Réplica para a Associação dos Tatuadores e Perfuradores do Brasil

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Esse texto não é um ataque aos body piercers, nem aos tatuadores e tão pouco seria um ataque direto ao presidente da associação à qual me refiro. Não é e nem poderia ser. Esse texto é para tentar responder as menções que recebemos em uma publicação feita pela Associação dos Tatuadores e Perfuradores do Brasil.
Utilizamos esse espaço e não outro, pois acreditamos que são dados importantes para registrar sobre a modificação corporal brasileira no contemporâneo.

 

Primeiramente, precisamos dizer que entendemos que essas técnicas de modificação do corpo e seus respectivos profissionais não são categorias antagônicas, mas sim complementares. Não acreditamos que todas precisem ou devam caminhar juntas o tempo todo, o que não reduz em absolutamente nada o respeito que temos por elas individualmente. Inclusive a nossa existência se dá por conta de todas elas, isto é, da tatuagem, do piercing e também dos implantes, das escarificações e, inclusive, do eyeball tattooing. Talvez seja o momento de separar umas das outras, como o discurso atual parece propor e pedir. No entanto, até o momento não há separação total, a história está em curso e segue.

 

Repetindo e reforçando, não temos nada contra o body piercing e tão pouco aos perfuradores profissionais. Vibramos em ver um Eduardo Bez em Brasília com um estúdio exclusivo para o body piercing. Assim como vibramos quando soubemos que a Zuba voltaria a perfurar em São Paulo. Tanto quanto lamentamos o fim da Body Piercing Clinic do Andre Meyer. Nosso carinho pelo body piercing é gigante, não sejam injustos dizendo o contrário. É importante esclarecer que não fomos nós que inventamos o termo body piercing básico, inclusive adoraríamos saber de onde surgiu essa terminologia. Não sei de onde tiraram a ideia de que ser um body piercer é vergonhoso, mas para quem acompanha a história desses profissionais no Brasil, como estamos fazendo desde 1997, só vemos motivos para se orgulhar. Vocês passaram da completa marginalização para o descrédito, e superaram. Passaram por um processo de ascensão e queda, e sobreviveram. Provaram que são capazes para todos que diziam o contrário e continuam. Que bom.

 

Feita essa “introdução”, vamos diretamente ao assunto. Essa semana a ATPB – Associação dos Tatuadores e Perfuradores do Brasil novamente voltou a afirmar publicamente que é contra a pigmentação ocular, mas não contra aqueles que tem os olhos pigmentados. Em nossas cabeças não conseguimos dissociar uma coisa da outra e esse posicionamento, muito nos faz lembrar aquilo que o pastor Silas Malafaia costuma dizer em suas entrevistas públicas, ou seja, que ama os homossexuais (assim como bandidos assassinos), mas que discorda 100% de suas práticas.

 

A associação questiona e critica o modo em que a técnica se colocou no Brasil, o que realmente é plausível e precisa acontecer. Em outras palavras, nós também questionamos isto, também não achamos que aconteceu da maneira mais correta. Acreditamos que as críticas podem ser construtivas e que tais questionamentos todos ajudariam em uma possível melhoraria na área da modificação do corpo nacional. No entanto, há de se lembrar que caso exista a aprovação de uma lei criminalizando essa prática, esse processo de aprimoramento técnico, vai ser interrompido para sempre. O que consequentemente implica em agravar todos os riscos, que não são poucos e  que já existem.

 

Na publicação feita pela ATPB se falou sobre a questão da liberdade individual como um direito do cidadão desde que não ofereça riscos. Para nós a ideia de liberdade individual deveria ser auto explicativa, em outras palavras, é uma liberdade de escolha e decisão que diz respeito ao indivíduo. Oferecendo risco ou não. Entenda que não me restrinjo aqui somente ao procedimento de pigmentação dos olhos. Entendemos que uma pessoa, maior de idade, estando em plena sanidade e consciente de todos os riscos (seja de uma lipoaspiração ou pular de paraquedas, para exemplificar), deve ter o direito de decidir se quer ou não quer.

 

Para problematizar ainda mais a questão da liberdade individual, há menos de um ano eu tive que passar por um transplante de córnea, que não tem nenhuma relação com o eyeball tattooing, tenho uma doença que se chama ceratocone. A médica me passou todos os riscos – acredite, são muitos – e, inclusive, repetiu várias vezes que eu poderia prejudicar o transplante do meu outro olho, que eu deveria esperar para operar mais velho. Em todo caso, a decisão final deveria ser minha. Não foi um processo simples, mas a minha decisão foi em fazer o transplante, ainda que – a minha ação de escolha – pudesse – como reação – cegar os meus olhos. Felizmente tudo correu bem e voltei a enxergar. Mas corri o risco e exerci a minha liberdade individual. Exercer o poder de liberdade individual implica – algumas vezes – em riscos sim.

A ATPB pede muito para que tiremos as nossas próprias conclusões e eu espero de verdade que os nossos leitores e leitoras o façam. O direito individual não está sendo mal interpretado por nós, ele está sendo considerado em lato sensu. Um direito individual sobre o corpo cerceado e controlado pela decisão do discurso médico, do Estado e de políticos, não é mais individual. Uma pessoa que decide em fazer um eyeball tattooing não está atentando contra a própria vida, ela está exercendo o seu poder de escolha.
Acho mesquinho e egoísta ficar pensando em possíveis prejuízos que a escolha das pessoas e poder de decisão dariam aos cofres públicos do Estado. Para não dizer completamente desvirtuado da questão. Nós não podemos decidir, subjugar ou menosprezar o que é uma necessidade para o outro. O Estado tem sim a obrigação de proporcionar para a população um aparato de saúde, independentemente da decisão e o que levou determinada pessoa a necessitar do sistema de saúde público. Nada é tão gratuito e oportunista quanto parece, também pagamos impostos e incontáveis taxas para ter acesso nesses serviços. Assim como as pessoas que são contra a pigmentação da esclera também pagam. Não pensamos que essas possíveis pessoas que possam, por ironia do destino, danificar seus olhos durante um procedimento de eyeball tattooing vão sair batendo em suas portas para pedir ajuda. Que bom, pois sabemos de antemão que essa ajuda não aconteceria. O que nos soa triste, mas enfim…

 

Por isso dizemos que antes de haver uma interdição reguladora do Estado sobre os nossos corpos e subjetividades, ou se preferir especificamente sobre o eyeball tattooing, existem outras etapas que podem ser seguidas. Não precisamos que se criem mais crimes e criminosos, já temos o suficiente e pior, não damos conta nem deles. Precisamos tentar melhorar as coisas de outra forma.

 

Se podemos falar que o Estado tem algum papel nisso tudo, acreditamos que seria o de controlar a elaboração da tinta, como também a qualidade de todas as modificações corporais que existem (do implante de silicone nos seios ao implante de teflon na testa) e de outras que estamos inventando e estamos descobrindo. Controlar essa elaboração e a qualidade e ajudar as pessoas que passam por esses procedimentos, que exercem as suas liberdades individuais, que por fim é uma liberdade social. Mas precisa ser um controle de elaboração e qualidade de verdade, sem ser seletiva, sem ser controladora, sem ser opressora e sem ser violenta. Pois toda essa forma de controle do Estado – que é seletiva, controladora e opressora – é o que já vigora e a gente sabe, por experiência, que não funciona. Não atende as reais necessidades dessas populações. Não pretendíamos fazer citações para não soar pedante, mas com toda essa discussão sobre controle do corpo é impossível não se remeter aos textos de Foucault, ele diria que “os censores da sociedade podem estar envolvidos na geração e proliferação dos discursos e das representações que eles se propõem a banir”. Prestem atenção!

 

Por fim, é óbvio que o discurso médico vai ser contrário a prática do eyeball tattooing. Assim como ele – o discurso – é contra a tatuagem, o piercing, os implantes e até mesmo a suspensão corporal. Para quem duvidar recomendo uma pesquisa pelo google. É preciso ter mais cautela ao sair defendendo o que o discurso médico diz e não diz. Mais cautela ainda em se apoiar nesse discurso como se fosse a verdade universal, porque ele não é. Entenda que não estou desmerecendo e negando totalmente essa fala, só quero lembrar que ela também erra e tem falhas históricas de assustar.

 

Sentimos que a iniciativa do deputado Peninha com o seu projeto de lei, está mais arraigada dentro de um âmbito de julgamento moral, do que qualquer outra coisa. Basta ver a fragilidade do texto e em tudo o que ele se ampara. Por mais que o seu discurso político não o diga declaradamente, o seu histórico o faz. Como diz a velha máxima, “para bom entendedor, meia palavra basta”.

 

Para concluir, não acreditamos que a proliferação do eyeball tattooing no Brasil tenha sido ou esteja sendo ainda uma das melhores, muito pelo contrário. Também ficamos preocupados e entristecidos com qualquer erro que vemos circulando. Não gostamos de ver as pessoas machucadas ou sem conseguir alcançar os seus objetivos e isso vale para o profissional que faz e o cliente que recebe. Ficamos preocupados com o resultado disso em um longo prazo. Não aconselhamos e nem incentivamos que as pessoas saiam pigmentando os olhos deliberadamente. Mas não podemos aceitar calados em ver um projeto de lei que interdita o direito de decidir, interrompe toda e qualquer chance de evolução de uma técnica, que abre precedentes para a estigmatização de um grupo de pessoas e que por fim viola a liberdade de expressão individual, que é social.

 

Fica agora um último pedido geral, mas principalmente voltado para a comunidade da modificação corporal do Brasil. Por favor, parem com esse discurso fatalista e cínico sobre o eyeball tattooing. Parem também com esse discurso que relaciona a cegueira com o fim da vida. Pessoas cegas ou com algum tipo de doença nos olhos (congênitas ou não) também podem trabalhar, também podem estudar, também podem viver. Acreditem ou não, elas podem viver tão bem quanto vocês. Cada vez mais a sociedade se adapta para essa população. Ah! Inclusive essas pessoas podem pagar os mesmos impostos que vocês, ou seja, parem de reproduzir esses textos, eles são ofensivos.

 

A ATPB sempre nos tratou com respeito, assim como a reciproca é verdadeira. Ainda que, como fica claro para todas as pessoas, existam as nossas divergências de opinião  e oposições políticas. Nosso canal aqui está e sempre estará aberto para toda e qualquer pessoa relacionada com as modificações corporais, todas elas. Não queremos mesmo ofender nenhuma pessoa e nenhuma categoria. A ideia é realmente poder desenvolver diálogos que possam colaborar positivamente para construir um mundo melhor para todas as pessoas. Repetindo: para todas as pessoas.

***

Algumas perguntas lançadas pela ATPB e que tomamos a liberdade de responder também

ATPB: Os senhores nunca se questionaram o porque os principais Modificadores do mundo não fazem este tipo de procedimento?
FG: O que se compreende por principais modificadores? Luna Cobra é um dos principais modificadores do mundo e o faz. Inclusive foi ele que desenvolveu a técnica junto de Shannon Larratt. Ainda assim, não acredito que por uma técnica existir, todos os profissionais tenham que obrigatoriamente fazê-la. Imagine se todos os Cubistas tivessem que ser Realistas, apenas porque o realismo existe e eles como artistas precisassem fazer tudo. Não é assim que a coisa funciona.

ATPB: Você tem consciência que se ocorrer alguma lesão não haverá recurso para correção dessa sua atitude?
FG: O discurso mais recorrente é sobre a chance de erro e a quantidade de risco. Isso está em todos os jornais, no BMEzine, aqui e no discurso popular. Ao mesmo tempo, a medicina não está paralisada, muito pelo contrário, está em constante evolução. Novamente, é de conhecimento geral que o eyeball tattooing é um procedimento novo e que oferece uma variedade de riscos, inclusive alguns que não conhecemos ainda. Temos que entender que algumas pessoas sabem disso e assumem o risco. Essa também é uma realidade e que deveria ser respeitada. Respeitar implica não impor e nem apoiar lei que criminalize a prática.

Por que quem esta prestando este tipo de serviço no Brasil não tem os Olhos Pigmentados?
Isso não é só no Brasil, o próprio Luna Cobra não tem o olho pigmentado. Também porque não é regra em nenhum manual que uma pessoa que oferece algum tipo de serviço, precise obrigatoriamente ter experimentado ele. Já que falamos tanto do discurso médico, imagine se todo oncologista tivesse que ter tido câncer para atuar como médico. Que todo antropólogo tivesse que ser índio para estudar as populações indígenas. Que todo cardiologista tivesse que ter tido uma válvula torta ou uma palpitação fora do ritmo, para cuidar dos corações de seus pacientes. Não é esse o caminho.

Vocês já conversaram com as pessoas que sofreram (sic) este procedimento para saber o que estão sentindo após 1 ano de ter sofrido tal procedimentos? Algumas lacrimejam involuntariamente por mais de trinta minutos, outras reclamam da visão ofuscada, entre outros relatos que não veremos em rede sociais, sabem por quê?
Temos tentado conversar e na realidade a grande maioria parece estar bem. Para essas pessoas que lacrimejam muito ou que sentem a visão prejudicada, o ideal é ir ao oftalmologista. O problema pode estar relacionado com o eyeball tattooing como não. Inclusive, é muito importante que esses relatos apareçam. Acredito que será assim que vamos entender melhor sobre essa técnica e, novamente, não através da criminalização.

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