Homofobia no futebol, piercing no umbigo e a famigerada masculinidade tóxica e frágil

O ano é 2026.

A masculinidade cisgênera e heterossexual tem sido debatida no Brasil com muita força, diante dos aumentos dos casos de violência contra meninas e mulheres e o feminicídio, manifestação crua e explicíta da misoginia perpetrada por homens. É impossível viver no Brasil dos últimos anos e não saber – e se indignar com – o que está acontecendo com as meninas e mulheres. A não ser que você seja um homem cisgênero e heterossexual e realmente não se importe com nada disso.

Aparentemente….
São muitos os homens cisgêneros e heterossexuais que…
Não se importam.

Apesar de todos os debates que envolvem a construção hegemônica de masculina, aparentemente seguimos andando para trás com passadas velozes e largas. Há uma pressa em voltar para o grau mais cru da barbárie. Busca-se conservar a configuração do macho violento, agressor, abusador e estúpido. Aplausos, aplausos.

Não existe mais homem como antigamente“, eles dizem. E mais uma mulher foi brutalmente violentada.

A Instituição Futebol é responsável pela manutenção dessa pedagogia que constrói o macho violento. O macho misógino, que – em estádio ou qualquer bando que seja/esteja – cantarola em coro as marchinhas homolesbotransfóbicas e misóginas. A mesma Instituição Futebol que constrói o macho que aceita e celebra outros machos agressores, abusadores, estupradores de todos os tipos, mas que nunca aceitaria tranquilamente reservar os mesmos esforços e suporte para um atleta – companheiro de time – que fosse abertamente homo/pan/bissexual. Exemplos não faltam, procure saber… Tem os que estão presos, os que estão soltos vivendo tranquilamente suas vidas e aqueles que se tornaram pastores evangélicos. É… Eu ouvi um amém?

Eles costumam chamar esses homens perversos de “meninos”… Sabemos, sabemos bem quem eles são.

E é importante dizer que obviamente vemos ações de resistência e enfrentamento dessa configuração de macho dentro da Instituição Futebol, todavia, é igualmente importante reconhecer – como tática de sobrevivência – que são ações de micropolítica de baixo impacto. Importantes, claro que são, mas com tantas e incontáveis limitações. Nenhuma mulher e pessoa LGBTQIAPN+ está segura na Instituição Futebol.

Agora em abril tivemos dois casos similares com dois atletas, que escancaram o abismo civilizatório que temos e o quanto a homofobia e o machismo estão presentes na Instituição Futebol. Falamos do caso envolvendo dois homens, cisgêneros e heterossexuais, de times diferentes e que carregam agora em comum uma história marcada pela discriminação e o ódio. Ambos divulgaram em suas redes sociais imagens em que os seus umbigos perfurados aparecem. Seria apenas um piercing no umbigo no corpo de um homem cisgênero e heterossexual… Mas nunca na cabeça do machinho de rede social.

Na cabeça limitada do macho violento, o piercing no umbigo é estritamente relacionado com a feminilidade, e no caso dos atletas, com a homossexualidade. Na cabeça desses mesmos machos violentos e intelectualmente limitados, a homossexualidade ainda é algo que se deva ter vergonha, que se deve odiar, combater e destruir. Ah! A cabeça do macho… É só vento que se vê. E ódio, claro, muita estupidez e ódio. Limitado que só… Mas não tenha dó não!

Depois do piercing no umbigo…

Cristian Medina e seu piercing no umbigo. Foto: reprodução

O meia Cristian Medina do Vasco tem recebido comentários como “medina ou menina?” e muitos dizendo que ele será contratado pelo São Paulo, time popular e estupidamente associado com homossexuais na chave daquilo que é ruim. O que era para ser uma simples fotografia compartilhada em uma rede social, virou páginas e páginas no noticiário. Qualquer três segundos de leitura dos comentários, é possível sentir vergonha e asco na mesma proporção. A masculinidade hegemônica, do macho violento, está muito, mas muito distante de sofrer qualquer tipo de abalo. Por isso não temos que ter dó, mas precisamos aprender organizar a nossa raiva.

O atacante Diego Tarzia do Esporte Clube Vitória também tem recebido muitos ataques homofóbicos por conta de seu piercing no umbigo. Assim como suas outras modificações corporais, o atleta exibe em suas redes sociais, apesar de toda ignorância e ódio.

O piercing no umbigo do jogador Diego Tarzia do Vitória. Foto: reprodução/Instagram

O ano é 2026…

Toda vez que nos deparamos com notícias assim, entendemos a força política que as modificações corporais têm e a nossa escolha em não sentar na mesma mesa que muitas pessoas e, com isso, ampliar o chamamento pela construção da Comunidade Freak, onde esses machos violentos não têm espaço e nem vez.

Dennis Rodman com seu piercing no umbigo em 1993/94. Foto: reprodução/John W. McDounough

E nunca podemos nos esquecer que o gênero é uma construção social – assim como o corpo, lembra do Manifesto Freak? – e que já escrevemos um longo texto sobre Qual o gênero do seu piercing? (LEIAM! LEIAM! LEIAM!), em que a nossa amada Zuba contou que no começo de sua carreira enquanto perfuradora, o piercing no umbigo era procurado majoritariamente por homens, cisgêneros e heterossexuais dos motoclubes. Para além das motos, em 1993 o Dennis Rodman, lendário jogador de basquete, do Detroit Pistons, aparecia publicamente com seu umbigo perfurado. Posteriormente pela indústria cultural – no rock com o lendário clipe Cryin (1993) do Aerosmith, no pop com Baby one more time (1998) da Britney Spears e com o axé music no Brasil, representado no corpo de umbigo perfurado de Carla Perez de 1998 em diante – que vamos ver o adorno sendo feminilizado para a sociedade normativa.

Perceba, o piercing aparecer mais em corpos femininos de 1993 em diante, em nenhum momento significou que homens não pudessem mais adornar seus umbigos, mas algo como “olha, todas as pessoas que desejarem, podem adornar os seus corpos”, principalmente considerando o controle histórico do corpo das mulheres e a retirada de seus direitos em decidir sobre si, a mensagem foi importante, o problema foi o que fizeram com ela. Há de se destacar que na cultura da modificação corporal e na cena underground, o piercing no umbigo sempre esteve para qualquer corpo independente do gênero.

A sociedade hegemônica e normativa tem muito o que aprender com a comunidade da modificação corporal e, em especial, com a Comunidade Freak.

Enquanto isso não acontece…

Como é frágil a masculinidade hegemônica. Tóxica, tóxica… Frágil, frágil…
“Basta um furo e tudo desmorona”, como disse lindamente nossa professora Gabrielle Weber.

Ps. Deixa os machinhos descobrirem o Prince Albert, o Ampallang. o Vertical Clithood
Pss. Deixa os machinhos descobrirem a meatotomia…

Risos!