Pensando sobre as fronteiras entre modificação corporal e ‘mutilação’

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553184_598960183476125_1910986909_nFoto: Little Swastika

Gostaríamos de começar esse texto com as palavras que o saudoso Shannon Larratt utilizou na introdução do livro Modcon (2001), as quais tomamos a liberdade de traduzi-las:

“Este é um livro sobre pessoas reais. De modo geral, este não é um livro sobre artistas de circo ou aberrações ou pessoas que escolheram fazer um espetáculo público de si. As pessoas que vocês estão vendo aqui podem ter interesses incomuns, mas eles são tão normais e sãs quanto qualquer um de vocês. Se você sente que não pode tratar este assunto com o mesmo nível de respeito que espera ser tratado em retorno, provavelmente você deveria apenas fechar esse livro agora.”

Faremos aqui menos que uma análise, mas algo mais próximo de um esboço de reflexões que nos tomam, sobre pessoas reais. Se vocês acham que não podem tratar o assunto com o mínimo de respeito, faça-nos o favor (e a si próprio) de CLICAR AQUI e procurar algo que agrade os seus olhos. De antemão fica o nosso pedido de desculpas caso nos falte um pouco de clareza.

Compartilhamos aqui, nesse texto, algumas perguntas que sempre estão presentes em nossas reflexões sobre as práticas de se alterar o corpo: quando acaba a modificação corporal e começa a mutilação? Onde está a fronteira que separa uma coisa da outra? Quem define essas fronteiras? Impossível não dizer que são algumas perguntas que surgiram também após lermos o que o tatuador Little Swastika publicou no final do ano passado, em um dos textos mais interessantes que tivemos a oportunidade de ver ultimamente sobre as práticas da body modification. No texto em questão ele narrou a sua maior fronteira que havia sido ultrapassada: a amputação de seus dois dedos anelares.

Apesar da nossa demora em escrever sobre esse assunto, gostaríamos de reforçar que muito obviamente não foi só agora que nos surgiram essas questões, ou seja, a relação entre modificação corporal e “mutilação”. Correto dizer que elas veem nos acompanhando por décadas. Toda pessoa que passou por algum procedimento de modificação corporal – visível ou não – já deve ter se chocado com essa questão. Seja através de um auto questionamento ou ouvindo por parte dos outros. Ela – a questão – sempre surge.

O depoimento de Little Swastika nos provocou (e encorajou) mais e em um momento que entendíamos melhor sobre as nulificações. Entendemos melhor, inclusive, após acompanharmos com uma certa proximidade um amigo que havia decidido amputar um de seus dedos também.

Assim como o Little Swastika, nos perguntamos se a ideia de mutilação – quase sempre empregada de modo pejorativo – não seria apenas uma questão de perspectiva de quem vê, levando em consideração o contexto histórico e cultural em que a prática se realiza daquele que em que o “olheiro” se encontra. Há de se memorar que muitas pessoas consideram um simples body piercing como mutilação. Cansamos de ouvir esse tipo de discurso de pessoas que não conhecemos, de gente da mídia, de familiares e assim por diante. A mesma conotação recebem as outras modificações corporais e, deste julgamento, nem a suspensão corporal escapa. Curioso e enfadonho é, que na tentativa de justificar o body piercing ou a tatuagem como não sendo uma mutilação (o que em nosso ponto de vista realmente não é), pessoas de dentro da comunidade da modificação corporal vão reproduzir discurso bastante similar (e igualmente negativo e pejorativo) sobre práticas mais extremas, inclusive sobre as amputações. A introdução do eyeball tattooing nos mostra bastante isso, como antes já havia nos mostrado o branding e os implantes. Acreditamos que a gente nunca deve defender ou justificar algo, rebaixando ou ofendendo outro. Com isso a gente não só não defende aquilo que queremos, como reproduzimos de maneira leviana o mesmo discurso com julgamento de valores, em sua maioria, intolerante, opressor e fora de razão.

Entendemos também que em uma sociedade que cultua a perfeição física, que tem um histórico vergonhoso de como lidou com os corpos de pessoas com deficiência ao longo do tempo (e ainda hoje), que valoriza a normatividade (de sexo, de gênero, do corpo e da vida) acima de todas as outras coisas, não é fácil compreender a escolha de um indivíduo de – por iniciativa própria – remover alguma parte de seu corpo. Não é fácil compreender a escolha individual de uma pessoa sobre o próprio corpo em uma sociedade em que a cultura de massa busca incansavelmente a homogeneização, a disciplina, o controle, a dominação e a domesticação. Sobre o controle do corpo (e de sua respectiva subjetividade) é possível aprender bastante através dos estudos do filósofo Michel Foucault (1926-1984), “a disciplina, segundo a genealogia foucaultiana, diz respeito tanto a uma modalidade de poder que se caracteriza por medir, corrigir, hierarquizar, quanto torna possível um saber sobre o indivíduo” (PINHO, 1998, p. 189).

Falando ainda sobre o controle do corpo, que deve ser considerado também a luta de classes: em nosso país as mulheres pobres morrem por não terem direito ao aborto, o que é um controle do corpo por parte do Estado e deste pela religião (embora o Estado seja laico, dizem…); em nosso país, as pessoas transexuais pobres encontram as maiores dificuldades para terem acesso aos tratamentos hormonais e médicos e aquelas que sonham com a cirurgia de redesignação sexual morrem muitas vezes sem ou morrem nas mesas clandestinas ou se suicidam, o que é um controle do Estado e deste pela religião, que grosso modo não enxergam a pessoa trans como ser humano, apesar do discurso ser outro;

“Essas técnicas que permitem o controle detalhado das operações do corpo, que realizam a sujeição permanente de suas forças e lhes impõe uma relação de docilidade-utilidade, são o que Foucault chama de ‘disciplinas’. Estas visam à formação de uma relação que torna o corpo humano tanto obediente quanto útil, constituindo uma política de coerções que trabalham sobre o corpo, ‘uma manipulação calculada de seus elementos, de seus gestos, de seus comportamentos’. Essa política passa a ter domínio sobre o corpo dos outros, para que operem como se quer, através das técnicas. A disciplina, arte das técnicas para a transformação, tem por alvo os indivíduos em sua singularidade. E o poder de individualização tem como instrumento a vigilância permanente, classificatória, permitindo distribuir os indivíduos, julgá-los, medi-los, localizá-los e, por conseguinte, utilizá-los ao máximo. Desta forma, ‘a disciplina fabrica corpos submissos e exercitados, corpos ‘dóceis’” (NIEMEYER; KRUSE, 2008, p. 464).

Acreditamos que as modificações corporais, ao seu modo, rompem com algumas práticas da submissão e com as normas vigentes de controle do corpo da nossa sociedade. Embora sejamos entusiastas e otimistas, mantemos os pés no chão e por isso dizemos que o rompimento não é total. Somos corpos dóceis também, salvo raras exceções.
Fato é, escolhemos – por iniciativa própria e de maneira consensual – mudar os nossos corpos. O pouco da liberdade que nos resta sobre as nossas vidas, dá permissão para isso. Porém essa estrada tem um caminho tortuoso. Principalmente quando a escolha envolve remodelar o corpo através da remoção de alguma parte, em casos assim a dificuldade só se potencializa. Fomos condicionados para isso como nos mostra Ortega (2002), quando diz que:

“(…) a ideologia da saúde e do corpo perfeito nos levam a contemplar as doenças que retorcem a figura humana como sinônimo de fracasso pessoal. ‘É uma religião secular’, diz David Morris, ‘da qual os deficientes e os desfigurados estão, evidentemente, rigorosamente excluídos a não ser que estejam dispostos a representar o papel ossificado designado para eles nos dramas baseados na realidade pessoal, esforço e realização” (p. 158)

Esse condicionamento nos faz lembrar que “em qualquer sociedade, o corpo está preso no interior de poderes muito apertados, que lhe impõem limitações, proibições ou obrigações” (FOUCAULT, 2004, p. 126), o que é bastante perigoso. Não só por ter o poder de patologizar uma pessoa que escolhe remover um dente ou uma falange, ignorando a sua necessidade estritamente pessoal e a sua autonomia sobre si; como também oprime a direito de uma mulher decidir sobre seu útero; tal qual considera que uma pessoa trans tenha “transtorno mental” segundo a OMS; como também coloca barreiras em casos no qual a remoção de uma parte do corpo implica na sobrevivência ou melhora na qualidade de vida.

Gostaríamos de problematizar a última questão com o caso da Drika, que após longo tempo lutando contra o câncer, optou pela remoção de sua perna. Abaixo reproduzimos um depoimento que elas nos concedeu:

A luta contra o câncer começou na perna esquerda. Eu o venci, mas a infecção hospitalar persistiu. Foram anos de luta para preservar minha perna, até que percebi que iria perder a vida pra salvar um membro que me causava dor, angústia, revolta, pois queria viver.Pronto. Minha decisão estava tomada:  amputação. Médicos, psicólogos, todos preocupados com a minha atitude, mas eu já havia decidido arrancar aquilo que iria me matar aos poucos.
Termo de amputação assinado, lá vai eu sorrindo pra mesa de cirurgia. Eu iria me livrar de uma dor insuportável, de dezenas de antibióticos, de toda aquela morfina que me deixava quase viva e quase morta. A infecção estava praticamente incontrolável.Eu iria me livrar de uma dor tão grande e perversa, que não saberia descrever em palavras!
Acordei da anestesia, estava viva! O coto estava inchado, mas bem branquinho, tão limpo, sem sinal de infecção que me fez abrir um sorriso de alivio. Voltei a dormir. Eu tomaria mais algumas semanas de antibióticos, mas sabia que estava perto do fim e mais perto de um novo começo. A felicidade era muita. Eu me sentia livre.
Me mudei de São Paulo para Curitiba, deixei o passado pra trás. Fisioterapias até o dia de tirar as medidas  da tão esperada prótese. Adaptação e aprender a andar novamente. Me olho no espelho e vejo uma mulher vitoriosa.
Tudo numa perna mecânica me encanta. A prótese é mais uma parte da minha modificação corporal. E por que uma deficiente física com tantas tatuagens, estilo muito diferente dos outros? Porque tenho gostos e sentimentos, porque sou humana, sou mulher como qualquer outra. A tatuagem proporciona o prazer de mandar no meu próprio corpo. Agora eu que escolho as agulhas com tinta, não com morfina.  Estou no controle e colorindo meu corpo, me fazendo feliz com essa arte. Cinco anos se passarem após a amputação  e minha meta é ter uma prótese que se adapta melhor ao meu ritmo de vida.
Tenho consciência de que lutei, e lutei muito para preservar um pedaço de mim, mas, no final, optei  por salvar minha vida. Não sou apenas uma perna, sou um ser de corpo, prótese, arte e alma.”

1017629_10152189371319158_328407197_nDrika em fotografia de Priscila Nunes.

O caso de Drika nos mostra que somos o nosso corpo e não apenas uma única parte dele. A amputação dela fala sobre a necessidade de permanecer viva. Apesar de terem bases distintas, ainda assim, nesse sentido a amputação de Little Swastika não se distancia e, em nosso ponto de vista, comunga do mesmo discurso e desejo. Ele removeu os seus dedos para se sentir mais vivo.  Ambos estão felizes com os seus novos corpos em que pesou a decisão e escolha pessoal de cada um. Decisões estas que foram deles, somente deles.

A nós cabe o nosso próprio corpo, todas as partes que o compõe e a nossa vida, que deveria ser o suficiente. Apontar o dedo para julgar a escolha do outro ou tentar classificar em alguma nova patologia a escolha individual de alguém, de sua subjetividade que não conhecemos completa e profundamente (pois a nós ela é externa) é uma grande perda de tempo. É um grande desperdício do nosso potencial humano, demasiados humanos.

Para concluir, não estamos fazendo aqui uma apologia para que todas as pessoas removam partes de seus corpos deliberadamente. Tão poucos estamos negando o Transtorno de Identidade de Integridade Corporal (TIIC), que tem gerado bastante discussões nas áreas médicas e que temos lá as nossas ressalvas. Não é nada disso! Estamos apenas refletindo sobre pessoas reais e com desejos e necessidades igualmente reais. Gente que trava batalhas pessoais pelo direito de decidir sobre os seus próprios corpos. Julgar é muito fácil, difícil mesmo é compreender. O processo de entendimento leva tempo, mas é gratificante quando alcançado. E mesmo que você nunca compreenda o que leva uma pessoa a remover uma parte do corpo, trate-a com o mesmo respeito que você gostaria de ser tratado.

“(…) se hoje o corpo tende a ser compreendido nas artes e na ciência, na mídia e no cotidiano de milhares de pessoas como sendo um espaço de infinitas possibilidades, atuais e virtuais, não resta dúvida de que descobri-lo adquire ares de uma grande e fascinante empresa. Mas se cada um é considerado o principal descobridor dessa riqueza supostamente inesgotável, fica para cada um, igualmente, não apenas a tarefa de superar os limites do próprio corpo, mas, também, aquela de inventá-los. E, como em qualquer redescoberta do corpo, quando se pretende superar limites, também é necessário fabricá-los.”
Sant’Anna (2000)

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About T. Angel

No cenário da modificação corporal brasileiro desde 1997, inicialmente como entusiasta e posteriormente atuando no campo da pesquisa. Parte de seu trabalho está incluso no livro "A Modificação Corporal no Brasil - 1980-1990" e grande parte depositada aqui no FRRRKguys.com.br.