Carta para a body piercer que perfura gatos…

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Não faça modificações corporais em animais. Foto: reprodução/Facebook

Osasco, 16 de Novembro de 2019

Cara body piercer,
Recentemente chegou até nós que você colocou piercings nas orelhas do seu gato. Tomamos conhecimento do fato por meio da nota aberta que você publicou em seu perfil do Facebook no dia 14 de Novembro de 2019. Fizemos a leitura esperando de verdade, de alguma forma, que você pudesse se desculpar pelo grande equívoco. Ledo engano.

Resolvemos então escrever essa carta aberta para você e, ao mesmo tempo, direcionando para as pessoas que se simpatizaram com o seu feito, repetindo: perfurar as orelhas de um gato. Escrever essa carta não tem a intenção de promover o seu linchamento virtual ou o de destruir sua carreira de quase 20 anos no meio da modificação corporal. Embora tenhamos plena consciência de que tudo o que fazemos – enquanto pessoas e profissionais de uma determinada área – gera marcas em nossa história. Aquela lei de ouro da física de que toda ação gera uma reação, sabe? A primeira pergunta que te deixamos é: quais marcas você deseja para a sua história pessoal e profissional?

É verdade que lemos a sua nota e assim como nos decepcionamos em não encontrar um pedido de desculpa, sentimos que ficamos dando voltas em torno de um grande vazio. Vivemos tempos em que tentam se justificar o injustificável e a sua nota foi apenas mais um exemplo.

No seu texto vimos que você se defende, tentando provar – inicialmente de modo sútil e depois bélica – o quanto é uma pessoa boa e o quanto se preocupa com os animais. Não temos dúvida que você acredite naquilo que escreveu sobre si.

A verdade é que seres humanos falham e são imperfeitos… No entanto, não podemos deixar de dizer que a sua autodefesa acabou por colidir e se desmanchar no momento em que você justificou a perfuração que fez no seu gato porque ele é seu e ponto final. Um discurso de posse e de disputa de poder típico do especismo. Já que você diz gostar tanto dos animais recomendamos muito que você leia mais sobre o especismo, assista o documentário Terráqueos (2005) que pode te ajudar nessa parte. Não é uma imposição mas sim uma sugestão que te deixamos.

Sentimos que tudo piorou um pouco mais quando vemos você misturando o fato de ser pisciana e o de que é body piercer há 18 anos, cabeleireira há 20 e tatuadora há 8, o que não faz muito sentido, por vários motivos. Vários mesmo… O principal motivo que fica martelando em nossa cabeça é como uma pessoa que se diz profissional de uma área (no seu caso três) não aprendeu o básico da ética e do consentimento ao trabalhar com corpos. Modificação corporal – em animal humano ou não humano – sem consentimento se configura como uma violação. Partindo da ideia de que nenhum animal não humano tem a capacidade de tomar a decisão sobre o que será feito em seu corpo, seria sensato de que procedimentos de modificação corporal estéticos estivessem fora do debate. Sem capacidade de consentir, sem procedimento de modificação corporal. Simples assim.

Vimos que você menciona o fato de mães que perfuram as orelhas de suas crianças recém nascidas. E mais uma vez lamentamos que com tanto tempo de profissão você não esteja participando de importantes debates que acontecem na indústria do body piercing. Existe uma corrente forte de profissionais ao redor do mundo que não oferecem mais procedimentos de perfuração em crianças recém nascidas com base na mesma premissa que já mencionamos anteriormente, isto é, o consentimento. E sim, essa corrente – a qual endossamos – considera que perfurar as orelhas de crianças recém nascidas também seja parte de um processo de violação do consentimento, por sua vez, uma agressão.

O que nos preocupa é que a perfuração que você fez em seu gato gerou polêmica nas redes sociais e com isso assistimos muitas pessoas dizendo que fariam, fizeram ou que querem fazer o mesmo com seus gatos. Enquanto escrevemos essa carta, a sua publicação no Facebook tem mais de 200 corações, o que significa: pessoas que amaram o que você fez. Isso é preocupante demais porque muitos animais podem ficar seriamente feridos e é estranho ver que você termina a sua nota dizendo que está em paz e tranquila. Sabe, precisamos ter responsabilidade com as nossas ações e com os efeitos que elas geram. Nós no seu lugar, estaríamos com aflição e preocupação.

Nos preocupa também porque você disse em sua nota que não oferece o serviço para animais não humanos. No entanto, tivemos acesso à uma conversa sua com uma pessoa nos comentários em que você afirmava que prestaria o serviço desde que a cliente cuidasse. Na mesma conversa você disse que tinha joias próprias para usar em animais não humanos. E aqui, novamente, aquela autodefesa que você fez sobre sua índole, fica em jogo… Faz? Não faz? Faz? Não Faz? É.

Entre tantas contradições que a sua nota e o seu trabalho deixaram no ar a gente só esperava um pedido de desculpa humilde e sincero e uma mensagem que não incentivasse que as pessoas perfurassem gatos, nem cães, nem nenhum outro tipo de animal não humano. Nada disso tivemos, na realidade, foi o contrário e isso é bastante triste e preocupante.

Não sabemos exatamente o que você – como boa pisciana que é – deseja com tudo isso. O mundo anda tão complicado. As pessoas andam tão cruéis. Mais de 800 comentários e mais de 500 compartilhamentos gritando (alguns literalmente) que o que você fez foi errado e inapropriado não foram suficientes para te fazer enxergar o que você plantou e onde não acertou. É um pouco inocência – e até presunção – da nossa parte achar que essa carta poderia fazer diferente, diferença e te apresentar uma outra perspectiva na sua relação com o seu trabalho e com os animais. Uma perspectiva em que a ética – a despeito das leis – se configure como parte fundamental e indissociável de suas relações. Entre a nossa inocência e a nossa crença no poder do diálogo, escrevemos.

Que essas palavras possam de alguma forma chegar até aí… Se não em você, em alguém que nunca tinha parado para refletir sobre tudo isso e que conseguiu acender uma nova luz em sua jornada por essa vida.

Caso queira dialogar estamos completamente abertas. Se precisar de ajuda para entender melhor tudo isso, estamos aqui também. Só estamos e sempre estaremos fechadas para o silêncio diante dos abusos e violências que ocorrem no meio da comunidade da modificação corporal, seja com humanos, seja com animais.

Um abraço,
FRRRKguys

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Plataforma criada em 2006 que vive, investiga e fomenta a cultura da modificação corporal e diferentes usos do corpo.