Sobre seguir agressores de mulheres, simpatizantes do fascismo e outras conversas sobre um mundo quebrado

Temos um mundo quebrado.
Adoecido, quebrado.

Quebrado pela configuração de um sistema – feito pelas classes dominantes para as classes dominantes – desde que o jogo começou a ser jogado. Adoecido porque precisamos entender que ele é histórico e socialmente construído dentro de uma perspectiva do poder, para manutenção do status quo das classes dominantes e que afeta diretamente a vida das pessoas esfarrapadas do mundo. Vidas esfarrapadas que não importam nessa configuração sistêmica de mundo que temos.

As classes dominantes adoecem o mundo. As classes dominantes quebram o mundo. O mundo está doente, as classes dominantes não, elas são perversas, vis e cruéis. Nas palavras de Nêgo Bispo (1959-2023), podemos dizer que as classes dominantes são cosmofóbicas.

Temos um mundo quebrado.

Em recente episódio no programa Big Brother Brasil 2026, o participante Pedro Espindola assediou e importunou sexualmente a Jordana Morais, segurando o seu pescoço, tentando beijá-la forçosamente… No confessionário o próprio Pedro, que já deixou o programa, afirmou que “faz dias já querendo me segurar para não ficar olhando os outros, cobiçando os outros, as meninas, a Jordana principalmente, porque ela é muito parecida com a minha esposa”. A mesma esposa que ele repetidamente dizia ter traído e pelo seu comportamento predatório, bem… Bem…

Pedro, que agora está sendo investigado pela polícia do Rio de Janeiro, acumula outras acusações: ameaça de um segurança em Curitiba; abuso e agressões de ex-namorada; tentativa de beijo em outra participante quando da Casa de Vidro. São acusações que provavelmente serão investigadas de agora em diante.

O combo de atitudes e acusações deveriam fazer com que uma pessoa como essa não recebesse nenhum tipo de apreço social ou notoriedade, ao contrário, não é mesmo? Pois. Mas aparentemente nesse mundo quebrado que temos, oferece-se o louro e o cetro para quem faz a manutenção da configuração perversa de sistema que temos. Após a situação de assédio e importunação sexual e a desistência de Pedro Espindola do BBB 26, ele ganhou mais de 50 mil seguidores e o número segue crescendo. Crescendo, crescendo e o que está muito distante de ser um caso isolado. Crescendo, crescendo como também tem acontecido com os casos de violência contra as meninas e mulheres. Crescendo, crescendo como os casos de feminicídio.

Mundo quebrado. Misoginia. Feminicídio.

Nos Estados Unidos da América, temos o caso aterrorizante de Wade Wilson. Condenado e sentenciado à morte pelo assassinato brutal de duas mulheres em 2019, se tornou idolatrado, uma celebridade e o título de “galã tatuado”. O agressor de mulheres e assassino – que está no corredor da morte – recebe milhares de mensagens de fãs (inclusive de muitas mulheres) e tem muitas fanpages no Instagram, por exemplo, houve uma época em que uma das páginas tinha muitos seguidores. Wade tatuou o seu restou quando na prisão e carrega uma suástica nazista nele. É…

Segundo a Variety, a Paramount+ está desenvolvendo uma série documental intitulada como “Lindo demônio: assassino charmoso” que estará disponível em 2026. “‘Lindo demônio’ revela uma obsessão e fascínio perigoso por um assassino brutal e condenado na era digital”, disse Susan Zirinsky, presidente da See It Now Studios, para Variety. E continua, “a série documental explora a interseção entre o crime real e a cultura da internet, com relatos perturbadores e chocantes daqueles que professaram seu amor, bem como daqueles que lutaram por justiça”.

Mundo quebrado. O amor pelos assassinos de mulheres. O… O… Amor por assassino de mulheres?

O caso de Wade Wilson mexeu como o nosso ego. Quando descobrimos do sucesso que ele estava fazendo nas redes, nos sentimos muito sem esperança e desmotivades em continuar aqui. Estamos há quase vinte anos produzindo conteúdo sério e responsável e nunca passamos nem perto de qualquer tipo de apreço e atenção que esses homens desprezíveis recebem. Mas é isso o que temos e o que recebemos. Temos realmente um mundo quebrado e na nossa desimportância, seguiremos trabalhando na perspectiva da micropolítica contra a produção dessa configuração de sistema que temos. Não apenas modificando os nossos corpos, mas modificando a forma que nos colocando no mundo. Radicalizando a nossa experiência. Radicalizando. Rupturas.

Temos um sistema cruel. Temos a chance de escolher se queremos endossá-lo ou se de algum modo pretendemos produzir rupturas. Nós nos comprometemos com as rupturas e com as desistências. Se escolhemos continuar seguindo pessoas – e páginas – que abertamente são fascistas, que negam a vida, que agridem mulheres, que assassinam mulheres e inviabilizam o futuro, temos que ter consciência que estamos sendo parte do problema. Toda vez que sabemos do sucesso que agressores e assassinos de mulheres fazem, após os casos se tornarem públicos, só entendemos mais que o nosso trabalho é muito maior do que poderíamos supor.

Os casos desenvolvidos aqui estão muito distantes de serem isolados. Nós sabemos. Vocês sabem também. Repetimos. Os casos desenvolvidos aqui estão muito distantes de serem isolados. O que mais precisa acontecer para vocês soltarem a mão de agressores, abusadores e assassinos de mulheres? O que mais precisa acontecer para vocês soltarem a mão de simpatizantes do fascismo? O que mais precisa acontecer para vocês entenderem?

Não tenha agressores, abusadores e assassinos de mulheres de estimação.
Não tenha fascistas de estimação.
O que implica na tomada responsável de decisão. Ação. Ruptura.
Vamos?