Corpo modificado: Padaung

0 Flares 0 Flares ×

l_5e5a3c9cfe2acaec6b3d35286c84651d

A ideia com essa serie que estamos montando em “visitar” tribos e populações que carregam como parte de suas culturas e tradições a modificação do corpo, é justamente chamar a atenção das pessoas que nos leem para o histórico e legado que rondam todos esses fenômenos. Obviamente que gostaríamos de trazer textos com mais embasamento e profundidade, mas no momento trabalharemos com pequenas introduções. Esperamos que essas fagulhas que lançamos provoquem as pessoas que nos acompanham e que despertem o interesse em conhecer mais.

As publicações anteriores rondaram diferentes povos da Índia, dessa vez iremos conhecer um pouco sobre uma comunidade tailandesa, que na realidade nem é tão desconhecida. Padaung ou Kayan Lahwi é uma comunidade indígena de Kayans, que habita as regiões montanhosas no sudeste de Mianmar, oeste da Tailândia. Na língua shan, Padaung (Yan Pa Doung) é um termo usado para designar os Kayan Lahwi (o grupo cujas mulheres usam as anéis de metal no pescoço). Popularmente elas são conhecidas como as mulheres girafas, por conta do pescoço e forma de andar.

O texto A brief history of the Thailand Burma border situation aponta que no final da década 80 e início da década 90, devido ao conflito com o regime militar de Myanmar, muitas tribos Kayan fugiram para áreas de fronteira na Tailândia. Entre os campos de refugiados havia um setor dos Kayan que tornou-se um local turístico e auto-suficiente a partir das receitas desse turismo. Diante dessas receitas, como aponta o Burmese Border Consortium Relief programme: January to June 2003, seus habitantes passaram a não depender de assistência financeira. Muitos turistas viajam para conhecer essas mulheres e isso se tornou rentável. No entanto, além da aparência, elas são exímias trabalhadoras, produzem diversos tipos de artesanatos como gorros, carteiras, etc. A espetacularização dessa população merece uma análise mais crítica e aprofundada, esperamos fazê-lo em outro momento.

Se a cultura é uma construção histórica, o conceito de beleza também o é. Sendo uma construção é passível de variações no tempo e espaço. As modificações corporais das mulheres da tribo falam sobre beleza. Desde bem jovens – estima-se que dos cinco anos em diante –  elas usam anéis de cobre no pescoço, antigamente era utilizado ouro. Quanto mais alto o pescoço e mais brilho tiver o colar mais bela é a mulher. Algumas outras teorias falam que os anéis serviam para proteger o pescoço de ataques de tigres, como também evitariam a escravização dessas mulheres por outras tribos. Mas são teorias e carecem de fontes.

Além do pescoço, os anéis também são colocados em partes dos braços e pernas. Mencionamos acima que o andar dessas mulheres eram bastante característicos e muito se dá por conta dessas modificações.

É importante dizer que o uso dos anéis não alongam o pescoço, na realidade o peso e a pressão faz com que a clavícula desça, causando visualmente essa impressão de pescoço grande.

l_c36ef1984ece6a4a47e4235084e1bf6eAs mulheres não morrem se os anéis forem retirados, no entanto, existe um enfraquecimento na musculatura do pescoço. Normalmente elas retiram os anéis para poder higienizar. Além disso, em 2006, algumas das mulheres mais jovens em Mae Hong Son começaram a retirar seus anéis por motivações e necessidades mais complexas. Para terem a oportunidade de continuar a sua educação ou em sinal de protesto contra a exploração de sua cultura e as restrições que vieram com ela. No final de 2008 a maioria das jovens que entraram no campo de refugiados removeram seus anéis. Uma mulher que tinha usado os anéis por mais de 40 anos, os removeu. Depois de retirar os anéis, as mulheres relatam desconforto.

O governo da Birmânia começou a desencorajar o uso dos anéis no pescoço em um aparente confronto entre passado e presente, em outras palavras, a ação era parte do esforço de se parecer mais moderno para um mundo desenvolvido. Muitas mulheres de diferentes gerações se recusaram a remover os seus anéis e seguiram com a tradição. Além obviamente de um esforço com a manutenção da cultura, a rentabilidade com o turismo também foi significante.

Confira abaixo mais algumas imagens.

 

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 LinkedIn 0 Pin It Share 0 Reddit 0 Email -- 0 Flares ×

About T. Angel

No cenário da modificação corporal brasileiro desde 1997, inicialmente como entusiasta e posteriormente atuando no campo da pesquisa. Parte de seu trabalho está incluso no livro "A Modificação Corporal no Brasil - 1980-1990" e grande parte depositada aqui no FRRRKguys.com.br.