Modificações corporais: o estereótipo da criminalidade e o estigma da vilania

O ano é 2026.

Recentemente tem circulado nas redes sociais uma nova tendência envolvendo pessoas com modificações corporais e freaks. Um vídeo mostra a pessoa fazendo algo corriqueiro, as imagens são acompanhadas pela mensagem “tattoos no rosto e pescoço te deixam com cara de criminoso”. Em seguida aparece o texto “tipo esses?” e ao fundo imagens de criminosos como Epstein, Goleiro Bruno, Donald Trump, Suzane von Richtofen e outros. Ironicamente uma dezena de pessoas criminosas reais e sem nenhuma tatuagem visível.

Recentemente também apareceu para mim no Youtube um vídeo intitulado “O fim trágico de 6 famosos de Hollywood” e o card do mesmo é a imagem de um homem branco, musculoso, moicano em coque e inúmeras tatuagens, incluindo no rosto. Ele mostra a sua língua na cena. O homem modificado e/ou freak está algemado, ao seu lado um advogado cabisbaixo e logo atrás vemos um policial, indicando que seja o seu julgamento. Os seis casos apresentados são de pessoas que não têm nenhuma tatuagem ou qualquer outra modificação corporal visível. A imagem do vídeo foi produzida com IA, mas ela comunica algo.

O ano é 2026.

De um lado temos as pessoas da comunidade da modificação corporal denunciando um estereótipo de criminalidade e estigma de vilania que as violentam, roubam suas dignidades, retiram o apreço social e as colocam sempre como um corpo suspeito. Do outro lado temos alguém achando razoável alimentar esse estereótipo.

O braço de força é contra a máquina do poder.
O braço de força é contra o imaginário coletivo.

O estereótipo de que pessoas com modificações corporais e/ou freaks sejam perversas, criminosas e vilãs tem sido historicamente e meticulosamente construído pela indústria cultural, basta olhar para qualquer filme que apresente uma prisão ou os mais específicos que vão nos associar diretamente com a demonização e psicopatia (Mórbido Silêncio, Anarchy Parlor, O Silêncio dos Inocentes, Dragão Vermelho, etc). Isso segue acontecendo. É quase um fetiche.

A ciência europeia também deixou sua contribuição para que o estereótipo e o estigma fossem construídos. O criminologista, psiquiatra e antropólogo Cesare Lombroso (1835-1909) – considerado o pai da criminologia moderna – escreveu bastante sobre a tatuagem. Em seu livro O homem delinquente de 1876, por exemplo, o cientista vai inserir a tatuagem dentro do que ele chamou de demência moral.

Em uma edição do livro de 2010 temos a apresentação da vida e obra do autor, que pontua:

“Um apego positivo aos fatos, por exemplo, é o estudo dedicado às tatuagens, com base nas quais Lombroso fez classificação dos diversos tipos de criminosos. Dedicou exaustivos estudos a essa questão, investigando centenas de casos e louvando-se nos estudos sobre as tatuagens, desenvolvidos por vários cientistas, como Lacassagne, Tardieu, de Paoli, e até mesmo os da antiga Roma. Fato constatado e positivo é que os dementes, em grande parte, demonstram tendência à tatuagem, a par de outras tendências estabelecidas, como a insensibilidade à dor, o cinismo, a vaidade, falta de senso moral, preguiça, caráter impulsivo.”

Para Lombroso a tatuagem é um reflexo do atavismo, isto é, um retrocesso evolutivo para um estado de selvageria. O seu pensamento colonialista vai colocar que as marcas corporais são típicas de “povos selvagens” (sic) e quando inseridas na cultura europeia, indicavam imediata predisposição ao crime. Em sua ciência colonialista a tatuagem é a marca da degeneração.

Na obra há um capítulo intitulado Tatuagem nos delinquentes e destrinchado em: colaboradores, criminosos, obscenidade, multiplicidade, precocidade, associação, identidade, causas (religião, imitação, espírito de vingança, ociosidade, vaidade, espírito gregário, paixão, pichação, paixões eróticas, atavismo), tatuagem nos dementes e traumas.

Lombroso também escreve propondo uma desvalorização de classe social de pessoas europeias que são tatuadas, chamando-as de ínfima classe social. Nelas estão a classe trabalhadora. Essa desvalorização e não reconhecimento enquanto classe trabalhadora de pessoas com modificações corporais e/ou freaks, assim como profissionais da área, ainda passam por isso em 2026. A marca da delinquência é uma sombra.

O cientista italiano também pontua a aproximação da tatuagem com a homossexualidade (ele usa a palavra pederastia), dizendo que essa população teria maior tendência para marcar o corpo e de modo obsceno. Queremos escrever pontualmente sobre isso em outro momento.

Não queremos dizer com tudo isso que não existam pessoas com modificações corporais que sejam criminosas. Elas existem! Mas queremos chamar a atenção sobre a generalização, que é equivocada, mas que no entanto marca toda uma comunidade de pessoas, encontrando eco no colonialismo, no racismo científico e estrutural, no capacitismo e na LGBTfobia.

Então, quando você – pessoa modificada e/ou freak – vai em uma loja ou mercado e o segurança te segue até você sair é reflexo dessa construção histórica que foi feita sobre nós. Quando você busca um emprego fora do meio da modificação corporal e não consegue por conta da sua aparência é reflexo dessa construção histórica. Quando você consegue o emprego e precisa provar o tempo todo que é competente (e honesta) ou fazer duas vezes mais do que as pessoas “normais”, é reflexo dessa construção histórica. Quando as pessoas te olham torto na rua ou sentem medo/nojo/repulsa de você por conta de sua aparência é resultado dessa mesma construção histórica. Quando um político – de um partido da classe trabalhadora, supostamente progressista – associa tatuagem e criminalidade ele está produzindo e reproduzindo essa construção histórica. Quando a Polícia Militar da Bahia lança uma cartilha para identificar e associar tatuagens e crimes, ela está fazendo a manutenção dessa mesmo construção histórica.

O ano é 2026. O século é XXI.
(Mas muitas vezes ainda operamos com a mentalidade colonialista do século XIX)