Sandokan: Nova série da Netflix trata sobre piratas e temos modificações corporais!

“Simplesmente não é correto rotular os piratas de meros ladrões
de alto-mar ou mesmo de proto-capitalistas, como alguns historiadores têm
feito. De certo modo, eles foram “bandidos sociais”, embora a base de suas
comunidades não se constituíssem como sociedades rurais tradicionais e
eram, de fato, “utopias” criadas quase que ex nihilo in terra incógnita,
enclaves da total liberdade ocupando espaços vazios do mapa.”

Hakim Bey – TAZ: Zona Autônoma Temporária

No dia 19 de Janeiro estreou no catálogo da Netflix a série Sandokan. Em 8 episódios, o show conta a estória de Sandokan, um pirata do século XIX que combate o Império Britânico e a Companhia das Índias. É uma personagem criada em 1883 pelo escritor italiano Emilio Salgari (1862-1911), e já foi adaptado para tela em 1976.

Sandokan traz muitas personagens em que as modificações corporais fazem parte de suas constituições e são fundamentais para suas narrativas. Como de costume, elas não estão nos corpos protagonistas, todavia, são muito importantes para composição visual. Escapam do lugar comum de serem fixadas na vilania. Falaremos delas adiante, mas antes precisamos reproduzir a mensagem que aparece no final de cada episódio.

“As personagens e o simbolismo utilizados são fictícios e não têm a intenção de representar ou reproduzir as práticas tribais sagradas de nenhum povo indígena específico. Reconhecemos e respeitamos o significado cultural, espiritual, social e histórico de tal simbolismo e das comunidades às quais eles pertencem.”

Nota reproduzida, agora vamos lá.

Não sei vocês, mas sempre que pensamos em piratas automaticamente pensamos em pessoas com corpos modificados. Tatuagens, dentes de ouro, dentes ausentes, prótese na mão ou perna, grandes brincos nas orelhas. Certamente um imaginário construído pela indústria cultural, o que seguramente está atravessado por estereótipos e imprecisões. É sempre um outro que conta sobre o(s) pirata(s) e isso é perigoso.

Na série da Netflix, temos Sandokan acompanhado de um grupo de piratas que carregam modificações corporais como tatuagem, brincos e escarificações. Tudo no campo dos efeitos práticos e da maquiagem, mas estão presentes o tempo todo.

Sarkar – e seus braços escarificados – é um dos piratas da obra. Foto: divulgação / reprodução

Para além do universo dos piratas, temos também no show a presença do povo originário Dayak (que na realidade é composto por mais de 200 subgrupos), habitantes nativos da Ilha de Bornéu, Sudeste Asiático. Aqui, para essas populações, a tatuagem é muito importante. Ela comunica, indica pertencimento e comunidade. Está muito distante apenas de uma marca meramente estética. Ela é trazida para trama enquanto uma personagem encarnada. Um outro mapa.

Lang e Tuwak Balau. Foto: reprodução / divulgação

Curisamente não vemos a mesma relação nos piratas. Em seus corpos, as tatuagens apenas estão e não se diz muito sobre. As escarificações também e ficamos esperando por um momento que elas servissem de guias introdutórias de narrativas, o que não acontece. De algum modo, sentimos apenas que ela reforce o caráter multiétnico na tripulação de piratas. Gostaríamos de conhecer mais sobre o Sarkar, interpretado por Mark Grosy (1972-presente). Gostaríamos de saber mais sobre os seus braços escarificados, suas origens.

Piratas e uma Dayak e seus corpos marcados. Foto: reprodução / divulgação

Existe um movimento importante acontecendo na indústria cultural – e Sandokan faz parte disso – em relação com as modificações corporais. Se antes elas eram ignoradas, ocultadas por serem desimportantes e/ou estereotipadas em demasia, agora elas estão cada vez mais presentes na composição das obras. Oferecendo um sentido outro para tudo o que contado ali.

Implica que existe pesquisa (podemos falar uma nova profissão?), assim como sempre houve para indumentária e/ou cenografia, por exemplo, agora o corpo – e o que se fez com ele em determinado momento da história ou estória – também. Estamos diante de um fenômeno muito recente.

Implica que as modificações corporais de profissionais da cena não precisam ser mais escondidas em muitos casos. Temos no show a presença de uma figurante que carrega longos lóbulos alargados de verdade, adornados por pequenos pendulos. Se alguém souber mais sobre ela, deixe-nos saber também.

É preciso piratear.