Jefferson Saiint fala sobre a tatuagem no globo ocular

Fotos: divulgação / Arquivo de Jefferson Saiint

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Desde que os primeiros olhos foram tatuados no Brasil muita polêmica, discussão, processos e brigas surgiram. Incansáveis e inúmeros episódios de brigas tiveram as redes sociais como ringue e como juiz a falta de senso.
Tudo bem que a gente entende que se tenha resistência ao novo. Também questionamos como a coisa toda – isto é, o eyeball tattoing especificamente – foi introduzida no Brasil. Mas não podemos perder o bom senso e a razão, jamais.
Acreditamos na importância de se registrar de forma documental essa situação embaraçosa, uma vez que ela ilustra a cena atual da comunidade da modificação corporal nacional. Principalmente como o preconceito se manifesta dentro da própria comunidade. Na verdade não há nada de muito novo nisso tudo, a resistência em aceitação dentro da comunidade body mods é bem comum e frequente. Alguns rejeitam scars, outros olham feio para os implantes, tem aqueles que só aceitam tatuagens (e discretas) e inclusive tem aqueles que só vão aceitar quem tem body mods, tipo clube da Luluzinha. Não vamos entrar nem no mérito da recusa da suspensão corporal, para não sair tanto do foco. Não, não é nada legal termos que assumir tudo isso, na verdade até nos causa uma certa vergonha, mas acontece e acho que uma das nossas batalhas com o FRRRKguys.com.br é de criar novos olhares e (re)posicionamentos sobre o corpo modificado.
Shannon Larratt do BMEzine.com também tem se mostrado saturado em como a coisa anda. Com ele temos o triste relato de que essa situação não é um problema particular do Brasil. Segundo sua publicação ele não aguenta mais receber mensagens de uns – profissionais, pasmem! – acusando os outros por incompetência e falta de ética. Ainda em suas palavras, ele gostaria que as pessoas da comunidade body mods entendessem que estamos no mesmo barco e fazemos parte do mesmo time, somos aliados e não inimigos. O problema é que destruir parece estar sendo mais interessante que construir. Lamentável.
Pensando agora a questão do eyeball tattoo, ficou evidente para nós – tanto com a experiência em solo nacional, quanto com a crítica trazida por Shannon – que há os que defendem o andamento da prática e aqueles que lutam contra. De ambos os lados, os mais levianos, medíocres e pequenos são aqueles que torcem pela desgraça. Podemos compreender que não se aceite determinando procedimento, mas nunca poderemos aceitar o pensamento – expresso e declarado publicamente – de alguém que quer ver alguém ficar cego, perder o olho, morrer, ser preso ou coisa que o valha. Esse querer o mau do outro – que tem sido bem recorrente no caso da tatuagem do globo ocular – de forma tão banal é inaceitável e precisa mudar. Na verdade é um tipo de mentalidade bem comum dentro da comunidade body mods, por exemplo, já escrevemos por aqui sobre os que vão aos eventos de suspensão torcendo para ver alguém cair, pra quem sabe talvez se sentir melhor e saciar o ego de sujeito mimado. Acreditamos que um profissional, no sentido legitimo do termo, jamais teria esse tipo de postura. Sobre todas as coisas a preocupação com a segurança e bem estar do outro deve ir além dessa fome voraz da desgraça pela desgraça.
Estamos acompanhando o andamento da técnica do eyeball tattoo desde que o Luna Cobra fez as primeiras aplicações públicas e por felicidade o entrevistamos por AQUI. Além disso, o primeiro a ter os dois olhos preenchidos foi o norte-americano Josh (in memorian) que era bastante próximo e dividiu muito sobre a sua experiência conosco. Mesmo sendo o primeiro a ter ambos os globos tingidos de azul, as aplicações aconteceram em grandes intervalos.
Existia uma excitação muito singular com os avanços da técnica e agora temos quase o seu avesso. De uma hora para a outra a coisa toda parece ter perdido o controle e isso não nos soa tão bem. É um procedimento delicado demais para estar sendo executado de forma tão avulsa e deliberada. Não negamos que ficamos preocupados com a situação atual, principalmente quando a coisa toda ronda a nossa porta, mas torcemos para que o bom senso salte frente a simples necessidade de ego e dinheiro.
De antemão gostaríamos de nos desculpar por tantas divagações aparentemente desconexas, mas acreditamos que elas se fazem importantes, para não dizer essenciais.
Dito isso, fizemos uma entrevista exclusiva com Jefferson Saiint, um dos primeiros brasileiros a ter os olhos tatuados e que agora está também trabalhando com o eyeball tattooing. Na semana passada surgiram boatos de que ele teria tatuado os olhos de um adolescente e que o procedimento tinha dado errado. Buscamos saber do próprio sobre o ocorrido, além de conhecer um pouco mais sobre sua trajetória no meio da body mods.
A ideia da respectiva entrevista é a de ouvir o que ocorreu do responsável pelo caso e também reforçar que a tatuagem no globo ocular é um procedimento extremamente delicado e que não está inteiro desenvolvido. No Brasil não temos profissionais treinados com o Luna Cobra (criador da técnica), o que eleva potencialmente o grau de riscos – em curto e longo prazo – e de alguma coisa dar errada.

Confira abaixo a entrevista.

T. Angel: Pra gente conhecer um pouco mais sobre você: qual a sua idade, formação e com que trabalha atualmente?
Jefferson Saiint: Tenho 22 anos, sou formado em Análise e Desenvolvimento de Sistemas. Ex desenvolvedor e hoje sou body piercer.

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T. Angel: Quando você começou a fazer modificações corporais? Quais foram as motivações?
Jefferson Saiint: Sempre gostei muito de modificações corporais, cresci no meio de um grupo que hoje não existe mais (clubbers), sempre vi as pessoas com orelhas alargadas, cabelos coloridos e algumas tatuagens. Na época não era tão comum.
Esperei por meus 18 anos, em respeito aos meus pais que não aceitavam a ideia e comecei dilatando os lóbulos, depois de uns meses já estavam enormes. Depois comecei a me tatuar e conhecer mais e mais as modificações.

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T. Angel: Quais modificações corporais você tem hoje?
Jefferson Saiint:
Helix 14mm, Big Labret 14m, Big septum 10mm, implante subdermal genital, pigmentação ocular, tongue split,tatuagens e lóbulos de alien.

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T. Angel: Alguma delas é mais especial?
Jefferson Saiint: Gosto demais do meu Helix.

T. Angel: Já fez suspensão corporal? Quando, qual posição?
Jefferson Saiint: Fiz apenas uma vez, suicide.

T. Angel: O que te levou a se suspender?
Jefferson Saiint: Curiosidade, via as pessoas de um jeito e depois de outro quando suspendidas, passei a ter vontade e fiz.

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T. Angel: Você tem trabalhado como modificador corporal? Quando surgiu o interesse? Conte-nos um pouco sobre sua trajetória nesse meio.
Jefferson Saiint: Me interessei profissionalmente há 2 anos. Deixei minha profissão na área de T.I. e fiz um curso básico de piercer. Ano passado conheci de perto e acompanhei procedimentos extremos, isso me deixou fascinado, a partir daí passei a estudar e me informar com vários profissionais que já realizavam esses procedimentos.
Modificação extrema fiz bem pouca, é difícil entrar nesse meio quando já se tem vários profissionais muito bem treinados.

T. Angel: Procurou se especializar em algum tipo de trabalho?
Jefferson Saiint: Ainda não pensei nisso, gosto de muitas coisas para conseguir escolher uma só.

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T. Angel: Você é um dos poucos brasileiros que fazem hoje o eyeball tattoing. O que você pode nos falar sobre o procedimento?
Jefferson Saiint: Muito arriscado, a pessoa que aceita fazer esse procedimento está se arriscando muito, não sabemos se vamos errar ou acertar, cada olho é um novo desafio.

Ainda não temos um profissional 100% preparado para tal procedimento, se alguém ai pensa em fazer pode ter certeza, esta exposto a erros ou acertos.

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T. Angel: Existe muita procura?
Jefferson Saiint: Sim, o que era medo agora é vontade, muita gente me procura para fazer tal procedimento.

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T. Angel: Há rumores circulando nas redes sociais de que você teria feito um olho de um adolescente e que o procedimento tinha sido errado. O que você pode nos falar sobre isso?
Jefferson Saiint: Eu tenho muito o que falar nessa questão, mas estou feliz porque consegui resolver tudo, não passou de um desentendimento por parte de um profissional que espalhou as informações erradas. Vou passar isso através de imagens. Segue a primeira imagem. Perguntei sobre a idade do rapaz:

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Segunda imagem; ele me agradece pelo procedimento e diz que está tudo ok.

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Depois o rapaz foi proibido por um outro profissional que faz esse procedimento também de falar comigo.

Após uns dias estudando os casos eu levei isso para que todos ficassem sabendo do que aconteceu, e no final acabei deixando todos cientes que o procedimento não deu errado mas sim ficou incompleto, a tinta não espalhou completamente. O olho dele era diferente dos demais que tinha realizado o procedimento, e só tinha como saber realizando mesmo. Shannon veio falar comigo a respeito e disse que não tem nada demais com o olho e que eu fiz o certo em não continuar o procedimento e que esperar que tudo fique bem e que eu seja mais atento.

T. Angel: Mesmo sabendo dos riscos (inclusive dos riscos não conhecidos ainda), o que você pensa quando realiza um eyeball?
Jefferson Saiint: Eu deixo a pessoa bem ciente dos risco, no momento do procedimento eu consigo relaxar e realizar numa boa.

T. Angel: Quais os seus planos para futuras body mods?
Jefferson Saiint: Pretendo me especializar mais nessa área e mostrar minha capacidade, por mais que não tenha 8 ou 10 anos de experiência eu tenho estudado muito, e em troca tenho um retorno muito positivo.

T. Angel: Como você vê a “cena” da body mods no Brasil?
Jefferson Saiint: Guerra de egos, hoje temos a body mods divida em um grupo de pessoas politicamente corretas, que são contra modificações extremas e temos várias pessoas dividas em grupos bem fechados, só esperando fulano errar alguma coisa pra queimar o filme.

T. Angel: Deixe uma mensagem para quem gosta do seu trabalho e nos acompanham por aqui.
Jefferson Saiint: Se uns são mais capazes de chegar à verdade do que outros, é porque uns conduzem bem a sua razão , outros a conduzem mal.” – Descartes

About T. Angel

Historiador e artista da performance. Está inserido no cenário da modificação corporal brasileiro desde 1997, inicialmente como entusiasta e posteriormente pesquisador. Parte de seu material de pesquisa está incluso na iniciação científica "A Modificação Corporal no Brasil - 1980-1990" e grande parte depositada aqui no FRRRKguys.com.br.