O body piercing no filme “Sem Sentido” de 1998

O ano era 1998 e o filme Sem Sentido (do original: Senseless) chegava aos cinemas, levando o body piercing para o grande público. Dirigido pela estadunidense Penelope Spheeris (1945-presente), guarde essa informação, o longa foi escrito por Greg Erb (sem dados públicos) e Craig Mazin (1971-presente) e se enquadra na categoria comédia romântica.

Tem como protagonista Darryl Witherspoon, intepretado por Marlon Wayans (1972-presente), um jovem negro universitário e que é explorado de inúmeras maneiras para conseguir dinheiro, que é direcionado para sua mãe e irmãos. O seu corpo negro e pobre é demasiadamente explorado, em muitos e tantos sentidos. Ele doa litros de sangue e seu esperma para conseguir levantar algum tipo dinheiro, enquanto concorre para uma vaga de emprego. O principal concorrente é um playboy branco e herdeiro.

Darryl tem como companheiro de quarto e amigo o Tim LaFlour, interpretado por Matthew Lillard (1970-presente), um jovem branco universitário, freak e com inúmeros piercings pelo seu corpo. É sobre ele que vamos falar.

Tim LaFlour em Sem Sentido. Foto: reprodução / divulgação

Sem Sentido rompe com a lógica de associar as modificações corporais com vilania, marginalidade, patologia e/ou demonização. Todavia, cai em outro discurso bastante solidificado pela normatividade compulsória que é o da “é só uma fase”. Algo que se torna perigoso quando a noção de fase também está atrelada com a bissexualidade da personagem. Mas eram os anos 90…

Há de dizer que o filme também cai na repetição de ser – sempre – o homem branco que tem algum tipo de autorização para se modificar. Analisamos recentemente aqui no FRRRKguys os filmes Mad Max e os 47 Ronins com seus padrões repetitivos na indústria do cinema.

Pois bem, no entanto, Tim LaFlour por não estar associado com aquilo que é ruim, nos oferece outro tipo de narrativa. Há uma doçura confusa na personagem e inegavelmente um carisma acolhedor. Estamos falando de 1998, nessa época, o BMEzine só tinha 4 idades de idade, ou seja, a visibilidade dos corpos modificados estavam em outro momento da história. Definitivamente outro.

Tim tem um visual punk, reforçado pelas camisetas de bandas que veste. Apresenta um X na mão, o que o apresentaria como uma pessoa straight edge, mas tudo fica no lugar da caricatura típica das produções humorísticas… Das abstinências exageradas (sem drogas, carne, sexo e etc, etc, etc…).

Tim LaFlour explica sobre o X em sua mão. Foto: reprodução / divulgação

Sua relação com o body piercing é intensa. O seu rosto é bastante adornado, mas sabemos também de seu piercing no umbigo (onde ele carrega uma chave) e os genitais sonoros. É um filme que fala sobre body piercing e fala sobre perfuração genital com abertura, isso em 1998. O famigerado Prince Albert é fortemente citado. Falamos em sonoro porque Tim carrega correntes nos piercings genitais que produzem som, sim, é o alívio cômico.

“O piercing tem a ver com dor e prazer. Por exemplo, quando você tem aquela dor interior, aquela fome pelo sucesso. E quando você consegue… Fica uma beleza…”
Tim LaFlour

Sem Sentido reforça e sustenta a ideia do “é só uma fase” até o fim… Terminamos o filme com o Tim LaFlour com outro visual e, claro, sem suas modificações corporais. Veja bem, para muitas pessoas realmente as modificações corporais são fases que passam, porém, quando colocada pela indústria cultural enquanto a única narrativa possível, isso colabora com a construção de um imaginário coletivo preexistente sobre determinada cultura. Fim ao cabo, saindo da ficção, haverá uma pressão social – que é forte e agressiva – para que todas as pessoas tenham a modificação corporal como realmente uma fase que há de passar. Quando não caímos na ideia etarista de que modificação corporal “é coisa de jovem rebelde”, isto é, com tempo de duração determinado. A grande fome da normatividade compulsória em capturar corpos e subjetividades que escapam dos padrões sociais historicamente e compulsoriamente impostos. O desejo da normatização – captura e assimilação – das vidas desobedientes.

Tim LaFlour em Sem Sentido. Foto: reprodução / divulgação

Voltando para o filme, certamente que, exceto por algumas perfurações das orelhas que eram reais, as demais eram efeitos práticos e de maquiagem, mais um típico freak fake. Mas há de se considerar que é um dos poucos filmes que oferecem algum tipo de “visibilidade positiva” sobre corpos modificados.

Tim LaFlour em Sem Sentido. Foto: reprodução / divulgação

Pedimos lá em cima para vocês guardarem a informação do nome da Penelope Spheeris, diretora do filme, pois bem… Ela também dirigiu importantes filmes documentais da contracultura e do underground norte-americano, entre eles destaca-se: The Decline of Western Civilization I, II e III (1981, 1988 e 1998), que discutem a cena punk e do metal nos Estados Unidos. Além da ficção Suburbia (1996), um drama que fala da história de jovens punks suburbanos. Ela tem conhecimento e repertório sobre pessoas dissidentes e freaks e, pode ser por isso, que Tim LaFlour foi construído da forma que foi e apresentado como um raro típico positivo de freak na cena contemporânea. Com seus problemas e excessos, é verdade, mas inegavelmente bastante diferente de tudo o que vemos sobre nós na indústria cultural.

É um filme que descobrimos recentemente, coisa de três anos apenas. Curiosamente todos os outros filmes que retratam a nossa comunidade estritamente na chave da vilania, de algum modo chegaram antes até nós, em tempo real… As pessoas falam mais, indicam mais e isso diz alguma coisa… Isso diz alguma coisa.

Estejamos com a atenção sensível e ligada.