A saga Mad Max e as modificações corporais

“A relação entre capitalismo e desastre ecológico não é coincidência nem acidente: a ‘necessidade do capital de um mercado em constante expansão’, seu ‘fetiche pelo crescimento’, significa que o capitalismo, por sua própria natureza, se opõe a qualquer noção de sustentabilidade.”
Mark Fisher, Realismo Capitalista: Não Há Alternativa?

“(…)
We are the children
The last generation (the last generation, generation)
We are the ones they left behind
(…)
All the children say
We don’t need another hero” 

Tina Turner, We don’t need another hero

Mad Max é uma saga iniciada em 1979 nos cinemas. Com direção de George Miller (1945-presente), o filme australiano rendeu quatro sequências: Mad Max 2: A caçada continua (1981), Mad Max: Além da cúpula do trovão (1985), Mad Max: Fury Road (2015) e Furiosa: a saga Mad Max (2024). A obra é uma das grandes referências da ficção científica e do cinema distópico. Ao longo de 45 anos, Mad Max trouxe em cada filme discussões sobre o corpo que nos interessa revisitar, refletir e problematizar, sobretudo porque ele não é uma ilha e está conectado com a indústria cultural de forma mais ampla. O que acontece na ficção gera impacto na vida real de pessoas como nós: dissidentes, freaks e monstruosidades.

Cartaz do filme “Mad Max” de 1979. Foto: reprodução / divulgação
Cartaz de “Mad Max 2: A caçada continua” de 1981. Foto: reprodução / divulgação
Cartaz de “Mad Max: Além da cúpula do trovão” de 1985. Foto: reprodução / divulgação
Cartaz de “Mad Max: Fury Road” de 2015. Foto: reprodução / divulgação
Cartaz de “Furiosa: Uma saga Mad Max” de 2024. Foto: reprodução / divulgação

Além dos filmes, Mad Max se tornou comic book em 2015 pela Vertigo. No mesmo ano, saiu enquanto jogo de ação para o Playstation 4, Windows e Xbox. Todas as variações de mídia contam com a participação direta do George Miller e de algum modo expandem o universo.

Cartaz de “Mad Max” para videogame de 2015. Foto: reprodução / divulgação
“Mad Max” lançado pela Vertigo. Foto: reprodução / divulgação

O foco desta escrita será o corpo, dizemos isso, porque a saga renderia discussões sobre muitos pontos urgentes, como por exemplo a ideia de Mark Fisher (1968-2017), filósofo e crítico cultural britânico, de que é “mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”. Mad Max faz coro com todas essas produções pós-apocalípticas.

Dito isso, sim, a saga Mad Max poderia se resumir como um punhado de pessoas brancas, louras e de olhos claros, cisgêneros, heterossexuais e sem deficiência que sobrevivem ao colapso do mundo (causado pelo capitalismo, há de se repetir) e que assumem o protagonismo de todas as coisas. Embora enquanto coadjuvantes pessoas com deficiência, não brancas e possivelmente não heterossexuais aparecem na saga e falaremos delas adiante.

De 1979 até 2024 o protagonismo esteve com pessoas brancas, de cabelos e olhos claros, iniciando em 79 com o agora ultrarreacionário Mel Gibson (1956-presente) e mais recentemente com Charlize Theron (1975-presente), Tom Hardy (1977-presente), Chris Hemsworth (1983-presente) e Anya Taylor-Joy (1996-presente). E é certo que a modulação de protagonismo de um homem para uma mulher (ainda que cis e branca), tem gerado ainda muitos ataques contra a obra, nessa organização de mundo cisgênera-sexista e patriarcal que odeia mulheres. Há quem diga que Mad Max foi capturado pelo discurso wokeMuito cuidado – mais muito cuidado mesmo – com esses grupos que inflam os pulmões para falar da “cultura woke”, pois o que na verdade eles defendem é que pessoas e monstruosidades como nós não existam.

Antes de passarmos a discutir o corpo (inclusive, o modificado) em Mad Max, se faz importante ir ao texto de abertura que temos em The Road Warrior enquanto a narração:

“Minha memória se esvai. A visão se escurece. Tudo o que fica são as memórias. Eu recordo… Uma época de caos, sonhos arruinados… esta terra devastada. Mas acima de tudo, eu me lembro de um Guerreiro das Estradas. O Homem chamado Max.
Para entender quem ele era, seria preciso voltar no tempo quando o mundo era girado pelo combustível negro e no deserto brotavam grandes cidades de cano e aço. Desaparecidas, aniquiladas. Por razões muito esquecidas, duas grandes tribos guerreavam e dispararam bombas que aniquilaram tudo. 
Sem combustível não eram nada. Eles não conseguiriam sobreviver. As enormes máquinas crepitaram e pararam. Seus líderes falaram e falaram e falaram. Mas nada deteria a avalanche. Seu mundo desmoronou, as cidades explodiram. Um turbilhão de saques, uma tempestade de medo. Homens começaram a se alimentar de homens.
Nas estradas, era um pesadelo terrível. Só os que tivessem mobilidade para fugir e brutalidade para pilhar sobreviveriam. As gangues tomaram as rodovias prontas para guerrear por um tanque de gasolina. E nesse turbilhão decadente homens comuns foram surrados e esmagados. Homens como Max, o guerreiro Max.
No estrondo de um motor ele perdeu tudo e se tornou um homem amargo, desolado, arruinado. Um homem perseguido pelos demônios do passado. Um homem que se aventurou pela terra devastada. E foi aqui nesse lugar que ele reaprendeu a viver.”

Mad Max não é uma saga binária de heróis/heroínas e vilões/vilãs, mas de pessoas que estão a sobreviver em um mundo profundamente colapsado, “qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência”. Para quem estuda crise climática, Mad Max – desde 1979 – sinaliza para o caminho que estamos seguindo com passos velozes. Quando a água se torna moeda e os corpos – na perspectiva da biopolítica de Michel Foucault (1926-1984) – só servem mediante aquilo que podem produzir. E na perspectiva da necropolítica de Achille Mbembe (1957-presente), os inúmeros corpos matáveis pelos sistemas que são constituídos, configurados e afirmados na saga. E não só nela, certamente.

CORPOS DISSIDENTES E CORPOS MODIFICADOS

Sem meias palavras, firulas ou coisas que o valha, Mad Max trabalha com o padrão típico e estereotipado da indústria cultural – em especial a cinematográfica hegemônica – que coloca todo corpo dissidente (e modificado) no lugar da vilania, do antagonismo e de quem é capaz de produzir o grande mal: o monstro/a monstra/e monstre. Mesmo quando o ator/atriz está dentro daquilo que a sociedade vende e compreende como belo e padrão, o seu corpo é modificado com maquiagem para que ele se torne feio, como é o caso da personagem do Dr. Dementus interpretado pelo Chris Hemsworth, em que um grande nariz falso é inserido em sua face. Há de se dizer que a ideia do nariz grande é bastante típica da associação da feiura com vilania, para além da ficção se olharmos, por exemplo, o trabalho do criminologista Cesare Lombroso (1835-1909). É impossível não pensar aqui também no livro História da Feiura do filósofo Umberco Eco (1932-2016). Apenas pela capa do livro já vamos entendendo como as coisas se constroem e são historicamente sustentadas enquanto cultura e mentalidade.

Eco escreveu “História da Beleza” e “História da Feiura”. Foto: reprodução/divulgação

Sendo assim, os grandes protagonistas – Max e Furiosa – são sempre brancos, heterossexuais, cisgêneros e sem deficiência, ainda que não tenhamos heróis/heroínas, é isso que se vê/espera dele/dela: heroísmo salvador. Quando ele/ela têm alguma modificação corporal – seja uma tatuagem ou amputação – é porque foi realizada de forma não consensual e é reflexo da barbárie daquela civilização arruinada. Dito isso, vamos aprofundar nesses apontamentos.

PESSOAS COM DEFICIÊNCIA

Desde o primeiro filme temos a presença de pessoas com deficiência ocupando papéis secundários ou o de figurantes em Mad Max. Em Além da Cúpula do Trovão temos as personagens Master, interpretado por Angelo Rossito (1908-1991) e Blaster interpretado por Paul Larsson (sem dados públicos) e Stephen Hayes (sem dados públicos).

Rossito foi um famoso ator com nanismo, estando presente inclusive na clássica obra Freaks de 1932. Larsson interpretou o Blaster quando mascarado, por conta de sua altura (2,03 m) e físico muscular, todavia, quando desmascarado, o ator que temos é o Stephen Hayes, uma pessoa com síndrome de down, há de se dizer, uma das primeiras a conseguir trabalho em grandes produções cinematográficas. Embora seja um feito marcante, o seu nome não aparece nos créditos enquanto ator, mas nos agradecimentos especiais. Sim, estamos diante de um tipo mais astuto de crip fake e apagamento.

Master-Blaster em Além da Cúpula do Trovão. Foto: reprodução / divulgação

Master-Blaster comandam o submundo de Bartertown e são responsáveis em gerar eletricidade por meio do gás metano. São personagens com deficiência de grande importância para obra e para indústria cultural dos anos 80, ainda que não fossem protagonistas. Os seus corpos estão nos cartazes e materiais de divulgação (como o que colocamos acima), rompendo em certa medida com o padrão do homem branco e sem deficiência apenas (comparem os cartazes que colocamos). Não haver informações básicas, como data de nascimento do Stephen Hayes e, considerando o fato de seu nome nem ao menos ter sido creditado enquanto ator, nos leva para uma profunda reflexão sobre capacitismo e apagamento das pessoas com deficiência na indústria.

Imperatriz Furiosa, interpretada por Charlize Theron em 2015 e Anya Taylor-Joy em 2024, é uma personagem amputada, ela perde o seu braço na estória. Crip fake e nada mais há ser dito a partir daqui.

Furiosa interpreta por Charlize Theron. Foto: reprodução / divulgação

Destaca-se, porque é importante marcar, a presença dos atores Quaden Bayles (2010-presente) como um Garoto de Guerra em Furiosa (2024) e Quentin Kenihan (1975-2018) que interpretou Corpus Colossus em Fury Road (2015).

Quaden Bayles como Garoto de Guerra. Foto: reprodução / divulgação
Quentin Kenihan como Corpus Colossus. Foto: reprodução / divulgação

PESSOAS PRETAS E NÃO BRANCAS

Em todos os filmes da obra, de 1979 a 2024, a presença de pessoas pretas é quase inexistente. Não há vemos enquanto protagonistas, coadjuvantes e nem em figurantes. A quebra aconteceu também em Além da Cúpula do Trovão de 1985 com a personagem Aunty Entity, interpretada pela lendária Tina Turner (1939-2023). Foi a primeira vez na saga que tivemos um mulher preta, com uma posição de liderança para além da ficção do universo Mad Max. O papel foi escrito exclusivamente para Tina Turner por George Miller. Além de atuar, a artista também foi responsável por parte da trilha sonora, que rendeu Grammy, Globo de Ouro, entre outros prêmios.

Aunty Entity é uma antagonista em Mad Max. Fundadora e governante de Bartertown, controlando o que estava em cima e embaixo da cidade-mercado. A única personagem preta com destaque, com profundo impacto na indústria cultural de 1985. Em Mad Max não houve nenhuma outra antes e nem depois dela.

O pacto narcísico da branquitude está posto aqui.

Aunty Entity interpretada por Tina Turner. Foto: reprodução / divulgação
Aunty Entity interpretada por Tina Turner. Foto: reprodução / divulgação

PESSOAS QUEERS (NÃO HETEROSSEXUAIS E GÊNERO DESOBEDIENTES)

A saga Mad Max perpetua a noção cinematográfica da cis-heterossexualidade compulsórias. Se é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo, é verdade também que é mais fácil imaginar que todas as pessoas são cis-heterossexuais do que esboçar qualquer outra possibilidade de se colocar no mundo. A polícia do gênero está sempre atenta, mesmo em ficções distópicas e pós-apocalípticas.

É uma saga que fala sim sobre sexualidade e gênero, mas dentro da “ideologia de gênero” hegemônica e dominante. Max é o homem cisgênero e heterossexual que provê e é casado com um mulher, que cuida, e ambos têm um filho. Para além do casal protagonista e, pensando a saga de modo geral, toda as sinalizações de paixões e interesses afetivos/sexuais estão na chave da heterossexualidade, de 1979 até 2024… Exceto… Bem, há uma possível exceção em Mad Max 2: a caçada continua de 1981, com os Berserkers Gays. Embora nunca tenha saído do armário pelo diretor ou se afirmado enquanto tal, ao contrário… Fica sempre o “será que é”? Ou talvez um “não pergunte, não conte”.

E é importante reforçar que estamos a falar de um grande filme de 1981, tão importante que é relevante e referência até hoje. As discussões sobre sexualidade e gênero no período não eram como agora, para além da indústria cultural. Discussões essas que foram interditadas e reformuladas – com muita força – a partir da epidemia do HIV/AIDs. Estampar pessoas LGBTQIAPN+ para além da caricatura, da LGBTfobia recreativa e desumanização, nem na ficção era uma tarefa simples.

A gangue motociclista – antagonista no filme – tem uma sexualidade e gênero que geram ruído na normatividade compulsória por conta da sua estética esquisita, ecoa com o que chamamos de queer code, isto é, a representação de personagens LGBTQIAPN+ na mídia através de estereótipos, ironicamente, atrelados frequentemente com a vilania ou o antagonismo. Nada é dito explicitamente em palavras, mas alguns sinais explicitam a narrativa que se desenvolve. É um grupo de motoqueiros, com um visual que dialoga bastante com a cultura punk, queer, freak e BDSM. É aqui – na obra de 1981 – que começamos a ver as modificações corporais chegarem e falaremos adiante sobre elas.

Lord Humungus, interpretado pelo ator sueco Kjell Nilsson (1949-presente), é o grande líder da gangue. Ele usa uma máscara de hockey prateada, um arnês de couro preto com várias tiras e uma roupa de baixo também de couro, cravejado com tachas. No pescoço há um grande colar de borracha e também temos outros acessórios cravejados com pontas. O seu corpo – bastante exposto – é muito grande e musculoso.

Lord Humungus interpretado por Kjell Nilsson. Foto: reprodução / divulgação

Como braço direito do Lord Humungus, temos o Wez, interpretado pelo ator Vernon Wells (1945-presente), que por sua vez tem um, cha-ma-do, companheiro, o Golden Youth, interpretado por Jerry O’Sullivan (1962-presente), creditado no longa como Jimmy Brown. Ambos com um visual entre o punk e o BDSM, especificamente o Wez utiliza uma roupa de baixo que deixa os glúteos expostos, por exemplo.

Wez e Gold Youth. Foto: reprodução / divulgação

Aparentemente Wez e Golden Youth poderiam ser lidos como um casal homoafetivo, mas é retratado como “amigo”, “companheiro” e “protegido”. Para pessoas queers da década de 70/80/90/2000 era comum que casais fossem apresentados como amigos, para manutenção do armário da normatividade compulsória da sexualidade. Por isso que incomoda bastante, principalmente a necessidade de justificativa do ator de que não se tratava de um casal gay. Quer dizer, tudo bem a barbárie, a selvageria, a miséria de um futuro distópico, mas dois homens esquisitos que se amam afetiva e/ou sexualmente, aí já é demais… Se fosse hoje, diriam certamente, woke demais.

George Miller afirmou que Golden Youth foi escrito originalmente como mulher. Em um wiki-fandom de Max Max, temos a citação de que Miller justificava a mudança, alegando que a sexualidade – pós apocalipse – era intercambiável. Com isso, ele afirma que seria um casal gay? Aparentemente sim. Embora o diretor fale sobre um intercâmbio de sexualidade (talvez fosse de gênero, será?), bem, não é o que vemos em nenhum das obras. Talvez, exceto aqui.

Vernon Wells, por sua vez, disse em entrevista na Motor City Comic Con 2010, que a relação das personagens não era sexual, mas de pai e filho. É enfático ao dizer que não eram gays. Mencionava para sustentar a sua ideia, uma cena cortada, um roteiro, que nunca ninguém pode confirmar a existência.

Se Lord Humungus, Wez, Golden Youth e gangue não são heterossexuais, é uma possibilidade imaginativa e especulação do público (e nossa) e nunca autodeclarada e nem politicamente afirmada. Algo que teria sido importante no passado e ainda o é. Temos um grupo que está na chave da vilania e só, temos um queer code fortemente presente como é comum vermos em outras personagens no espectro da vilania como o Scar do O Rei Leão, a Úrsula de A Pequena Sereia, Jafar de Alladin e tantos outros exemplos muito além da Disney.

Em Mad Max tudo é barbárie e selvageria pela sobrevivência, mas algumas personagens, como a do próprio Max tem a chance de ter outras camadas de roteiro, que embora ele não tenha sido colocado como o herói, é assim que ele é enxergado e automaticamente a expectativa que repousa sobre ele é: aquele que faz o bem, o homem branco salvador. É um homem cisgênero, branco, heterossexual, sem deficiência e normativo… As histórias dele – e de outros como ele – acabam sempre caminhando no lugar do grande salvador e daquele que merece apreço social, respeito e humanidade. O famigerado “quero ser como ele”. E assim se fez a lenda.

PESSOAS FREAKS E MODIFICAÇÕES CORPORAIS

Toda essa escrita iniciou a partir da percepção de que as modificações corporais são partes importantes na saga, sobretudo nos três últimos filmes. Então vamos lá…

O primeiro filme de Mad Max de 1979 não apresenta uma discussão sobre modificações corporais muito latente. Temos o mundo quebrado, de um lado o Mad Max se envolvendo com a selvageria – de um mundo brutalizado – e no outro a gangue de jovens marginais e esquisitos, uso o masculino aqui porque nesse momento é um filme de homens. Mad Max é apresentado como um militar normativo, guerreiro, higienizado. A gangue como suja, pervertida e bárbara. Todes vão se tornando selvagens e caminhando para barbárie naquele universo, mas um único recebe apreço… Se torna a lenda. Veja bem.

O corpo vai sendo radicalizado nas gangues, conforme a geografia da saga vai se tornando igualmente mais radical e desértica. É como se uma coisa acompanhasse a outra e fosse dando a tônica do que estamos a assistir e acompanhar. O corpo de Max não passa pelo mesmo processo do que vemos nas gangues – diferente de Furiosa que é muitas vezes marcada -, mas em suas vestimentas vamos percebendo essa paisagem se modificar. O cabelo grande de Max talvez seja um indicativo dessa radicalização de seu corpo naquele sistema pós-apocalíptico.

No filme de 79 começamos a ver nas gangues alguns homens de brinco. No período, homens perfurarem suas orelhas era interferir na caixa da masculinidade. Rígida e frágil. A polícia de gênero estava atenta. A polícia de gênero está sempre atenta.

É em Mad Max 2: A caçada continua de 1981 que começamos a ver as tatuagens chegando, mais homens com brincos, cabelos coloridos e moicanos… E todo visual punk, BDSM, queer e freak que já mencionamos. O Golden Youth tem grandes tatuagens em seus braços. É um tipo de freak fake considerando que a tatuagem fazia parte da maquiagem, mas ela estava presente e abrindo espaço para o que viria a seguir.

Em Mad Max: Além da cúpula do trovão de 1985 a tatuagem chega com força, os moicanos crescem. Nas primeiras cenas já podemos perceber corpos com tatuagem e, sim, nos agrupamentos antagonistas. Temos algo de importante nessa sequência como já pontuamos, uma maior visibilidade e espaço de cena para uma mulher preta, uma pessoa com deficiência e, ora ora, uma pessoa muito tatuada.

Chegamos na personagem Ironbar Bassey interpretado pelo ator Angry Anderson (1947-presente), chefe de segurança de Bartertown, com seu corpo pesadamente tatuado, para a época, demasiadamente tatuado. Um ator tatuado de verdade com papel de importância na trama e com muito tempo de cena. Ainda que no lugar da vilania e antagonismo, estamos falando de algo que ainda hoje é difícil acontecer, isto é, pessoas com muitas modificações corporais serem contratadas para além da figuração. Algo aconteceu nessa produção de 1985 e que merece atenção.

Ironbar Bassey interpretado por Angry Anderson. Foto: reprodução / divulgação

Nas sequências mais recentes de 2015 e 2024, as modificações corporais entram em um lugar forte da injúria. A marcação da pele é para demonstrar posse, controle e coisificação como aconteceu em sistemas escravagistas na história. Vemos no Max de Tom Hardy em 2015 ele sendo tatuado forçosamente após sua captura – ele se tornaria bolsa de sangue naquele momento – e uma tentativa de marcá-lo com um branding, sinalizando propriedade Immortan Joe. Ele não seria mais uma pessoas mas uma bolsa de sangue e só.

Max sendo tatuado a força. Foto: reprodução / divulgação
A tatuagem é como uma ficha de anamnese. Foto: reprodução / divulgação

Falando do branding, é possível vê-lo nos corpos dos Garotos de Guerra e no da própria Furiosa, sempre localizado na região da nuca. A marcação da pele aqui implica em sinalização de propriedade.

Branding em Furiosa. Foto: divulgação / reprodução

Além do branding, a Furiosa descobriu a tatuagem com um Homem da História, que são sobreviventes daquele universo, eles tatuam em seus corpos o conhecimento perdido, marcos, eventos, palavras… Desse encontro, a Furiosa auto tatua em seu braço o mapa de sua “cidade natal”, o que é perdido quando da amputação de seu braço.

O Homem da História com seu corpo todo tatuado. Foto: reprodução / divulgação
Tatuagem no braço da Furiosa. Foto: reprodução / divulgação

Temos ainda na perspectiva da preservação do conhecimento a personagem Senhorita Giddy interpretada pela Jennifer Hagan (1943-presente), que atua como professora das esposas do Immortan Joe. O seu corpo é bastante tatuado e lembra muito o dos Homens da História. As esposas de Immortan Joe não são pessoas, são parideiras. As que não conseguem reproduzir, se tornam as Criadoras, mulheres do leite. Corpos coisificados capazes de produzir e oferecer algo para o sistema distópico. Todas vivem em cativeiro.

Senhorita Giddy em Mad Max de 2015. Foto: reprodução / divulgação

Tatuagem, branding e é claro, não poderiam faltar os body piercings. Eles estão fortemente presentes nas duas últimas sequências da saga com a personagem Comedor de Gente interpretado por John Howard (1952-presente) e seus mamilos perfurados e interligados com uma corrente. Ele é o prefeito de Gas Town, homem poderoso, está sempre trajando um terno elegante, mas que na região dos mamilos, temos uma espécie de buraco na roupa para que se veja seu adorno.

O Comedor de Gente em Mad Max. Foto: reprodução / divulgalção

Dr. Dementus, a personagem de Chris Hemsworth, também carrega o mesmo tipo de adorno nos mamilos, que inclusive são arrancados, gerando aparente desconforto no Comedor de Gente.

Dr. Dementus com seus mamilos adornados. Foto: reprodução / divulgação

Por fim, precisamos falar da escarificação que aparece dentro da estética das duas últimas sequências. Já mencionamos o branding, que é um tipo de escarificação feita com ferro quente, mas vemos outros tipos – que não é mencionado como são produzidas – nos Garotos de Guerra, que funcionam na obra entre o kamikaze e o homem bomba, ou seja, seus ataques são suicidas. Eles – que são jovens adoecidos – acreditam que após a morte irão para Valhalla, onde terão uma vida gloriosa. Crença sustentada e alimentada por Immortan Joe para manipulação espiritual.

Dentre os inúmeros Garotos de Guerra, vemos o que tem protagonismo em Fury Road chamado de Nux e interpretado por Nicholas Hoult (1989-presente). Nux tem uma aparência que nos fez lembrar muito – com saudosismo – do Zombie Boy (1985-2018). É possível ver em seu corpo, toda parte frontal, uma grande escarificação de um V8. Além do torso, toda região de sua boca é escarificada. E é claro, ele também carrega o branding de Immortan Joe.

Projeto para Nux. Foto: reprodução / divulgação
Escarificação feita com maquiagem para Nux. Foto: reprodução / divulgação
Nux em Fury Road de 2015. Foto: reprodução / divulgação

Slit, interpretado por Josh Helman (1986-presente) é outro Garoto de Guerra com destaque nas escarificações. Iniciando pelo seu rosto, com um “sorriso de Glasgow”, mas com escarificações em outras regiões do corpo, como o braço.

Nux e Slit em Fury Road. Foto: reprodução / divulgação
Corpo escarificado de um Garoto de Guerra. Foto: reprodução / divulgação
Corpo escarificado de um Garoto de Guerra. Foto: reprodução / divulgação

Vale destacar nessa reflexão que o Tom Hardy é uma pessoa com o corpo bastante tatuado, mas suas tatuagens reais não são aproveitadas na trama, simplesmente não aparecem. Para se pensar novamente.

PARA CONCLUIR

A saga Mad Max é uma grande referência do cinema de ficção e distópico. É uma grande referência para o nosso trabalho e podemos dizer que somos fãs.

As problematizações que fizemos e apontamentos que trazemos não elimina o fato de gostarmos bastante da saga. Acreditamos que ela traz muitas inovações e discute corpos dissidentes em um período que não tínhamos algo nem próximo. Tem muitos erros e problemas ao trabalhar por meio de estereótipos e reforçar a ideia de vilania para algumas populações e isso precisa ser marcado e quem sabe alterado se houver continuidade futura.

Acreditamos que seja importante consumir produtos culturais e artísticos e conversarmos não apenas sobre eles, mas com eles, como tentamos fazer aqui. Não receber passivamente o que dizem sobre nós – e estão falando sobre nós – e acharmos que está tudo bem e que isso não vai nos afetar. Vai. Sobretudo no recorte da comunidade da modificação corporal e comunidade freak em que pairam tradições de silenciamento e apagamento.

A gente assiste o filme, come uma pipoca mas a atenção precisa sempre estar ligada.
Sempre ligada. Testemunhe.

What a lovely day”, já dizia Nux.