobres – chega aos cinemas em 2018 e tem gerado reações divididas. Com o título Robin Hood – A origem o filme conta com a direção de Otto Bathurst (Black Mirror, Peaky Blinders) e será estrelado por Taron Egerton (Kingsman) e Jamie Foxx (vencedor do Oscar na categoria de melhor ator por Ray).  O longa reconta a origem de Robin Hood como o líder dos ladrões da floresta de Sherwood, em um projeto descrito como mais sombrio – em que Robin retorna das Cruzadas e encontra seu lar assolado pelo mal e pela corrupção.  Jamie Foxx interpreta Little John, um ex-rival de Robin, e que apresenta escarificações em seu rosto e essa é parte que pontualmente nos cabe saber mais, quando o filme chegar nas telas grandes.

 

Jamie Foxx como Little John. Foto: reprodução / Facebook

 

A sinopse do filme diz que:

“A origem da famosa lenda sobre o ladrão que rouba dos ricos para dar aos pobres. Robin Hood (Taron Egerton) volta das Cruzadas e surpreende-se ao encontrar a Floresta Sherwood infestada de criminosos, no mais completo caos. Ele não deixará que as coisas permaneçam desse jeito.”

E tem sido a presença de um ator negro para representar o personagem de Little John que tem causado todas aquelas discussões racistas e que obviamente não se assumem enquanto tal. Pois bem, que somos um país estruturalmente racista não é novidade e também não é novidade que filmes de Robin Hood insiram atores negros em seu elenco, falaremos adiante sobre isso. 

No cinema a trama vem sendo contada desde 1922 e em 2010 voltou ao cinema com direção de Ridley Scott (Alien, Blade Runner, Gladiador) e, levando como protagonista, o ator Russell Crowe (vencedor do Oscar na categoria melhor ator por Gladiador). Mas foi em 1991 com o Robin Hood – o príncipe dos ladrões, dirigido por Kevin Reynolds (O segredo das águas), é que vemos pela primeira vez as questões étnico-raciais marcadas mais pontualmente com a presença do personagem Azeem, interpretado pelo premiado ator Morgan Freeman. Existe a hipótese de que Azeem tenha sido criado com base no personagem Nasir da série de TV Britânica  Robin of Sherwood.

O filme de 1991 teve a preocupação de trabalhar a chamada por alguns críticos de “agenda do politicamente correto” (sic). Todavia, nós preferimos dizer que houvesse por parte do diretor uma preocupação em se discutir  questões e valores contemporâneos, o que incluía o multiculturalismo e o feminismo. Somando ainda, a busca por respeito e equidade de direitos dos grupos chamados de minoritários. Em artigo do livro Raça, classe e gênero no Cinema “Medieval” editado por Lynn T. Ramey e Tison Pugh mostra que o diretor intencionalmente inseriu preocupações modernas – de seu tempo -, o que obviamente rendeu muitas críticas na época. Algumas delas muito parecidas com as de hoje, marcadas pelo profundo incomodo em ver atores negros a trabalhar em grandes filmes. 

Ainda que o filme de 91 pudesse estar bem intencionado ao discutir classe, raça e gênero, ele não é de todo exitoso. Por exemplo, Azeem é um homem brilhante e carrega consigo muitos conhecimentos e, ainda assim, serve como o subordinado do homem branco, Robin. Ele quase se auto-escraviza ao Robin com o clichê “dívida de vida“. Esse desenvolvimento do personagem é prática recorrente no cinema, isto é, ter a pessoa branca como protagonista e as pessoas não brancas servindo de modo subalterno, sempre no segundo, terceiro, quarto plano. É o chamado “negro mágico” (magical negro), termo popularizado por Spike Lee, que é usado incansavelmente para apagar o protagonismo de personagens negros e negras em ficções. Metade da carreira de Morgan Freeman foi construída dessa forma, como pontua Suzane Jardim no artigo Reconhecendo estereótipos racistas na mídia norte-americana:

“Se você parar pra ver, o Morgan Freeman fez metade da carreira dele interpretando esses negros sábios que melhoram a vida do protagonista branco, como em Conduzindo Miss Daisy, Robin Hood, Menina de Ouro, os Batman…”

Outro ponto, é que Azeem é um muçulmano e por ser Morgan Freeman que o representa, a maioria da audiência não fazia a relação com o homem muçulmano mas, então somente, com o afro-americano. E sabemos o quanto os Estados Unidos da América carregam um sentimento e olhar hostil contra as pessoas muçulmanas. Considerando ainda que ele é o único muçulmano bom, generoso e honesto, enquanto os demais que aparecem são cruéis, o que acaba por reforçar os estereótipos, ainda muito fortes até o nosso presente. Para se ter noção, a despeito de toda benevolência de Azeem, ainda é possível achar pessoas que o chamem de extremista islâmico. 

O cinema grande percebeu que a dinâmica da amizade entre o branco e o negro funcionava e vendia muito bem, desde que o protagonismo ficasse com os brancos. Essa relação já havia sido explorada no blockbuster Máquina Mortífera (EUA, 1987), foi explorada em Robin Hood (EUA, 1991) e agora no resta saber como ela será desenvolvida no filme de 2018. Torcemos para que ao menos o longa nos conte sobre as escarificações de Little John e que a participação de Jamie Foxx nos surpreenda mais do que as sequências alucinantes, explosões e um protagonismo que gira e roda e acaba – como sempre – centrado no homem branco.  

Robin Hood – A Origem estreia nos cinemas brasileiros no dia 22 de novembro. Vamos ver o que teremos, enquanto isso confira o trailer abaixo.


 

REFERÊNCIAS
Azeem
http://hero.wikia.com/wiki/Azeem

“It’s Dull, You Twit. It Will Hurt More!”—Robin Hood: Prince of Thieves
https://www.tor.com/2014/01/01/rewatching-robin-hood-prince-of-thieves/

Race, class and gender in “Medieval” Cinema
Lynn T. Ramey, Tison Pugh

Reconhecendo estereótipos racistas na mídia norte-americana
https://medium.com/@suzanejardim/alguns-estere%C3%B3tipos-racistas-internacionais-c7c7bfe3dbf6

Robin Hood Spotlight of the Month
https://www.boldoutlaw.com/robspot/robin-hood-prince-of-thieves.html

Robin Hood: Princes of Thieves: Black Muslims in Medieval Englan
https://aelarsen.wordpress.com/2015/12/26/robin-hood-princes-of-thieves-black-muslims-in-medieval-england/

Robbing the Saracen to Create the Englishman: Islam and Muslims in Robin Hood: Prince of Thieves
https://once-and-future-classroom.org/archives/?page_id=655

Robin sob o capuz – Análise diacrônica da trajetória do ladrão de Sherwood no cinema e a complexidade hermenêutica da arte cinematográfica 
Kelton Bruno Sabatke 

Robin Hood ganha primeiro trailer durante a CinemaCon e gera reações divididas
https://omelete.com.br/filmes/noticia/robin-hood-ganha-primeiro-trailer-durante-a-cinemacon-e-gera-reacoes-divididas/

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