Facetas da suspensão corporal: a radicalidade da prática

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399206_439006982813376_1440751013_n(Foto de Neil Chakrabarti em uma suspensão de um ponto em Dallas SusCon ’11. Foi a primeira de uma série de suspensões com 1 ponto, que segundo Neil foram feitas em honra de Arwen ‘Spliff’ Rosa.)

Primeiramente gostaríamos de nos desculpar com quem nos lê e acompanha os nossos textos, sei que soamos repetidos, diria até um pouco redundante, em algumas situações. Mas consideramos importante a repetição, até mesmo por saber que nem todos leem todas as nossas publicações. Algumas questões precisam ficar bastante claras e acreditamos que a nossa luta ronda em torno disso. Antes a repetição para alguns, do que migalhas para todos.

O primeiro ponto a frisar quando se pensa e se fala de suspensão corporal é que ela se dá por uma série de motivações. Não uma única via, não um coletivo homogêneo, não uma única causa, mas uma série diversificada, muitas vezes nem complementar. Por esse motivo é que defendemos a ideia de que a suspensão corporal não é arte. Ela vai além. Pode ser arte, obviamente que sim, os trabalhos do Stelarc nos mostra isso e está presente nos livros de História da Arte desde a década de 70 do século passado. Depois dele tantos outros utilizaram (e ainda o fazem) a suspensão corporal na arte contemporânea. Mas é sempre bom reforçar que apesar do “tantos outros”, o que temos na prática é um número bem pequeno de artistas, quando colocado dentro do pacote de pessoas que utilizam a suspensão corporal. Isso porque como dissemos as motivações são diversas e as suspensões dentro do campo da arte são um pequena parte do todo.

Dizer que nem toda suspensão corporal pode ser considerada arte não é o mesmo que desqualificar ou retirar a validade da prática como fenômeno social e cultural.  Mas sim afirmar que a suspensão corporal pode ser arte como também pode ser ritual, autoconhecimento, lazer, prazer e até mesmo esporte radical. O que é preciso levar em consideração é o que levou a pessoa a se suspender. Não é preciso ficar preso ou amarrado. Não é preciso ter que depender exclusivamente da arte para afirmar a prática de se suspender, como aparentemente tem aparecido em vários discursos nos últimos anos.

O vídeo abaixo tem três depoimentos de pessoas distintas que se relacionam com a suspensão corporal no Brasil.

Agora vamos entrar diretamente no foco do texto, buscamos tratar a radicalidade dentro do campo da suspensão. Desculpem novamente pela repetição inicial e por termos nos prolongado na introdução. Mas acreditem é importante e de antemão lamentamos pelo nosso sentimento de Cassandra em prever que muitos interessados em suspensão corporal não vão ler.

A radicalidade da prática da suspensão corporal
Em meados dos anos 90 quando vimos os primeiros registros de suspensão corporal em uma mídia conservadora, ficamos impressionados com a radicalidade da prática. De certa forma foi inclusive o que nos gerou grande interesse.
Sabemos que ainda hoje a suspensão corporal por si só é considerada radical quando encarada pelo olhar de quem não a prática ou de quem não tem contato com quem se suspende. Um suicide com dois pontos (até um que seja), em que a pessoa simplesmente “brinca” sozinha no ar é algo extremo para muitos. Para nós já é meio lugar comum, mas nem sempre foi assim.
Como tudo sofre evolução e mutações, com a suspensão corporal não foi diferente. Vamos agora explorar essa questão.
Temos a impressão que as primeiras posições exploradas (suicide, superman, knees) foram cansando as pessoas que se suspendiam frequentemente. Era como se tivessem se tornado um sexo na posição de “papai e mamãe”, algo comum demais, era preciso recorrer ao Kamasutra, metaforicamente falando.
Com isso, uma série de novas posições foram criadas e exploradas e não parou ainda. Nesse exato momento podemos ter alguém fazendo uma nova suspensão ou estudando uma outra forma de o fazer.

1010273_533789900014798_377295924_n(Catalogado por Shannon Larratt)

Achamos que o limite havia sido alcançado quando o Swing Shift Side Show fez a suspensão pelo rosto em 2011 durante a Suscon de Dallas. Erramos.
Você pode ler e ver o vídeo da suspensão no Modblog clicando AQUI.

bizarre_magazine_40732_12(Foto: Mark Kaplan /Bizarre Magazine)

Surge então, no mesmo ano, o The SINNER team da Rússia com as quedas livres com suspensão corporal, conforme escrevemos AQUI. Foi o momento que percebemos que a suspensão corporal poderia entrar na categoria de esportes radicais extremos. Acreditamos então que aqui tinha sido o limite. Erramos de novo.

Erramos quando queríamos acreditar em limites no campo da suspensão corporal. Chegamos a conclusão que a prática é justamente a quebra, a ruptura com todos os limites.

A última Suscon em Dallas e os vídeos de Neil Chakrabarti (dentre outros praticantes) nos fizeram chegar a essa conclusão, ou seja, não há limites. Além disso, reforçou a nossa teoria de que o corpo não é tão frágil como pensamos. Compartilharemos daqui em diante alguns vídeos para ilustrar o que dissemos sobre a inexistência de limites.

602106_488508384529902_1772084777_n(Primeira imagem de cima foi feita em Fevereiro deste ano na Fetish Revolution (Phoenix, AZ). Realizada por Bill Robinson da Stay Classy Suspensions. Neil puxou para cima Tarah Robinson, deixando-a em um suicide suspension. Foi uma colaboração com o Steve Haworth e Life Suspended na ocasião. A segunda foto é da APP 2011 quando CoRE performou para o 10º aniversário deles. A terceira foto é de uma transição de 5 posições, trataremos abaixo. A quarta imagem é de um Nightmare Before Xmas com AGRO Sideshow, onde foi realizada a ação de almofada de alfinetes humana e terminando com duas lanças de 2 gauges e um suicide.
A última foto, é de uma suspensão com dois pontos nos pulsos em Março de 2011 no encontro de AGRO, Houston, que tratamos aqui no texto também.)

Vamos primeiramente visitar o vídeo da Suscon Dallas 2013. Pedimos a atenção a partir dos 09:50, quando Supa entra em cena. O que assistimos é um verdadeiro embate contra os limites, lembra muito alguns trabalhos radicais de performance art, apesar de não ser uma. Durante um certo período de tempo Supa cria um duelo entre romper a pele e estourar o gancho. É assistido, aplaudido e incentivado por várias pessoas, como acontece normalmente em competições, a diferença é que ali é uma luta dele com ele mesmo. O gancho perde ao ser completamente entortado.

Não foi a primeira aventura de Supa, em 2012 ele já havia feito isso. Você pode ver fotos e ler sobre no Modblog clicando AQUI.

Citamos essa suspensão de Supa, mas poderíamos discutir que ele também já se suspendeu pelo rosto em 2011 e novamente em 2012, fez variações bem complicadas em outras situações e se suspendeu pela nuca com um ponto. Quer mais? Confere o vídeo da suspensão com 10 pontos na face.

Falando agora de Neil Chakrabarti, o que vemos com ele é também um duelo ferrenho contra todo e qualquer limite. O primeiro vídeo nos mostra uma suspensão feita pelo estômago, com um único ponto. Perceba que ele dança enquanto está suspenso. Perceba também que ele não é uma pessoa de proporções pequenas.

No próximo vídeo Neil realiza um vertical pelo peito, inicialmente com dois pontos e passando para um posteriormente. Só para constar, a suspensão vertical pelo peito é considerada uma das mais difíceis de se realizar.

Agora imagine realizar se suspender e realizar uma série de transições com um ponto? Pois é o vídeo abaixo mostra o Neil transitando com cinco posições de um ponto: peito, costas, estômago, costelas e finalizando com as nádegas. Quase surreal!

(Realizada por Steve Joyner, diretor do CoRE, Mike Coons e Buddha do Hooked Suspension Team)

Por fim, no último vídeo feito em Março de 2011 no encontro de AGRO Houston, Neil nos coloca a pensar e reforça o erro em querer trabalhar com limites quando se analisa a suspensão corporal. Aqui ele realiza uma suspensão pelo pulso com dois pontos. Tudo bem, aparentemente nada de anormal. Bem, suas movimentações fazem com que as perfurações cedam tanto a ponto de conseguirmos ver o outro lado. Segundo o que ele nos contou a ideia era que realmente rasgasse.

Citamos pessoas do exterior, no entanto, no Brasil estamos acompanhando os trabalhos dos Diabos Mutantes que caminham bastante para essa direção.
Estaremos de olho acompanhando e compartilhando por aqui o que vem pela frente. Não esperem por limites…

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6 thoughts on “Facetas da suspensão corporal: a radicalidade da prática

  1. Ecelente artigo!
    Gostaria de salientar que o garoto que Neil menciona no começo do artigo, Arwem “Spliff” Rosa é meu filho e foi um dos grandes deciminadores da prática de suspensão corporal, fundador do grupo DHS “DisgraceLand Hook Squad”.
    Ele tbém fundou o show DFF “DisgraceLand Family Freek Show” e tbém the DisgraceLand Demolition Committee entre os anos de 2002 até 2010 qdo ele sofreu acidente de carro indo para Las Vegas e vindo a falecer 1 ano mais tarde.
    A legacia que ele deixou para a comunidade de suspensão é enorme assim como amada e respeitada por todos envolvidos no mundo da suspensão corporal.
    Espero que essa informação seja de bom proveito para você.
    Teka

  2. Ecelente artigo!
    Gostaria de salientar que o garoto que Neil menciona no começo do artigo, Arwem “Spliff” Rosa é meu filho e foi um dos grandes deciminadores da prática de suspensão corporal, fundador do grupo DHS “DisgraceLand Hook Squad”.
    Ele tbém fundou o show DFF “DisgraceLand Family Freek Show” e tbém the DisgraceLand Demolition Committee entre os anos de 2002 até 2010 qdo ele sofreu acidente de carro indo para Las Vegas e vindo a falecer 1 ano mais tarde.
    A legacia que ele deixou para a comunidade de suspensão é enorme assim como amada e respeitada por todos envolvidos no mundo da suspensão corporal.
    Espero que essa informação seja de bom proveito para você.
    Teka

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