Cara indústria do body piercing, por favor e de uma vez por todas, respeite as mulheres!

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Não sabemos quem criou esse meme abaixo. Não queremos saber, na verdade, não queremos mesmo saber.
Não queremos tão pouco saber quem compartilhou esse meme, mas sabemos que ele foi compartilhado. Não uma, não duas e sim algumas dezenas de vezes e por pessoas, em sua maioria homens, diferentes. Ao que parece não foram apenas homens brasileiros, até mesmo porque o machismo é uma estrutura universal.

Imagem original que circula na rede.

Abaixo listamos alguns pontos problemáticos que tal imagem carrega:

1) A imagem objetifica o corpo da mulher, isto é, banaliza sua existência. A propaganda e publicidade tem usado bastante esse artifício, ou seja, de reduzir a mulher à um objeto – sexual – e com isso vender determinado produto. Obviamente que existe uma pressão das mulheres para que isso tenha fim e, recentemente, algumas grandes marcas de cerveja estão revendo os seus posicionamentos – que tem sido o de estereotipar e hipersexualizar esses corpos – e repensando em como tem sido feita essa abordagem na publicidade ao longo da história. É uma mea culpa tardia e que não apaga anos e anos de exploração.

2) A imagem alimenta a cultura do estupro. O termo foi cunhado na década de 70 por feministas americanas e, de acordo com o Centro das Mulheres da Universidade Marshall, nos Estados Unidos, é utilizado para descrever um ambiente no qual o estupro é predominante e no qual a violência sexual contra as mulheres é normalizada na mídia e na cultura popular. Você não precisa ser um estuprador para que isso aconteça. Ao consumir – sem senso crítico algum – músicas que ofendem mulheres, assim como, disseminar vídeos, imagens (tal qual o meme aqui citado), comentários e piadas sexistas, por exemplo, você contribui para que a objetificação da mulher seja reforçada. Você contribui com a manutenção  da cultura do estupro.

3) A imagem reforça o lugar subalterno da mulher dentro da indústria do body piercing. No Brasil, por exemplo, temos uma mulher lésbica que fez parte do começo da história do body piercing, tal qual o conhecemos hoje. No entanto, sua figura é de certa maneira tornada invisível ou guardada em um segundo plano. Ainda hoje, raramente mulheres estão ministrando aulas para formação de novos profissionais, embora tenhamos excelentes profissionais mulheres e com anos de experiência, embora grande parte das pessoas que procuram esses cursos de formação sejam também mulheres. Isso é apagamento e silenciamento por sexismo machista! 

4) A imagem é um desrespeito profundo com todas as mulheres da indústria. E além dela. Acho que essa parte a gente não precisa explicar.

5) A imagem não é sobre questão de opinião. Opinião é sobre gostar ou não gostar de azul; usar ou não usar a rosca interna; achar piercing bonito ou feio. Utilizar a imagem de uma mulher de quatro – sugerindo um ato sexual anal – para falar sobre rosca de joia de piercing é sexismo machista escancarado e tudo o que já citamos acima. Ficou com dúvida? Coloque um homem heterossexual na mesma posição. 

6) A imagem é ofensiva. Se mulheres – piercers ou não, isso não importa – estão dizendo que se sentem ofendidas em como estão sendo retratadas na imagem, ouça. Mas ouça de verdade. Se você compartilhou o meme, não se justifique antes de ouvir o que elas têm a dizer. Depois de ouvir, se desculpe e procure uma forma de reparar o erro. Repensar o seu machismo seria uma boa forma de começar. Mas se desculpa também com a sua indústria e melhore. Sério, melhore.

Respeitem todas as mulheres, respeitem as mulheres da indústria, respeitem suas colegas de profissão, respeitem suas clientes. Tenham ética, tenham responsabilidade no que dizem, fazem e compartilham na rede. É uma vergonha ter que escrever sobre isso e inaceitável que esse comportamento que coloca em risco a vida de mulheres exista dentro dessa comunidade. Safe Piercing (piercing seguro) é também tratar as mulheres com respeito, lembrem-se disso sempre, toda vez em que respirar.

 

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About T. Angel

No cenário da modificação corporal brasileiro desde 1997, inicialmente como entusiasta e posteriormente atuando no campo da pesquisa. Parte de seu trabalho está incluso no livro "A Modificação Corporal no Brasil - 1980-1990" e grande parte depositada aqui no FRRRKguys.com.br.