O fetiche em ver pessoas freaks sem suas modificações corporais 2.0

fetiche
substantivo masculino
[Psicologia] Objeto ou parte do corpo que pode ser erotizado para satisfazer os desejos de alguém.
Dicio – Dicionário Online de Português

É preciso sublinhar que o mundo está configurado dentro de uma perspectiva de normatividade compulsória, ou você entra na caixa na norma ou vão querer te enfiar em caixões. (E nem nos caixões haverá dignidade).

Dentro da perspectiva da normatividade compulsória, o olhar sobre a cultura das modificações corporais e pessoas freaks é atravessado pela patologização, criminalização e satanização. Espera-se que a relação de uma pessoa com a cultura das modificações corporais seja “só uma fase”, usualmente – de modo etarista – associada com a adolescência… A configuração de mundo que temos vai forçar de muitos modos e com muitos agentes para que realmente “a fase” passe. Patologização, criminalização e satanização.

Site BZN. Foto: reprodução/Instagram

E quando “a fase” dura a vida inteira?

Existe o discurso recorrente de que pessoas que modificam seus corpos, de que pessoas freaks, estão a se estragar… Tornando-se feias, grotescas, bizarras. Com um tom de assombro e escarnio dizem: “olham o que estão a fazer com seus corpos?”

OLHAM O QUE ESTÃO A FAZER COM SEUS CORPOS.
OLHAM O QUE ESTÃO A FAZER COM SEUS CORPOS.
OLHAM O QUE ESTÃO A FAZER COM SEUS CORPOS.

Então, sobre as pessoas com modificações corporais e/ou pessoas freaks, que ultrapassam a noção do “é só uma fase” a expectativa dessa normatividade compulsória passa a ser a do arrependimento, a da vergonha, a do sofrimento e da danação eterna. Isso tudo vai ser dito de muitas maneiras. Algumas vezes – muitas vezes – explicitamente.

Então, passamos a assistir as campanhas virais em que se escolhiam uma pessoa com muitas modificações corporais (usualmente tatuagens no corpo todo, incluindo rosto) para cobri-la de maquiagem, mostrando “olha como essa pessoa foi” ou “olha como essa pessoa poderia ser” ou “olha como essa pessoa deve ser”. É uma espécie de fetiche normatizador – eugenista, eugenista – que alcança o seu gozo quando a pessoa que passa por esse processo da maquiagem decide (decide?) remover suas tatuagens. Orgasmos múltiplos quando além da pessoa remover as tatuagens, ela também se converte em alguma religião judaico-cristã. Da satanização ao milagre. Do fetiche ao orgasmo.

Agora com as Inteligências Artificiais entramos em uma nova fase do fetiche em relação aos corpos modificados/inscritos/freaks. Tem circulado pelas redes sociais vídeos em que um punhado de pessoas com muitas modificações corporais e/ou pessoas freaks, que têm uma visibilidade significativa, são apresentadas com suas modificações e posteriormente sem todas elas. Já nos deparamos com três versões diferentes desses vídeos eugenistas de inteligência artificial, mas com a mesma premissa. Empresas que vendem serviço de remoção de tatuagem com laser, estão a utilizar esses vídeos com uma espécie – muito questionável – de propaganda. É… o capitalismo e a normatividade compulsória nunca andam separados. Acompanhados sempre da igreja…

Recusamo-nos acreditar que seja algo neutro, inocente e que minimamente atende uma curiosidade infantil em saber como a pessoa seria sem suas modificações. Sobretudo quando conhecemos a nossa história e sentimos na pele – todos os dias – esse apetite voraz da normatividade compulsória em nos capturar/devorar/assimilar.

E NEM NO CAIXÃO HAVERÁ DIGNIDADE
E NEM NO CAIXÃO HAVERÁ DIGNIDADE
E NEM NO CAIXÃO HAVERÁ DIGNIDADE

Já tivemos o infortúnio de ir no velório de uma pessoa freak e ter nossos corações dilacerados por uma perda dupla, a morte de uma pessoa amada e a sua destruição simbólica. Em um caixão, seu corpo frio deitado sem vida, seus piercings e alargadores todos removidos e seu rosto fortemente maquiado escondendo suas tatuagens que outrora eram exibidas de modo radiante e orgulhoso. Isso é a normatividade compulsória em ação.

Passa-se o tempo, mudam as tecnologias e as formas, mas o discurso segue sendo o mesmo.
Destrua a ilusão. Eles sabem exatamente o que estão a fazer.