Foto: reprodução / divulgação
Durante a semana, circulou nas redes sociais a notícia de que Gisele Bleggi, procuradora da república, sofreu ataques nas redes sociais por conta de seu corpo e subjetividade. Os discursos de ódio rondam a misoginia e a mentalidade raivosa (e muito pequena) sobre corpos e subjetividades que escapam da norma, que vivem nesse sistema perverso e que, a despeito de qualquer conservadorismo bobo e atrasado, ocupam posições e lugares que historicamente foram negados para determinadas populações.
Foi em 1º de Fevereiro que publicamos aqui no FRRRKguys o texto A mediocridade e os julgamentos sobre a aparência. O caso da procuradora Bleggi soma-se ao que pontuamos ali naquele momento, é uma mulher (é uma mulher!) com o corpo repleto de tatuagens visíveis, piercings e roupas consideradas atípicas para a ansiedade e expectativa da normatividade compulsória (e para o grupo misógino que não sabe viver sem querer decidir o que pode ou não pode fazer/vestir/ser uma mulher).
Antes de escrevermos qualquer linha sobre esse caso, queríamos saber quem é a Gisele Bleggi. Porque honestamente não estamos interessadas em gastar energia e tempo defendendo fascistas e os tempos são difíceis, existem muitas pessoas com visuais alternativos e que são ou estão relacionadas com o fascismo.
A procuradora não tem rede social. O que conseguimos encontrar sobre ela são informações públicas sobre sua trajetória acadêmica (voltada para os Direitos Humanos) e as notícias a respeito dos ataques violentos que ela vem sofrendo sempre que aparece publicamente. Ah! Ela atua em Rondônia, mas é de Santa Catarina… É… Guarda essa informação.
Ficamos curiosas em saber se ela se relacionava de algum modo com a categoria freak, mas nada foi encontrado… Ao contrário, em uma entrevista para o Rondônia VIP em 2022, momento em que ela sofreu o primeiro ataque público noticiado, ela diz que “não tem lado, nem partido” e que busca ser imparcial e isenta, mas assume que, embora tenha se arrependido, em 2018 votou no Bolsonaro (Santa Catarina, lembra?). O ex-presidente fascista – e que já era abertamente fascista em 2018 – e que agora está preso pelos crimes que cometeu, infelizmente não todos, ele deveria ser condenado por crimes contra a humanidade.

ADENDO: É no mínimo contraditório ver alguém que dedica sua pesquisa e trabalho para os direitos humanos e defesa dos povos indígenas, mas que vota em alguém que sempre foi abertamente fascista, contra os direitos humanos e igualmente contra a população indígena, quilombola e misógino. Precisamos superar o falso dilema do “uma escolha muito difícil”. Precisamos demais retomar as leituras de professor Paulo Freire, quando ele afirmou que precisamos ter uma coerência entre o nosso discurso e prática e que nunca nos deixou esquecer que todes somos movides por alguma base ideológica – neutro é só detergente, meu amor – e que precisamos refletir se a que estamos alinhades é inclusiva ou excludente.
Em 2022, Gisele Bleggi foi filmada buscando diálogo com manifestantes que bloqueavam rodovias. Segundo ela, eles haviam sido cooptados por grupos bolsonaristas. Ora, ora… Quando as imagens circularam na imprensa, a onda de ataques veio. Misoginia, sexismo, machismo e o ódio ao direito de decidir sobre o próprio corpo.
Em 2026, após divulgação de um vídeo institucional, novamente mais uma onda de ódio… O tempo passa mais algumas coisas permanecem. Infelizmente… Infelizmente…
O Ministério Público do Trabalho – MPT e a Ordem dos Advogados do Brasil – OAB de Sergipe divulgaram notas públicas de apoio e solidariedade para procuradora. Em nota da OAB, temos “o que se observa neste caso não é o exercício legítimo da crítica, mas a disseminação de ofensas, preconceitos e manifestações que atentam contra a honra, a dignidade e a imagem de uma mulher no exercício de função pública”.
Gisele disse em 2022 que “as críticas ao meu visual são músicas para meus ouvidos”, nós fazemos coro com a procuradora resgatando o trecho do Manifesto Freak que diz: nós queremos dançar ao som da destruição da normatividade compulsória.
Repudiamos veementemente os ataques sofridos pela procuradora, mas ao mesmo tempo alertamos sobre a cautela que precisamos ter nos discursos e ideologias que alimentamos e nos aproximamos. Por fim, e em conjunto, entoamos o mantra, “vamos pedir piedade, Senhor, piedade, pra essa gente careta e covarde”.
REFERÊNCIA
Procuradora federal surpreende pelo visual e “causa” durante bloqueio com presença de indígenas, em Rondônia
https://www.jornalrondoniavip.com.br/noticia/coluna-social/procuradora-federal-surpreende-pelo-visual-e-causa-durante-bloqueio-com-presenca-de-indigenas-em-rondonia/vilhena
Procuradora sofre ataques misóginos após gravar vídeo institucional
https://www.metropoles.com/colunas/mirelle-pinheiro/procuradora-sofre-ataques-misoginos-apos-gravar-video-institucional
Quem é Gisele Bleggi, a procuradora estilosa, que sofreu ataques na web por sua aparência
https://ndmais.com.br/justica/quem-e-gisele-bleggi-procuradora-que-sofreu-ataques-na-web/#google_vignette
MPT-SE manifesta apoio a procuradora após ataques misóginos, machistas e sexistas
https://www.prt20.mpt.mp.br/procuradorias/prt-aracaju/1627-mpt-se-manifesta-apoio-a-procuradora-apos-ataques-misoginos-machistas-e-sexistas
OAB/SE manifesta solidariedade à procuradora da República após ataques misóginos nas redes sociais
https://oabsergipe.org.br/oab-se-manifesta-solidariedade-a-procuradora-da-republica-apos-ataques-misoginos-nas-redes-sociais/
