Cris Mofatto: a história das mulheres no body piercing

Assim abrimos o mês das mulheres de 2026.

É urgente que a história do body piercing brasileiro seja contada pela perspectiva das mulheres. Rogamos para que as pessoas que pesquisam na academia (e fora dela), em diferentes áreas do conhecimento, assumam esse compromisso e responsabilidade. Que nada mais é do que um compromisso ético e de reparação histórica. As mulheres sempre estiveram na história contemporânea do piercing. As mulheres sempre fizeram parte da história da modificação corporal, mesmo antes da colonização.

Assumir o compromisso e responsabilidade em contar e salvar essas histórias – enquanto preservação patrimonial do saber – é, ao mesmo tempo, lutar contra o apagamento das mulheres na história, é lutar contra o silenciamento, é brigar contra um tipo localizado de epistemicídio promovido por um sistema patriarcal, cis-sexista e machista.

Nós do FRRRKguys, em nosso bastante curto alcance e trabalho de micropolítica, tentamos colaborar com essas lutas e assim contamos agora a história da body piercer Cris Mofatto. Essa história é salva e contada em um diálogo que tivemos com a profissional, que é uma pessoa que não apenas admiramos, mas que nutrimos muito respeito e afeto. Há anos estávamos esperando por esse momento.

Cristiane Mofatto nasceu em 12 de Setembro de 1976 em Campinas, interior de São Paulo. É perfuradora corporal profissional desde 2001, no entanto, desde 1999 é proprietária do estúdio Sagrada Tinta. É uma lenda viva entre nós e para nossa comunidade.

Em nossa conversa falamos sobre sua relação com as modificações corporais, sobre as violências que atravessam e marcam as mulheridades dentro e fora da comunidade da modificação corporal, falamos sobre a maternidade de uma mulher modificada. Conversamos sobre passado, presente e futuro. Trazemos para luz da memória um tempo que não existe mais, mas que foi fundamental para consolidação e expansão da cultura da modificação corporal, por meio da internet e, em especial, pelo trabalho realizado pelo Shannon Larratt (1973-2013) no BMEzine.

Pretendemos e provocamos com essa conversa que possamos refletir sobre as ausências de mulheres nos grandes eventos de piercing em nível nacional e internacional. As nossas profissionais brasileiras com décadas de experiência e jornada não são lembradas por qual razão? Não são convidadas para falar ou ministrar aulas por quê? É preciso lutar contra o esquecimento útil, o apagamento sistemático e o silenciamento das mulheres que se manifesta pelas beiras bem polidas.

Não poderíamos abrir o mês das mulheres de forma mais apropriada. Agradecemos profundamente a Cris Mofatto por compartilhar a sua história, experiência e memórias conosco. Por ceder seu tempo, compartilhar seu brilho. E, assim, deixamos abaixo registros de nossa conversa. Desfrutem, compartilhem e contem a história de mulheres que são fundamentais para nossa história e comunidade.

Cris Mofatto é body piercer desde 2001.

FRRRKguys: Quais foram os seus primeiros contatos com a modificação corporal?
Cris Mofatto: Minha primeira lembrança de uma pessoa modificada foi na minha infância, quando eu era bem pequena, meu pai tinha um álbum chamado “Raças e costumes do mundo inteiro”. Tinha imagens de pessoas de vários continentes representadas, eu ficava fascinada com aquela diversidade, pois os povos originários da Oceania, Brasil e África estavam ilustrados com suas modificações e adornos tradicionais, aquilo me impressionou muito. Aos seis anos de idade tive minha primeira experiência pessoal: pedi para furar as orelhas, eu era constantemente confundida com menino e não me sentia confortável com isso. Na minha cabeça de criança, o brinco era uma forma de afirmar minha identidade como menina, então, sem medo de ser feliz, fui. Em 1985 ocorreu um interessante impacto cultural na época, foi lançada a novela “Vereda Tropical” e o protagonista tinha a famosa tatuagem de sol e gaiovota no peito. risos Aquilo virou febre! E tudo que cai na mídia, já sabemos como funciona.
Nesse mesmo verão, meu técnico de vôlei apareceu com uma tatuagem inspirada nessa estética. Foi a primeira vez que vi uma tatuagem de perto, foi inesquecível e apaixonante, juro!
Como eu era péssima no vôlei e o horário estava ruim, fui fazer basquete. Ali sofri outro impacto quando conheci a Tânia Café, uma menina linda, negra, com a pele tão escura, lisa, brilhante. Ela usava um visual só dela, tranças estilo nagô, bem compridas e tinha a orelha cheia de brincos coloridos, do lóbulo até o hélix. Afirmo que foi paixão a primeira vista. Sai do treino e corri pra farmácia que minha mãe tinha conta e fiz meus segundos furos na orelha. Já na metade dos anos 90, morando em Rio Claro, conheci o velho Rudy em um bar. Ele era muito tatuado e vendia materiais de tatuagem, mas que figura, gente… Posteriormente fui até a casa dele e fiz uma tattoo com seu filho, esse momento marcou minha entrada mais concreta no mundo da tattoo. Quando me mudei para Campinas, em 1998, logo na primeira semana conheci o Trash, com quem trabalho até hoje. Um amigo em comum nos apresentou e começou a mostrar as modificações dele, acho que ele queria me assustar, porque dizia que eu era hippie e ali o pessoal era mais punk. Ele mostrou os alargadores, depois um branding que estava cicatrizando, muitas tatuagens coloridas, bem feitas e inúmeros piercings. Agora o que foi totalmente novo foi um implante de bolinha no pulso, achei tudo aquilo curioso e divertido. Quando mais eu via, mais interessada ficava. Nada me afastou, pelo contrário. Uma semana depois conheci o Filipe Espindola, lembro de pensar que tinha chegado num lugar bacana, cheio de novidades. Falo principalmente do acervo de livros e revistas que tive acesso, me abriu a cabeça de uma forma que eu tive a sensação que era possível viver com mais liberdade e se encontrar através disso.

O álbum foi lançado em 1958.
Play piercing realizado por Cris.

FRRRKguys: Quais modificações corporais você já teve e tem?
Cris Mofatto:
Tive experiência com 34 piercings, 1 dermal anchor que eu mesma fiz e um implante. Muitos dos meus piercings foi na fase de aprendizado, quando a gente acaba testando antes de fazer nos clientes. A maioria foi uma experiência ótima, usei por anos, até a retirada para o parto do meu filho, depois não recoloquei vários. Agora tattoo, parei de contar quando eu tinha 140 horas no corpo, tenho os braços, costas e pernas completas. Falta a parte da frente do tronco, Mesmo sendo bem tatuada, eu soude uma geração que ainda tem alguns limites pessoais, não me vejo tatuando o rosto, por exemplo. Já o pescoço descendo para o peito é um projeto que eu farei, mas mãos e rosto já não são lugares que me chamam até o momento. Mas também não me vejo morrer sem concluir meu body suit. Vamos ver o que os próximos anos, depois que eu não tiver que ir em reunião de escola, como me comporto. risos

Foto: Acervo pessoal de Cris Mofatto

FRRRKguys: Conta pra gente da sua experiência com implante em 1999?
Cris Mofatto:
Minha experiência com implantes começou lá em 98, quando vi um pela primeira vez, pude pegar, entender o que era. Eu já achei o visual e a proposta incríveis. Logo depois, conheci o Misi Karai e a Alessandra, que foram duas figuras maravilhosas que a modificação corporal trouxe pra minha vida. Eles estavam entre os primeiros a trabalhar com isso no Brasil, o implante do Trash, por exemplo, foi feito em 97, quando eles se mudaram para Sampa. Trabalharam na Tattoo You e depois abriram um estúdio em Pinheiros, que lindo!!! Era muito a frente do tempo: estrutura segura, autoclave quando muita gente ainda usava estufa. Tinha até situações engraçadas de fiscalização pedindo estufa e eles explicando que a autoclave era superior. O Misi era enfermeiro, super inteligente, mente aberta, e o nível de cuidado e limpeza dele era muito acima do padrão da época no Brasil. Quando eu os conheci foi paixão mesmo, muita troca de experiências, livros, revistas… Em 1999/2000 consegui convencê-lo a fazer um implante em mim, porque ele era bem criterioso e só fazia quando confiava na pessoa. Foi uma euforia, na época falava-se em PTFE, que era difícil de achar, fomos atrás numa fábrica longe, mas conseguimos um retalho, um amigo que trabalhava com MDF cortou as peças, demos acabamento com o maior cuidado. Era tudo muito experimental, tentando o máximo de responsabilidade que poderíamos ter na época. Ainda bem que deu tudo certo, ele está aqui há 26 anos. Há uns anos atrás fiz uma avaliação e o ortopedista disse que ele não oferece risco nenhum para meus tecidos ou nervos.

Cris, Misi e Trash em fim dos anos 90.
Experiência de implante de Cris em 1999.

FRRRKguys: Quais são as suas principais referências no meio?
Cris Mofatto:
Minhas principais referências no meio da modificação: Fakir Musafar, o transcendente espiritual mais inspirador do mundo. O Misi e a Ale, que através das nossas conversas e experiências aprendi muita coisa. O Keith Alexander, um modificador e músico, que nunca acreditei que ele apareceu na minha vida. Tínhamos um contato online muito bacana, e ele foi uma grande referência, me dando dicas de perfuração, materiais, cuts e brandings. Era muito atencioso e gente boa, e me passou várias orientações valiosas. O Thiago, o Freak Devil, que hoje é um super veterinário de animais silvestres, trocamos muitas ideias e fizemos várias coisas juntos, como suspensões e rituais bem legais. O Trash me ensinou bastante também. O hiperfoco dele sempre foi totalmente ligado à modificação, como eu tinha dificuldade com inglês, ele me ajudou muito com traduções e conteúdos. Além disso, a APP sempre disponibilizou diretrizes importantes que eram nossa base. E o BME, com seus fóruns de discussões, era um grande espaço de troca, onde quem estava a fim, realmente aprendia bastante.

Misi, Trash e Cris em meados de 90.

FRRRKguys: Sabemos que a comunidade da modificação corporal, principalmente dentro da perspectiva de indústria, produz e reproduz os mesmos padrões de apagamento, silenciamento e violência contra as mulheres. Você iniciou profissionalmente justamente em um momento em que as mulheres eram minorizadas nesse campo. O que você pode nos contar desse momento?
Cris Mofatto:
Na época em que comecei, a comunidade de modificação corporal era muito menor e muito mais estigmatizada. Ter um piercing no nariz ou na orelha já fazia a pessoa ser vista como “exagerada”. Cabelo colorido, tatuagens ou roupas diferentes geravam olhares de reprovação imediatos. No caso das mulheres politatuadas, o julgamento era ainda mais duro. Era comum associarem tatuagem à falta de educação, de família ou de valores. Eu mesma já ouvi frases como “nunca imaginei que alguém como você pudesse ser educada”. Hoje isso soa absurdo, mas era uma mentalidade bastante presente. Muitas pessoas mais jovens nem entendem esse contexto, porque a aceitação mudou muito. Na época, a mulher tatuada era vista como alguém que “não tinha nada a perder”. Havia também uma forte sexualização. Revistas do segmento frequentemente queriam expor mulheres tatuadas com pouca roupa para vender mais, reforçando estereótipos. Cheguei a recusar um convite para capa de revista no fim dos anos anos 90 porque não via sentido em tirar a roupa só para chamar a atenção. Naquele momento questionei abertamente esse tipo de abordagem, porque ele só reforçava a ideia de que a mulher tatuada não merecia respeito. Foi uma discussão intensa, mas eu acreditava – e ainda acredito – que era preciso me posicionar. O preconceito aparecia em situações do dia a dia. Pessoas interrompiam seu almoço para fazer perguntas invasivas, xingavam na rua, já entrei com uma galera num bar e um senhor cuspiu na gente. Muitas vezes fornecedores chegavam na minha loja perguntando “cadê o patrão”, sem imaginar que a dona era eu. Com o tempo, aprendi a lidar com isso de formas diferentes, as vezes confrontando, as vezes respondendo com ironia. Dentro do próprio meio também havia resistência. Nem sempre havia acolhimento entre profissionais, e isso também foi um aprendizado. Hoje vejo um cenário mais diverso e mais aberto: muitas mulheres tatuando, homens perfurando, profissionais ganhando espaço pelo talento. O preconceito não desapareceu, mas a aceitação é muito maior. Eu acompanhei essa transformação de perto e, de certa forma, fiz parte dela. Espero que a evolução continue, sempre com mais respeito pelo trabalho e pelas escolhas de cada um.

Cris facilitando a suspensão corporal.

FRRRKguys: Do seu início como profissional e hoje, em sua perspectiva, quais os principais avanços em relação a presença e participação de mulheres na comunidade e indústria da modificação corporal?
Cris Mofatto:
Hoje o cenário é bem diferente de anos atrás. A partir do momento que a modificação corporal começou a aparecer mais na mídia, as pessoas passaram a entender que somos profissionais, que temos estudo, técnica e que somos pessoas normais. Isso abriu espaço e trouxe mais respeito. Ainda não é o ideal, mas é um avanço enorme. Antes, muita gente entrava na área por identificação, por gostar de modificação e porque não teria espaço em outros mercados. Hoje já é diferente: virou um setor que movimenta dinheiro, que chama atenção de empresários, que enxergam o estúdio como um bom negócio para se investir. Isso mostra que a atividade ganhou valor social e econômico. Por um lado é positivo, porque profissionaliza e amplia o mercado, por outro, a gente também precisa cuidar para não perder a essência e o respeito pela cultura. Vejo muita gente nova entrando na área, famílias procurando informação, jovens querendo aprender de forma séria. É muito bonito ver mulheres ganhando espaço, trabalhando com joalheria, design, perfuração, representação de marcas, isso demonstra que o mercado está amadurecendo.

Cris e amigas…

FRRRKguys: Você tem muita história na comunidade da modificação corporal e anos como profissional. Os eventos educativos da área da perfuração corporal já te convidaram para ser palestrante? O que você pode nos contar sobre isso?
Cris Mofatto: Olha, acho que tem um pouco do “seu passado te condena”. risos
Lá atrás, na época do BME e dos fóruns, já tive alguns atritos com brasileiros porque eu sempre vesi a camisa da prática. Quando via procedimento, material ou cuidado inadequado, eu falava mesmo, explicava, orientava. Já cheguei até a ligar para piercer por causa de cliente com queimadura de produto inadequado para cicatrização. Então, não sei se alguém guardou mágoa, se não lembram ou se nem sabem quem eu sou, não faço ideia. Mas sinceramente isso é tranquilo para mim. Hoje me relaciono muito bem com a galera mais nova, a troca é ótima, divertida, eles brincam comigo, me chamam de “lá vem a Cris de 1800 e bolinha”. Sabe, no fim das contas, o que eu mais valorizo é o reconhecimento dos meus clientes. É quem vem, confia, indica, paga feliz sabendo que está levando qualidade. Meu lema é: entrou no meu estúdio, tem que sair melhor. Meu atendimento é próximo, bem conversado, personalizado e é isso que me realiza. Não tenho paciência para postagem em rede social para me divulgar ou me promover.

Cris perfurando Peco em experiência de Kavadi.

FRRRKguys: Sabemos que você teve a oportunidade de conhecer o saudoso Shannon Larratt do BMEzine. O que você pode nos contar desse encontro?
Cris Mofatto:
Conheci o Shannon em Buenos Aires, estávamos participando da primeira convenção da Revista Piel em 2004. Infelizmente meu contato com ele foi bem superficial. Meu inglês era terrível e ele não falava português, além disso, estávamos bem tímidos. Ficamos próximos, trocamos alguns olhares e sorriso, mas foi basicamente isso. Ele estava com sua companheira da época, a Rachel, que era super comunicativa e gente boa. Acabamos ficando todos próximos ao pessoal da Piel, Nega, Javier, Manni, Komando e uma galera de Oslo, a piercer Cris e o Håvve, que eram da Pain Solution. Aliás, a convenção da Piel foi um arraso, aquele monte de freaks andando com pouquíssima roupa e muito piercing, por um shopping super careta, transgrediram, hein!?

La Negra e Cris.

FRRRKguys: Você é uma mulher com modificações corporais e inicia o seu processo em um momento histórico bastante diferente do que temos hoje. Como foi passar pela maternidade sendo modificada?
Cris Mofatto: Antes de engravidar eu já tinha lido relatos de mães com modificações corporais que sofreram discriminação. A maioria americanas, relatando coisas horríveis dos médicos, falavam de sofrimento exagerado durante o parto por violência obstétrica. Algumas viraram alvo do serviço social , sendo ameaçadas de perderem seus bebês. Comigo durante o parto fui bem tratada, minha médica que fez e a equipe da maternidade era muito tranquila também. Mas meu filho entrou em sofrimento fetal por umas semanas e nasceu as pressas com baixo peso, eu já estava fragilizada por isso e sendo mãe solo, todo cuidado inicial dependeria de mim. Na primeira consulta, o pediatra focou mais nas minhas tatuagens do que no bebê, com perguntas totalmente impertinentes e depois dessa chatice, disse que se eu me descuidasse, meu filho poderia morrer e citou várias situações. Eu senti que estava sendo julgada pela aparência e pra quem já estava mal, entrei em hipervigilância. Um medo constante de algo acontecer, não dormia, mal comia, estava vivendo num ciclo exaustivo de cuidados. Isso aprofundou minha depressão pós-parto. Hoje vejo que não foi a orientação, mas a forma: faltou acolhimento e sobrou julgamento. Eu e o Vicente não precisávamos disso naquele momento. Na semana seguinte, como a situação era delicada, fui na segunda consulta. Por quê? Me diga… Não precisava, né? E dessa vez, pra minha surpresa, fui assediada. Aí sim, nunca mais voltei…

Cris Mofatto e suas perfurações corporais

FRRRKguys: Olhando para o passado e considerando o presente, qual será o futuro da modificação corporal em sua opinião?
Cris Mofatto: Acho que o futuro da modificação corporal é cíclico: tudo o que sobe tende a descer em algum momento. Teve um grande boom de tatuadores e piercers, os preços caíram, mais gente se tatuou, mas também apareceu muito trabalho mal feito, muita gente entrou na área sem se firmar. Agora vejo essas pessoas saindo e lindo se virar como podem. Agora tirando o mercado e pensando na prática, acredito que a modificação corporal é algo ligado à consciência humana. Desde sempre o ser humano modifica o corpo – cabelo, unha, gentes, pele – como forma de expressão daquele momento que ele está vivendo. Enquanto a pessoa pensar e se perceber no mundo, ela vai se modificar. O que muda é a intensidade e a moda, dependendo do meio em que a pessoa vive e o grau de entendimento dela. No fim, a modificação não é sobre ter mais ou menos que alguém, mas sobre expressão. E, por isso, acredito que é impossível ela deixar de existir.

FRRRKguys: Conta pra gente o que a cultura da modificação corporal significa em sua vida.
Cris Mofatto:
Modificação corporal é uma forma de reconhecimento do meu corpo, entendimento dele e do que faz sentido pra mim. É meu trabalho, minha rotina, minhas amizades… As melhores pessoas com quem eu me relaciono e me identifico são modificadas também. Não vejo como algo que eu gosto, sinto que é parte de quem eu sou.

Trash, Cris e Ale.

FRRRKguys: Deixe uma mensagem para as jovens garotas que pretendem se tornar profissionais da área.
Cris Mofatto:
Para as futuras meninas que querem ser piercers e modificadoras, a primeira coisas que eu quero pedir é: cuidem da sua saúde. Busquem aprender com alguém decente, com tempo, com responsabilidade. Porque aprender o ângulo, o material, a técnica, isso não é a parte mais difícil. O mais importante é todo o processo: limpeza, esterilização e o cuidado real com a sua própria saúde e com a do outro. As pessoas que chegam até você estão depositando confiança. Elas têm uma vida, têm histórias, têm parceiros, têm famílias, têm um caminho pela frente. E elas precisam sair íntegras do seu estúdio. Precisam sair bem cuidadas, melhores do que entraram. E a gente que vive esse dia a dia dentro do estúdio, também precisa ter segurança no que faz. A modificação corporal vem para somar, para fortalecer, para ajudar na construção da nossa própria imagem, então ela precisa ser positiva. Ela precisa ser feita de forma segura, limpa e responsável. Não pode trazer consequências como doenças ou resultados de decisões impensadas. Não pode comprometer o corpo, nem a integridade física e emocional de ninguém. Por isso, pense sempre primeiro na saúde, a sua e a da pessoa atendida. Depois, no que você está oferecendo. No cuidado, no carinho e na responsabilidade que você coloca no seu trabalho. E nunca esqueça: tudo o que a gente faz volta. E muitas vezes volta em maior proporção. Então, cuide de você e tenha pelas outras pessoas o mesmo amor que você tem por si mesma.