Corpos gordos, gordofobia e modificações corporais

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A tatuadora Scarlath Louyse compartilha sua experiência. Foto: acervo Scarlath Louyse

“Entendemos que compomos uma minoria. Entendemos que, assim como as chamadas minorias, sofremos opressão e parte de um processo de exclusão social e segregação espacial. Por isso e com a plena consciência do sistema violento que vivemos é que endossamos os discursos e lutas contra a misoginia, o machismo, o elitismo, o sexismo, a gordofobia, o racismo, o capacitismo, o etarismo, as LGBTQIfobias, a xenofobia e etc.”
Manifesto Freak

O Manifesto Freak (2015) diz logo em sua introdução que “somos o corpo muito gordo” e, no meio de seus trechos, convida a pessoa que lê o texto ao engajamento na luta contra a gordofobia. Buscando colaborar com as reflexões e discussões propostas pelo Manifesto Freak, o FRRRKguys agora vai tratar sobre os corpos gordos modificados e, como não poderia deixar de ser, tratando também sobre a gordofobia. Agradecemos desde já as fundamentais contribuições de Scarlath Louyse e Maria Luisa Jimenez.

“(…) nossa beleza está na nossa individualidade“. Foto: acervo Scarlath Louyse

A pergunta que precisamos nos fazer – enquanto sociedade – é da importância de se falar sobre os corpos gordos. A professora doutoranda (UFMT) e ativista gorda, Maria Luisa Jimenez, nos ajuda formular uma resposta. Em suas palavras:

“Falar do corpo gordo sem patologizar esses corpos, é muito importante, necessário e de extrema urgência, porque a estigmatização contra esse corpo, a gordofobia, tem transformado a vida de milhares de pessoas em tristeza, solidão e sofrimento, ou ainda, tem levado pessoas gordas a morte, tanto por negligência médica como por suicídios.”

A pesquisadora e ativista gorda, Maria Luisa nos explica sobre os efeitos da gordofobia. Foto: Ju Queiroz

Toda vez – melhor dizendo, sempre – que publicamos algo relacionado ao corpo corpo, principalmente ao empoderamento das pessoas gordas, aparece um punhado de gente relacionando estritamente o corpo gordo com as mais variadas doenças e/ou com aquilo que é feio, como parte do combo, a negação da própria gordofobia. É verdade que algumas pessoas apontam que estamos romantizando a obesidade ou fazendo algum tipo de apologia para que as pessoas sejam gordas. Não faz muito sentido, sabemos disso, mas é o que temos lido.

A professora Maria Luisa nos ajuda a pensar e nos orienta em como lidar com esse tipo de abordagem que se achega por vias da falsa preocupação com o bem estar e saúde. Nas palavras da pesquisadora e ativista:

“A gordofobia sempre está justificada pelo discurso normativo biomédico que associa o corpo gordo a um corpo doente, sem levar em consideração características subjetivas, afetivas e culturais. Parece haver apenas um corpo gordo entre os 52% da população acima do peso no país, o doente.
Existem estudos desde a década de 70, que começaram nos EUA, conhecidos como “fat studies” que estão se espalhando pelo mundo. Aqui no Brasil começamos a observar algumas pesquisas que seguem esse mesmo caminho. Propondo um olhar diferenciado do discurso biomédico que considera todo corpo gordo como doente, através de estudos culturais, sociológicos, antropológicos e filosóficos se faz uma crítica a forma como a medicina vem tratando esses corpos.
Também é importante apontar que a ciência é uma construção social em constante mutação, o que acreditávamos sobre o corpo no século XV não é a mesma concepção que temos hoje, portanto é inocente dizer que a OMS, por exemplo, não pode modificar seu discurso sobre doenças, um exemplo disso é a homossexualidade que já foi considerada como doença a um tempo atrás, ou mesmo a internação de mulheres como histéricas e a valorização da doença histeria, quando se rebelavam contra o sistema patriarcal.
Assim que, devemos entender que a maneira como o discurso biomédico vem tratando as pessoas gordas no mundo tem sido muito ineficaz, já que como eles mesmos anunciam, o número de pessoas acima do peso só cresce.”

Trataremos daqui em diante da gordofobia presente dentro da comunidade da modificação corporal. São incontáveis os casos que ouvimos, ao longo dos anos, de pessoas gordas que passaram por situações constrangedoras em estúdios de tatuagem ou de profissionais das modificações corporais – tatuadores, piercers, modifiers – que usam suas redes sociais para fazerem piadas com os corpos gordos, com as pessoas gordas. Quando questionadas, a resposta de praxe é “mas é só uma brincadeira”. A gordofobia não é brincadeira e tem colaborado com a desumanização de pessoas.

Dentro da mídia específica, e assim o é porque é especializada na área, como postulou T. Angel no livro A modificação corporal no Brasil, o apagamento do corpo gordo também aconteceu fortemente. As antigas capas das revistas de tatuagem – com raras exceções – sempre estampavam mulheres cisgêneros, brancas e magras. Os sites voltados para divulgação da beleza da mulher tatuada como o Suicide Girls, por exemplo, só aprovava ensaios de mulheres magras, com raras exceções. Os concursos de beleza das Miss Tattoos que acontecem nas convenções de tatuagem ao redor do país têm usualmente como ganhadoras as mulheres cisgêneros, brancas e magras, com raras exceções. Nesse sentido a comunidade da modificação corporal, por muito tempo e ainda hoje, acaba reproduzindo o discurso hegemônico de qual corpo pode ser considerado belo e com valor. Todos os demais corpos são os ruídos e que inclusive acabam sendo alvos de apontamentos pejorativos, estigmatizações e piadas quando desafiam o padrão estético dominante. Não faz muito sentido, sabemos disso, as pessoas modificadas quebram alguns padrões estéticos com uma mão e com a outra defendem – com unhas e dentes – a sua manutenção. Por isso escrevemos.

Foto: acervo Scarlath Louyse

Tratamos acima dos corpos das mulheres gordas, mas nós que trabalhamos muito com a intenção de divulgar a beleza masculina dos corpos modificados, sempre esbarramos na questão dos corpos corpos dos homens.

A primeira barreira que enfrentamos era a de que falar de beleza e homens em 2006, nos empurrava para caixa da masculinidade tóxica e ouvíamos repetidamente que o nosso trabalho era “coisa de viado” (sic) e que o FRRRKguys era um “site de viado” (sic) e que por isso não tinha valor algum. Mesmo os meninos modificados heterossexuais que aceitavam ter a foto publicada em nossa plataforma, eram vítimas da homofobia e do machismo.

A outra barreira gritante foi a gordofobia, que igualmente afeta os homens. O ideal de beleza masculino é o corpo magro ou musculoso. Muitos meninos que convidávamos para fazer e/ou enviar fotos para o FRRRKlog recusavam o convite – pois além da homofobia e do machismo – se sentiam fora do peso e, com isso, feios. Alguns aceitavam desde que não fosse sem camisa ou que não mostrasse a barriga. Ouvimos isso por mais de uma década

Existia uma cobrança e pressão – inclusive nossa – para que publicássemos mais fotos de meninos modificados gordos e tentávamos explicar que os meninos não queriam a exposição e nós só podíamos respeitar. Alguns que aceitaram, inclusive, depois de algum tempo pediram a remoção da foto por vergonha. E falar sobre tudo isso não tem a intenção de culpar os meninos, mas apontar os efeitos danosos da gordofobia na autoestima de uma pessoa, independente de seu gênero.

As situações expostas acima já nos apresentam as facetas do que entendemos por gordofobia. Tenhamos claro então que o preconceito estrutural e cultural, a aversão e o ódio contra as pessoas gordas são características da gordofobia, que se manifestam por via da recreação, piada, patologização e exclusão social. Sabemos que os tempos são cruéis e que estamos vivendo um momento de profunda ausência de empatia, mas precisamos parar, ouvir e refletir, até que entendamos de fato os efeitos violentos desse tipo específico de discriminação.

Para além da recreação e da piada, vamos tratar aqui da exclusão social que tem como base a gordofobia. O artigo Corpos inaptos, Sociedade Inóspitapráticas políticas e pedagógicas de exclusão escolar (2019) de autoria da T. Angel, traz a situação do concurso público para o magistério do Estado de São Paulo (2013) que institucionalizou a gordofobia e excluiu diversas pessoas que prestaram o concurso por serem gordas. Por serem gordas essas pessoas foram consideradas inaptas – leia-se: doentes – para exercer a função de professora ou professor da rede estadual.

Para além do Estado, sabemos que diversas empresas não contratam profissionais que tenham seus corpos gordos ou elaboram sua demissão em alguns casos. E é óbvio que essas corporações não vão assumir que é disso que se trata, existe malícia e cinismo na articulação dessas questões todas, como no caso da Michelle Sampaio, apresentadora da Globo no Vale do Paraíba (SP), que foi demitida em março de 2019 por ter engordado depois da gravidez. A Globo negou que tenha sido esse o motivo da demissão, no entanto, não explicou o porquê.

“(…) tem pessoas que são gordas e está tudo bem ser assim“. Foto: acervo Scarlath Louyse

As pessoas que sofrem com esse tipo específico de violência podem desenvolver problemas graves como a anorexia, bulimia, compulsões alimentares, depressão e ideação suicida, como a professora Maria Luisa nos apontou acima. Importante lembrar do caso de Dielly Santos que, aos 17 anos, em janeiro de 2019 se suicidou dentro do banheiro da escola que ela estudava no Pará, onde sofria constantemente com a gordofobia.

A gordofobia nos coloca diante de diversos desafios no campo da acessibilidade, inclusão e respeito, segundo a professora Maria Luisa:

“Nossa sociedade é extremamente gordofóbica porque esse preconceito com pessoas gordas, essa discriminação, leva a exclusão social e, portanto nega acessibilidade. Essa estigmatização é estrutural e cultural, transmitida em muitos e diversos espaços e contextos sociais na sociedade contemporânea. Esse prejulgamento acontece com a desvalorização, humilhação, inferiorização, ofensas e restrições aos corpos gordos de modo geral.
Portanto, existe uma dificuldade no enfrentamento da gordofobia porque ela quase sempre está justificada por preocupação com a saúde e o bem estar da pessoa gorda. A família é gordofóbica, a escola, os médicos, desde a infância e em todas as instituições que a pessoa gorda frequentar vai sofrer dessa estigmatização. Por isso, que a gordofobia é considerada um preconceito estrutural e institucionalizado que desumaniza o indivíduo e faz com que ele perca seus direitos garantidos na constituição, direitos humanos.
Esse corpo perde o direito de sentar numa cadeira confortavelmente em espaços públicos e privados, a vestir uma roupa que goste e escolha, ir ao médico e não ser julgado como doente antes mesmo de realizar exames, de caber nos aparelhos dentro de um hospital, de conseguir a vaga de emprego porque ele é competente, enfim, esse corpo torna-se sinônimo de fracasso, tristeza, preguiçoso, mau, doente, etc.”

Eu me sentia bonita assim, mas as pessoas diziam NÃO”. Foto: acervo Scarlath Louyse

Precisamos muito ouvir as pessoas gordas e aprender de verdade com o que elas estão nos dizendo. Quando falamos sobre o empoderamento das pessoas gordas, não estamos falando de coisa pouca, estamos falando de vida. E, para finalizar esse texto, mas de modo algum a discussão, trazemos o depoimento da tatuadora Scarlath Louyse que gentilmente cedeu sua imagem para que pudéssemos ilustrar essa importante matéria.

Perguntamos sobre a relação que a tatuadora tem com seu próprio corpo e a resposta – que tem um espírito de aula – segue abaixo. E com ela deixamos para você essa grande e profunda reflexão.


“A construção da minha autoestima é um trabalho de formiguinha. Durante minha infância tive relações tóxicas com familiares, amigos, escola, que sempre me ridicularizavam, dizendo que eu era feia, era deixada de lado e muitas vezes quando tentava fazer alguma atividade como balé, por exemplo, as meninas ficavam rindo de mim, dizendo que eu era uma porca dançando, essa estigma do meu corpo era refletida dentro da minha família, dentro dos meus círculos sociais e eu cresci achando que eu era feia, inadequada, que deveria emagrecer.

Tive uma fase muito cruel comigo mesma, me privei de sair de casa, acabava comendo compulsivamente para lidar com a angústia e também não entendia quem eu era realmente, tentei fazer dietas milagrosas, cheguei a forçar vômito e  passar dias em jejum e eu nunca emagrecia ao ponto de atingir o padrão que as pessoas me obrigavam a ser.


É importante rever sobe o passado e dialogar sobre isso, é importante entender que a autoestima não está ligada apenas ao corpo, está ligada a criação, conhecimento, acesso a reflexão interior. Quando olho para trás eu percebo que toda essa construção negativa foi atribuída a mim, não surgiu de mim, no fundo, bem lá no fundo eu gostava de ser gorda mas as pessoas diziam NÃO. Eu me sentia bonita assim, mas as pessoas diziam NÃO. Eu era muito imatura e não tinha consciência e nem referência de pessoas gordas comecei a achar que era verdade.

Há exatamente 9 anos, quando saí de casa, comecei a viver sozinha e enxergar tudo pelo meu ponto de vista, comecei a pesquisar incansavelmente sobre o porque do meu corpo ser errado, se eu realmente deveria mudar.
Foi aí que apareceu uma luz, eu comecei a entender que a estigma do corpo gordo pode ser explicado com o surgimento da moda e mudança dos padrões de beleza, que gordura na verdade não está relacionado a má saúde, preguiça, derrota, desleixo. Como uma pessoa gorda eu faço atividades, danço, me alimento bem, a diferença é que não tenho a queima de gordura e metabolismo de uma pessoa que já  nasceu magra, para acabar de vez como misticismo de que toda pessoa gorda é diabética resolvi procurar auxílio médico e para minha surpresa todos os meus exames estão em dia, eu comecei a procurar referência de mulheres gordas, dançarinas, fotógrafas, artistas, blogueiras, modelos, e eu comecei a aceitar quem eu sou, comecei a ter referências e meu corpo de uma vez por todas se encaixou em algo e o mais importante foi a transformação pessoal.


É necessário muito amor, pesquisa e auto-reflexão para entender que o estigma do corpo gordo é uma construção social e não individual, tem pessoas que são gordas e está tudo bem ser assim, tem pessoas que nasceram gordas. GORDO, GORDA passou a ser uma atribuição à uma pessoa e não um xingamento, eu comecei a sair de círculos tóxicos de pessoas que me magoavam e me denegriam por ser gorda, minha vida melhorou, hoje me sinto mais confiante, menos angustiada, hoje eu só quero retomar todas as atividades que eu desisti um dia por colocarem na minha cabeça que eu era gorda e nunca conseguiria fazer.


Hoje eu danço, canto, faço barulho, faço minhas atividades e acima de tudo sou permissiva apenas com o que me dá prazer.


Autoconhecimento nos liberta, hoje dou ouvidos apenas a pessoas que cuidam das próprias vidas e  entendem que temos que deixa-las livres para tomar as próprias decisões e buscar o que há de melhor nelas. Para que se cobrar tanto? O mundo é torto, as pessoas são tortas, para que eu preciso exigir tanto de mim? Só quero viver com tranquilidade e sempre que possível dizer não e não ser submissa ao discurso de porque sou gorda tenho que me “cuidar”.


Não se sintam mal por serem vocês, não se maltratem, nossa beleza está na nossa individualidade.”

Scarlath Louyse fala sobre amor prório. Foto: acervo Scarlath
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