Mídia genérica: Reflexões sobre a abordagem da modificação corporal pela grande mídia

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“Engraçado que tudo isso chegue agora em tantas conversas em Nova York, e espalhe-se na imprensa, quer seja em um tom de horror (“Olha o que estão fazendo com seus próprios corpos”) ou com um tom de desprezo (“Ah, são só um bando de marginais, primitivos modernos, alienados ou rejeitados por uma América que se torna cada vez mais exclusivamente high-tech”
(CALLIGARIS, 1996, p. 110.)

 

É interessante pensar que foi na década de 90 do século passado que tivemos a introdução e a popularização da internet e dos computadores pessoais no Brasil. Isso aponta que os adeptos das modificações corporais, nas décadas de 80 e início de 90 conseguiam obter informações sobre suas práticas principalmente através de jornais, revistas e da televisão, que por sua vez, tratavam a questão de forma preconceituosa e bastante rasa. Sem generalizar, mas sem deixar de mencionar que a grande maioria trabalhou assim.

De lá para cá muita coisa mudou no que se refere as formas de trabalhar e se fazer comunicação. Obviamente que ainda existem as poucas corporações que dominam o mercado, mas graças à internet já se tornou possível e eficaz outras formas e campos de se trabalhar.

Se por um lado nas últimas décadas muitas coisas mudaram no mundo, o que aparentemente tem tentado se manter inalterado é o olhar preconceituoso sobre as modificações corporais.

Foi mediantes aos recentes e recorrentes discursos criados pela grande mídia, que a fim e ao cabo alimentam e colaboram com a formação de uma imagem preconceituosa e equivocada sobre as pessoas e profissionais da modificação corporal, que resolvemos escrever algumas linhas.

Ficamos refletindo muito sobre essa questão e inclusive na possibilidade de que a pessoa – profissional ou entusiasta – da comunidade da modificação do corpo teria que chegar ao ponto de viver sob o voto do silêncio, no sentido da relação com a grande mídia.

Tentaremos levantar aqui alguns pontos que consideramos importantes dessa relação entre corpo modificado e grande mídia.

De que mídia falamos¿ Qual a importância de se falar sobre as modificações corporais com a imprensa¿ São questões que estiveram rondando essa breve reflexão.
 

A mídia genérica é a de que falamos

Na tentativa de sermos bastante claros, queremos elucidar de qual grande mídia tratamos. Em suma falamos de todas essas grandes corporações e impérios que existem no país. Essas grandes máquinas que na grande maioria das vezes têm abordado as modificações corporais sem conseguir passar do limite de serem produtoras e reprodutoras de estigmas sociais.
Uma vez que reconhecemos que estas não são especializadas no assunto, a chamaremos daqui em diante de mídia genérica.
Se calar não é o caminho

“- Como você enxerga a percepção da mídia sobre modificações?
– A maioria das matérias contém inúmeras informações incorretas, do tipo “piercing é perigoso” ou “se você fizer uma tatuagem não irá conseguir emprego”. De qualquer forma, a divulgação na mídia ajuda a mostrar que é algo normal, e não se trata de uma tribo, um movimento, ou coisa de artista de circo.”
Lost Art (2002)



Percebemos que sempre que acontece uma nova pérola – seja na televisão, em revistas, jornais ou websites –surge o texto, quase que de imediato, que questiona o motivo que levou a pessoa – o sujeito do corpo modificado – a participar da proposição ou exposição.
Os mais radicais culpabilizam as vítimas, com a justificada de que as coisas estão fixadas, no caso o preconceito, e que justamente por isso elas não deveriam aceitar a exposição. Pensamos muito sobre essa colocação e chegamos a conclusão de que discordamos dela. Pelo motivo de que é preciso se posicionar, com conhecimento de causa e lucidez.

Chamamos de vítimas as pessoas que participam e que colaboram com a mídia genérica, pois não há palavra melhor para definir a situação. São vítimas ao passo que essas pessoas são muitas vezes humilhadas publicamente através de um discurso ocidental, cristão, capitalista, machista, racista, classista e opressor; são vítimas uma vez que as suas falas são claramente manipuladas; são vítimas por serem tratadas como anormais, inumanos, patológicos; são vítimas por terem as suas profissões menosprezadas, reduzidas e estereotipadas; por fim, são vítimas quando fica evidente que o respeito está ausente dessa relação.

| O recente caso de Luciano Iritsu com a folha de SP é um exemplo.
| O caso da Rede Record com o splash supension é um exemplo.
| VIEIRA, João Luiz. O barato da dor. Revista Época, São Paulo, 17 Março de 2003.

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Como se é sabido as modificações corporais são práticas seculares, sociais, políticas e culturais. As pessoas que alteram os seus corpos hoje, não estão fazendo nada de novo – exceto no uso das tecnologias aplicadas -, mas sim dando continuidade ao movimento que tem acompanhado a própria história do ser humano no mundo.

Quando alguém que tem modificações corporais é convidado para participar de uma produção da mídia genérica, o ponto base da elaboração do diálogo deveria ser esse, além do tão ausente respeito com o próximo. O que se percebe é que se negam o reconhecimento das práticas de modificar o corpo como fenômeno social e cultural. As produções forjadas pela mídia genérica morrem e matam em canto raso.

Cabe frisar que as construções no campo das ideias não são fixas. O preconceito não está fixado, ele é uma construção histórica que pode e acima de tudo deve ser combatido e alterado. Obviamente que suas raízes estão fincadas profundamente no solo das ideias no mundo, mas nem por isso se torna impossível de serem confrontadas. Falar publicamente sobre os processos de modificações corporais – que por si só subvertem a lógica e padrão estético vigente – é uma posição política, ao mesmo tempo de resistência e ataque.

É importante perceber que não são as pessoas da comunidade da modificação corporal que precisam se envergonhar, se esconder ou viver em clausuras, acreditamos que a mídia genérica é que precisa mudar a forma com quem vem tratando o assunto e elaborando o seu discurso. São eles que precisam ter vergonha do que foi feito até agora, que só mostra o quanto estão despreparados.
Assim sendo, precisamos falar e saber defender as nossas práticas e principalmente precisamos apontar as falhas dessa mídia genérica. Precisamos mostrar que não aceitamos mais esse modelo jornalístico falacioso de ser. Que não aceitamos mais ser tratados como monstros e doentes. Que não aceitamos mais que faltem com respeito com a profissão do body piercer e do tatuador que é tão legítima quanto a de um advogado ou a de um próprio jornalista. Não aceitamos mais, pois essa ofensiva prática jornalística vigente simplesmente embasada no senso comum não se sustenta.
Mediante aos séculos de história que envolvem as modificações corporais, eles têm muito o que aprender.

Estar preparado é preciso

Percebe-se em nossas pesquisas que um mesmo canal da mídia genérica pode abordar a modificação corporal de maneiras distintas, seja para apedrejar ou para elaborar uma reflexão construtiva. Por isso cuidado ao generalizar. Os exemplos disso são vários e podem ser vistos na Revista Veja, Rede Record, Globo, SBT, Folha de São Paulo e a lista segue.

Percebemos também que conta o histórico de produção do jornalista, que nem sempre fica tão claro. Excetos dos reacionários declarados e famosos. Na maioria das vezes demandaria tempo pesquisar quem é o jornalista e principalmente o que ele já fez.
Havendo dúvida, pesquise ou converse com pessoas que já participaram das produções da mídia genérica. Como sabemos, confiar apenas na palavra da mídia genérica em si é arriscado. A chance de que faltem com respeito é sempre existente, precisamos traçar estratégias de autoproteção.

Por outro lado, temos os canais da grande mídia que é óbvio que pretendem tratar o tema de maneira pitoresca, ofensiva e estigmatizada. Aceitar participar de programas populares com seus apresentadores cheios do questionável humor brasileiro é cair na armadilha e se tornar piada pronta. Uma pessoa que aceita participar, por exemplo, do Programa do Ratinho, Leão, Luciana Gimenez, Cristina Rocha já pode esperar por uma produção de caráter duvidoso. Nesse caso deixa-se de ser vítima e se torna cumplice de um sistema cruel.  Veja bem, não se trata de uma posição pessoal, é o histórico dessas pessoas que aponta isso. São pessoas que trabalham em nome de um entretenimento perigoso e isso é importante ter em mente.

| Mulher vampira no Programa do Ratinho;
| Cain no Programa do Ratinho;
| O recente caso da Rede TV com as Misses Tatuadas é um exemplo.

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Afim de fomentar a discussão e aprimorar a reflexão, conversamos com as jornalistas e autoras do livro Corpo Extremo, Nathalia Abreu e Priscila Soares, para saber qual seria a posição delas em relação a falar ou não com a mídia genérica.

 “Essa questão envolve dois problemas principais: o primeiro é a falta de instrução de quem vai entrevistar (porque alguns jornalistas claramente fazem as perguntas com base no senso comum, no gosto pessoal ou de acordo com a política editorial do veículo em que trabalham); em segundo lugar, está a falta de preparo/inocência de alguns entrevistados. Frisamos que em nenhum dos dois casos isso é generalizado; há jornalistas que pesquisam a fundo antes de fazer uma entrevista, e há entrevistados que se preparam antes de responder.

Quem se propõe a dar uma entrevista, precisa estar ciente da repercussão que isso pode gerar. O entrevistado precisa antes entender como a mídia se comporta nesse caso (principalmente a grande mídia) para não abrir brechas para rótulos e taxações que possam comprometer a imagem passada pelo restante da comunidade da modificação corporal.

Sabemos que algumas vezes, assim como dentro de outros temas polêmicos, o que as pessoas falam pode ser distorcido. Entretanto, nem sempre é realmente isto que acontece: muitas vezes as respostas não são suficientes. Se alguém se propõe a ir num programa de televisão sensacionalista, precisa saber bem como é a abordagem desse apresentador, por exemplo, para não servir de suporte simplesmente para expor a modificação como “algo bizarro”.”

Para concluir, mesmo que aparentemente a maioria dos artigos e produções que analisamos tenham nos mostrado um tratamento bastante duvidoso em relação a modificação corporal no Brasil, caminhamos de encontro com a fala de Roberto Medeiros, afirmando que “a divulgação na mídia ajuda a mostrar que é algo normal” e além disso, que são modos de vida possíveis e principalmente dignos.
Novamente dizemos, os perpetuadores do preconceito é que precisam se calar e se envergonhar da pequenitude de suas ideias.
As modificações corporais podem ensinar muito para esses sujeitos.

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About T. Angel

No cenário da modificação corporal brasileiro desde 1997, inicialmente como entusiasta e posteriormente atuando no campo da pesquisa. Parte de seu trabalho está incluso no livro "A Modificação Corporal no Brasil - 1980-1990" e grande parte depositada aqui no FRRRKguys.com.br.