Assédio e abuso sexual na comunidade da modificação corporal não é caso isolado!

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Uma das vítimas fala sobre o assédio com tatuador de Jundiaí. Foto: reprodução

No dia 25 de Janeiro de 2018 foi publicada uma matéria de título “The Tattoo Industry is having it’s own wrenching, revelatory #metoo” (livre tradução: A indústria da tatuagem tem seu próprio momento angustiante e revelador #eutambém), escrita por Anna Merlan e publicada no site Jezebel. Em um longo texto se denuncia casos de assédio e abuso sexual envolvendo tatuadores, diversas situações que aconteceram nos Estados Unidos da América. Destaco que na matéria citada, algumas informações precisaram ser removidas para proteção de uma fonte.

No Brasil o mês de Março – que ironicamente se comemora o Dia da Mulher – foi marcado pela explosão pública de denúncias de assédio e abuso sexual contra um modificador corporal de Jundiaí. O caso teve repercussão na comunidade da modificação corporal internacional e a imprensa genérica nacional também noticiou o fato. Inclusive em uma das matérias tentou-se contato com o profissional, afim de saber o que ele tinha a dizer, e não houve sucesso. Mais de 20 meninas relataram situações de abuso e assédio sexual, além de haver casos de denúncia de violência doméstica. Embora o caso tenha vindo a público agora, não é de hoje que circula essas denúncias, conforme menciona a matéria que tentou contato com o modificador. Todas as meninas vítimas da situação alegam o medo de denunciar. E, talvez, por esse motivo não se tinha noção da proporção disso tudo. De acordo com a investigadora-chefe Lilian Picchi, da equipe da delegada Maria Beatriz Curio de Carvalho, a unidade de Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) local, deve ser procurada pelas mulheres que sofreram qualquer tipo de abuso, para que um inquérito policial seja instaurado e, assim, todas as denúncias sejam apuradas pela polícia.

Em novembro de 2017, no Distrito Federal, foi preso um tatuador conhecido como “Jack, o estuprador”, após ter abusado de uma cliente. Ele já tinha uma passagem pelo mesmo motivo em 2008. O delegado responsável disse em matéria ao Extra, que além do caso recente e o de 2008, tinha conhecimento de outras três vítimas. Muitas tinham medo de denunciá-lo.

Em junho de 2016, em Maceió, um tatuador foi condenado a seis meses de prisão após dopar e estuprar uma cliente, em seu estúdio. A vítima pediu um copo de água, depois de bebê-lo, se sentiu tonta e desconfortável e adormeceu. Quando acordou, sentia ardência nas regiões íntimas. Procurou ajuda assim que saiu do estúdio, fez corpo de delito no Instituto Médico Legal – IML e foi constatado que ela possuía uma fissura anal. O acusado negou. A pena decretada foi de 6 meses em regime semi-aberto.

Recomendo agora que vocês entrem no Google e digitem: tatuador estupra. Feito isso, vocês vão constatar a quantidade de casos que acontecem no Brasil. Mas já sabemos que a violência contra as mulheres não é uma exclusividade do nosso país e nem da nossa comunidade, ela é estrutural. Considere ainda as repetidas vezes que escrevemos que as mulheres não denunciam situações de assédio, abuso e violência sexual por medo. Então esse número que temos acesso pelo Google, embora assustador, ele está bem abaixo ainda do que acontece diariamente. Inclusive na comunidade da modificação corporal.

Falamos sobre tatuadores acima, mas não se enganem, body piercers homens também alimentam essa lista. Modificadores corporais homens também. E é uma questão de tempo para que esses casos se tornem público. A violência contra a mulher é estrutural e ela é tão poderosa que a maioria desses casos acabam por cair em descrédito. Então, é urgente que estejamos atentas e atentos para os sinais. É urgente que a gente mude. É urgente que a gente não alimente essa estrutura e que trabalhemos arduamente para desmontá-la. 

Nos últimos anos a presença das mulheres tem aumentado significativamente na comunidade da modificação corporal. Além delas, das pessoas LGBTQ também. Já escrevemos algumas porções de vezes que isso vai revolucionar tudo o que vivemos até agora, inclusive essas violências que por muito ninguém se falava por medo ou vergonha. Enquanto essa mudança não acontece efetivamente na prática, infelizmente vamos ter que aprender formas de nos proteger, sustentar, amparar e combater essas violências. Inclusive aquelas sutis, que vão desde negar o trabalho para uma mulher em um estúdio, a objetificação da mulher seja em cartazes, capas de revistas e concursos de beleza ou quando não, em segregá-las dos homens, como quem diz, não estamos em pé de igualdade (e nem queremos estar). Falamos isso pensando nas competições de tatuagem em convenções, aquelas em particular que ainda insistem na bobagem de querer segregar as mulheres ou, piorando, criando uma categoria para as tatuadoras mais gatas, que só reforça a objetificação de seus corpos. A gente precisa avançar muito nesse sentido. E não é porque as mulheres não possam participar de concursos de beleza ou serem gatas, mas sim porque historicamente esse era o único papel que a sociedade machista – da qual fazemos parte – dedicou para elas: do bibelô. 

Todas essas discussões e reflexões que trouxemos aqui e agora, deveriam estar presentes em todas as convenções de tatuagem desse país. E a gente mensura o nível de preocupação com base no silêncio. Quando temos nas mãos uma ferida desse tamanho, assoprar quando arde não resolve. Aliviar não é tratar devidamente. E enquanto não nos comprometermos verdadeiramente com a causa, vamos precisar ouvir, repetidamente, o doloroso: #eutambém 

 

UTILIDADE PÚBLICA
Atendimento de polícia judiciária e atendimento psicossocial à vítima de violência doméstica, violência sexual, crianças e adolescentes vítimas. Todas as vítimas de violência sexual são encaminhadas ao Hospital Pérola Byington a fim de serem devidamente medicadas e receberem atendimento psicossocial (Programa Bem-Me-Quer).

1ª Delegacia de Defesa da Mulher – Centro
Rua Dr. Bittencourt Rodriguez, 200 – CEP 01017-010 – São Paulo
Telefone: (11) 3241-3328

Mais informações: http://www.cidadao.sp.gov.br/servico.php?serv=1715

 

REFERÊNCIAS

The Tattoo Industry Is Having Its Own Wrenching, Revelatory #MeToo Moment
https://jezebel.com/the-tattoo-industry-is-having-its-own-wrenching-revela-1822026779

Tatuador é suspeito de abusar de clientes
https://noticias.r7.com/cidade-alerta/videos/tatuador-e-suspeito-de-abusar-de-clientes-20032018

Grupo de mulheres acusa tatuador de assédio sexual e estupro em estúdio de Jundiaí
http://www.jj.com.br/policia/grupo-de-mulheres-acusa-tatuador-de-assedio-sexual-e-estupro-em-estudio-de-jundiai/

Tatuador conhecido como ‘Jack, o estuprador’ é preso ao abusar de cliente
https://extra.globo.com/casos-de-policia/tatuador-conhecido-como-jack-estuprador-preso-ao-abusar-de-cliente-22080724.html

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About T. Angel

No cenário da modificação corporal brasileiro desde 1997, inicialmente como entusiasta e posteriormente atuando no campo da pesquisa. Parte de seu trabalho está incluso no livro "A Modificação Corporal no Brasil - 1980-1990" e grande parte depositada aqui no FRRRKguys.com.br.