Marcas corporais temporárias que sobrevivem ao tempo, o mehndi no interior de São Paulo

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Fotos: divulgação

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Na década de 90, no meio do olho do furacão da ascensão das modificações corporais no Brasil, surge a tatuagem de hena, técnica muito recorrente no Chifre, norte da África e Sul da Ásia, onde tem o nome de mehndi ou mehendi. Aqui a técnica não demorou para se popularizar, impulsionadas pelas feiras alternativas como o Mercado Mundo Mix ou a Babilônia Feira Hype. Invadindo até mesmo as praias brasileiras, onde turistas – ainda hoje – fazem marcas temporárias em seus corpos. Soma-se ainda o fator de que é exatamente nesse período – década de 90 – que surge a lei Campos Machado que proíbe que se faça tatuagem em menores de idade, assim, a técnica surge como uma opção possível para esse público. Era comum nos anos 90 muitos estúdios oferecerem o serviço, no entanto, com o passar do tempo, pouco a pouco a técnica foi perdendo espaço. Engana-se quem pensa que ela desapareceu.

Recentemente conhecemos o belíssimo e cuidadoso trabalho de Bruna Lujan de São José do Rio Preto, interior de São Paulo. A profissional tem se dedicado ao trabalho com hena, muitas vezes se aproximando bastante do uso que culturalmente se faz em países como a Índia, por exemplo, em que é comum a aplicação nos pés e mãos em ocasiões festivas, como casamentos, eventos religiosos e cerimônias tradicionais. A profissional do interior de São Paulo que vem trabalhando com a técnica, nos contou que:

“A hena é um dos mais antigos cosméticos da humanidade. Era usada como esmalte, maquiagem, tinta de cabelo, fungicida, remédio para dor, as pinturas também simbolizam um rito de passagem, é um momento de conexão interior. Em cada região do norte da África de onde a planta é nativa, a cor e as misturas da pasta mudam, diferenciando assim cada região. Apesar de ser muito antiga, por séculos ficou esquecido. As mulheres pela pouca voz ativa, não sabiam ler e nem escrever, a comunicação por muito tempo foi via oral, passando de geração a geração a receita da hena, muita coisa se perdeu no meio disso. Em nosso país é pouco conhecida por essa falta de comunicação, ainda é muito difícil falar sobre a hena, por pouca informação, tudo o que sei é por livros e por Instagram, onde acompanho o trabalho de pessoas que fazem também.” 

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Bruna nos contou também que sempre gostou muito de desenhar. Seu envolvimento com o mundo da arte corporal se deu em 2013, momento em que ela fez um curso de body piercing. Passado um ano do curso, ela começou a trabalhar no estúdio Menina Amarela e ali conheceu a chamada hena de praia. Desconhecendo os riscos, Bruna nos disse que fez hena nas amigas e primas, até que uma delas teve reação alérgica ao produto, a pele ficou levemente avermelhada e, justamente por isso, a profissional orientou a amiga a procurar um médico. A orientação se deu por saber que a tinta usada era para cabelo e a moça já havia demonstrado reação quando pintou os cabelos de preto. Houve a devida medicação e tudo ficou bem. Após esse episódio Bruna desistiu de usar os produtos, mas não da técnica.

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Novas pesquisas começaram, “eu e meu irmão nos lembramos da novela em que mostrava as mulheres indianas fazendo as artes temporárias” nos contou a profissional. Partindo daí, eles foram procurar onde vendia a tal hena natural, quando encontraram, realizaram um pedido para fazer novas experiências. O produto demorou 3 meses para chegar. As novas pesquisas, trouxeram informações importantes para a profissional. Ela nos contou que:

“A hena é feita de uma planta amassada chamada Lawsonia Inermis, é utilizado os galhos e as folhas secas e trituradas. A mistura da hena tem como base o pó, misturado com óleo essencial, cravo, canela, menta, limão e açúcar. A pasta é muito cheirosa e o toque na pele é suave e refrescante, além de ser extremamente relaxante também. É uma terapia receber Mehndi.”

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Percebemos que existe diferentes colorações quando aplicadas na pele. sobre isso Bruna nos informou que:

“A cor muda de acordo com a pele de cada pessoa e com os cuidados que se leva, para receber uma Mehndi o ideal é se programar, preparar a pele antes, fazendo uma esfoliação na região desejada, após a aplicação esperar secar cerca de 40 minutos, depois de seca faça uma mistura com limão e açúcar e aplique com cuidado por cima da Hena, (longe do sol) sem tirar as casquinhas do lugar. E deixar secar por mais algumas horas, quanto mais tempo ficar com ela na pele mais forte fica. Lavar em água corrente depois. Nos dedos, palma da mão e pé a cor fica mais forte e chega a durar até 40 dias até que saia por completo. Em outras regiões do corpo fica de 15-20 dias até que saia por completo. A Hena tem diferentes tonalidades desde a aplicação até que saia por completo. O primeiro dia fica laranja, no segundo marrom e no terceiro um marrom mais forte.”

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Em São José do Rio Preto, Bruna Lujan desenvolve o trabalho há dois anos e meio, aos poucos as pessoas estão conhecendo um pouco sobre a tattoo temporária. A profissional diz que faz trabalhos como joias no corpo, para fotografias na barriga das gestantes, pessoas com o tratamento de câncer, crianças, em quem quer experimentar como fica a tattoo e até mesmo em quem tem aquela vontade de tatuar mas não tem muita coragem. Ou seja todo mundo pode fazer uma Mehndi.

“As pessoas me procuram por diferentes motivos, não existe restrição de idade e nem local para a aplicação, meus trabalhos são todos criados na hora de acordo com o estilo de cada pessoa, trocamos uma ideia e a arte é feita em freehand. Muito diferente da tattoo a Hena da a liberdade de ousar, enfeitar sem medo de se arrepender.”

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Para quem se interessou, para agendar o horário é só entrar em contato com a profissional pelo Facebook. Novas experiências sensoriais e estéticas são sempre muito bem vindas, procure sempre profissionais capacitadas e desfrute.

CONTATO
https://www.facebook.com/lujan.tattoo

REFERÊNCIAS
Tattoo temporária
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/folhatee/fm011221.htm

Mehndi
https://en.wikipedia.org/wiki/Mehndi

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About T. Angel

No cenário da modificação corporal brasileiro desde 1997, inicialmente como entusiasta e posteriormente atuando no campo da pesquisa. Parte de seu trabalho está incluso no livro "A Modificação Corporal no Brasil - 1980-1990" e grande parte depositada aqui no FRRRKguys.com.br.