Entrevista com Nina Carlson sobre body building e veganismo

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Fotos: divulgação / Nina Carlson

Na véspera do dia da mulher trazemos essa entrevista especial para vocês com a jovem fisiculturista vegana, Nina Carlson. A atleta que está prestes a participar de sua primeira competição, deu uma pausa em sua disciplinada rotina para conversar com o FRRRKguys. Desejamos desde já muito sucesso e boa sorte para Nina e agradecemos por sua atenção. Agora, mais do que falarmos sobre a atleta, deixaremos as palavras com ela própria. Boa leitura!

T. Angel: Vamos começar a nossa conversa querendo saber quando você se tornou vegan, quantos anos tinha? O que te motivou? Qual era a relação que você tinha com o seu corpo antes e depois da transição?
Nina Carlson: Eu parei de comer carne com 13 anos e virei vegana com 18. Eu não me sentia bem por ainda comer derivados do leite e ovos, não estava em paz com a minha consciência e sabia que precisava ser vegana pra que isso acontecesse. Minha única motivação foi a compaixão pelos animais. Antes de me tornar vegana, eu não me importava muito com a origem dos alimentos. Depois da transição, comecei a me preocupar mais com a saúde e com os nutrientes dos alimentos.

T. Angel: Em uma entrevista sua do começo do ano, você fala muito sobre a questão da consciência, no sentido, de que o veganismo te deixou em paz com sua a consciência. Gostaríamos que você falasse um pouco mais sobre isso.
Nina Carlson: Quando eu parei de comer carne, no fundo eu sabia que a indústria dos laticínios e ovos também era muito cruel, mas por falta de informação sobre as possibilidades da alimentação vegana, eu não fazia a transição. Era a famosa zona de conforto. Porém, eu não me sentia confortável com a minha consciência, então fui atrás de informação, decidi que ser vegana era mais condizente com o que eu achava correto.

T. Angel: Você é uma atleta do body building e está prestes a participar da sua primeira competição. Gostaríamos de saber quando e como o esporte entrou na sua vida?
Nina Carlson: Eu tive depressão quando tinha 14 anos. Fiz acompanhamento profissional pra sair daquela situação, mas fiquei totalmente curada somente quando estava com 16 e resolvi começar a treinar boxe. O esporte me salvou daquela doença. No começo de 2014 passei por muitos problemas que me deixaram bastante deprimida novamente, mas ao perceber os sintomas, decidi que não iria ao fundo do poço novamente, então me matriculei em uma academia. Desde então não parei mais de treinar e o esporte me salvou novamente.

T. Angel: E como está a sua consciência nas vésperas da primeira competição?
Nina Carlson: Agora estou bastante tranquila, pois sei que estou fazendo o meu melhor, me dediquei e me dedico de corpo e alma. Independente do resultado, me sinto vitoriosa.

T. Angel: Você diz que o esporte é uma forma também de militância pelos direitos dos animais, conte-nos um pouco sobre isso?
Nina Carlson: Dentro do fisiculturismo, assim como em nossa sociedade em geral, ainda há muita desinformação a respeito da alimentação vegana. Há alguns mitos sobre as proteínas vegetais, muitos acreditam que elas não são tão boas quanto as animais e que é impossível ter resultados de hipertrofia sendo vegano. Portanto, creio que levar o veganismo através desse esporte trará muita visibilidade à causa.

T. Angel: Você enquanto mulher e body builder vegana sente algum tipo de preconceito no esporte por conta de gênero e da sua filosofia de vida no que diz respeito aos direitos dos animais?
Nina Carlson: Com certeza, sou constantemente hostilizada ou por ser mulher, ou vegana, ou as duas coisas ao mesmo tempo. É difícil, mas não devemos deixar que nos oprimam nessas situações, devemos nos manter firmes e defender aquilo que acreditamos.

T. Angel: Sabemos que ainda é muito forte o pensamento sexista machista que postula que a “mulher de verdade” (sic) precisa ser frágil, delicada, recatada, do lar… Como você lida com essa questão? 
Nina Carlson: Realmente ainda há muito esse pensamento, mas hoje em dia eu lido bem e até gosto de ir na contra mão daquilo que dizem que é o correto e aceitável.

T. Angel: Existe o discurso sexista, transfóbico e machista que diz que mulheres musculosas parecem travestis, no sentido pejorativo. Inclusive recentemente circulou no grupo Musculação Vegana um moço dizendo para as mulheres não treinarem muito os braços pois – segundo a opinião estritamente pessoal dele – fica feio. Na época lembro que você fez uma postagem mostrando seus braços e com um texto que dizia que agora você iria treinar mais ainda. Bom, quero saber como é para você administrar esse tipo de pensamento e, principalmente, o que podemos fazer para quebrar esses preconceitos?
Nina Carlson: 
Como eu disse, hoje em dia eu até gosto de ir na contra mão do que é socialmente aceito, acho que independente da opinião alheia, devemos ser fiéis a nós mesmos, dessa maneira os preconceituosos terão que nos “engolir”, não devemos nos deixar oprimir.

T. Angel: Além de conversar sobre gênero, acho importante a gente falar também sobre classe. Existe ainda de modo muito forte a ideia de que o veganismo é exclusivo para as classes economicamente mais favorecidas. Como você enxerga essa questão?
Nina Carlson: Eu não acredito nessa ideia. Acho que independente de veganismo ou não, qualquer alimentação que seja à base de industrializados será cara e excludente. Se basearmos a alimentação vegana a produtos extremamente processados e práticos, certamente ela terá um custo elevado. Mas se nos basearmos nos grãos, legumes, verduras, frutas, será muito mais acessível. Na minha opinião, esse tipo de argumento é inválido e é utilizado por quem não está disposto a mudar, mas quer livrar a própria consciência colocando barreiras onde não há.

T. Angel: Além de estar modificando o seu corpo através do esporte, você tem tatuagem e piercing. Conta para gente quais as modificações corporais você tem, como que se deu sua relação com elas?
Nina Carlson: 
Eu fiz meu primeiro piercing com 12 anos, foi no umbigo. Desde então, fiquei fascinada, na época fiz vários furos nas orelhas, coloquei um piercing na sobrancelha. Depois fiz os piercings na boca, tive alargadores. Com 15 anos fiz minha primeira tatuagem. Eu gosto muito e tudo isso faz parte de mim, nem me lembro que os tenho, é algo natural, são um pedaço de mim e do que eu sou.

T. Angel: Quais seriam suas referências dentro do esporte que você pratica?
Nina Carlson: No fisiculturismo, comecei observando os atletas veganos de fora, como Torre Washington, Korin Sutton, Derek Tresize, pois todos eles têm shapes incríveis construídos à base de alimentação vegana. Hoje em dia me inspiro em atletas da categoria em que vou competir, que não são veganas (pois não existem atletas veganas na categoria, eu serei a primeira). A referência máxima na categoria é a Angela Borges.

T. Angel: Para quem quiser acompanhar o seu trabalho, deve fazer o que?
Nina Carlson: Acompanhem meu trabalho na minha página no Facebook: https://www.facebook.com/ninacarlsonvegan
e Instagram: www.instagram.com/ninacarlson

T. Angel: Deixe um recado para as meninas que estão a nos ler e que querem se iniciar no body bulding vegan¿
Nina Carlson: Não deixe que ninguém te diga que você não é capaz, que você não vai conseguir. Trabalhe em silêncio, ignore essas pessoas. Com o tempo e o trabalho duro, os resultados virão e as pessoas verão o quanto estavam erradas ao tentarem te fazer desistir. Acredite nos seus sonhos, acredite em si mesma.

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About T. Angel

No cenário da modificação corporal brasileiro desde 1997, inicialmente como entusiasta e posteriormente atuando no campo da pesquisa. Parte de seu trabalho está incluso no livro "A Modificação Corporal no Brasil - 1980-1990" e grande parte depositada aqui no FRRRKguys.com.br.