Mariana Queiroz fala sobre o eyeball tattooing

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10489896_10152559171454158_6493141435504215021_n                                                     (Foto: Pri Nunes – 2014)

A chegada do eyeball tattooing no Brasil mudou não só a cor da esclera das pessoas, mas abalou todas as estruturas da comunidade da modificação corporal. Todas as pequenas rachaduras que sempre existiram, ruíram. O que restou é um ranço de alguma coisa que não queremos participar.

Ronda – ainda que velado – um discurso que sugere – mesmo que no subtexto – segregações e fronteiras que mais nos separam do que nos aproximam. Se as nossas práticas viveram por um longo período na margem da sociedade, o que estão tentando criar é a margem da margem. Tatuadores de um lado, body piercers de outro e os body modifiers em qualquer outro lugar, desde que fora tanto de um grupo como de outro. A exemplo, temos a Associação de Tatuadores e Perfuradores do Brasil que luta declaradamente contra o eyeball tattooing, não escondendo o apoio cedido ao Deputado Peninha. 

Com isso – como não poderia deixar de ser -, o momento é de um profundo mal estar dentro da comunidade da modificação corporal nacional, que no entanto, entendemos como um processo de ruptura e isso pode doer.

A pior parte dessa aparente subdivisão dentro do que chamamos de “comunidade, é que as pessoas que são contra o procedimento de eyeball tattooing expõem apenas um lado da questão e alimentam inverdades. Não estamos falando nem que existam apenas dois lados, mas sim vários e é justamente por isso que acreditamos ser inaceitável esses ataques todos. Não podemos nos basear apenas nos erros para condenar um procedimento. Nós poderíamos também selecionar milhares de imagens de tatuagens que deram errado, centenas de fotografias de body piercings que deram errado e que sim, colocaram a vida de pessoas em risco e que sim, ganham disparadamente em proporção dos riscos e quantidade – de fato – causados pelo eyeball tattooing. Poderíamos também fazer inúmeras citações de jornais, revistas, vídeos de jornalistas e médicos falando absurdos tanto da tatuagem quanto do piercing, mas não ganharíamos nada com isso, absolutamente nada, seríamos perdedores. Pessoas perderiam trabalhos, pessoas perderiam a liberdade e autonomia sobre seus corpos e esse mundo tenderia a se tornar mais opaco e reprimido do que já é.

LEIA AQUI: A manutenção do preconceito contra as modificações corporais através do discurso da direita

Pensando em responder dúvidas, esclarecer inverdades, desmistificar e – de fato – levar informação ao público, estaremos entrevistamos as primeiras pessoas que fizeram o eyeball tattooing no Brasil, o que em breve completará dois anos. É importante ouvir o que essas pessoas têm a dizer e principalmente comparar com o que vem sendo divulgado pela imprensa e redes sociais, que por desconhecimento ou mau carátismo deturpam informações que poderiam colaborar com o aprimoramento técnico do eyeball tattooing.

Nossa primeira entrevistada é a body modifier Mariana Queiroz. Optamos em fazer as questões de maneira bastante didática, para tentar ao máximo que esse material tenha um potencial educativo. Pode ser que em algum momento soe primário demais, mas se é esse o nível que nos encontramos, é assim que precisa ser.

10255850_576570755772665_9104467597392873557_n                                                     (Foto: Bruno Akanni – 2014)

T. Angel: Quando você fez o seu eyeball tattooing?
Mariana Queiroz: Outubro de 2012.

T. Angel: Quem realizou o procedimento?
Mariana Queiroz: Rafael leão.

T. Angel: Você esteve e está ciente de todos os riscos que envolve o procedimento?
Mariana Queiroz: Sim, todos.

T. Angel: Como está a sua saúde ocular hoje?
Mariana Queiroz: esta normal, não houve alteração e consultei alguns oftalmologistas.

T. Angel: Você “retocou” o procedimento? Se sim, por quê?
Mariana Queiroz: Sim, fiz um retoque no olho esquerdo, a tinta não havia preenchido por completo. Foi o primeiro que havia feito e tínhamos aplicado uma quantidade pequena de tinta para observar a reação.

 

T. Angel: Em algum momento teve problema leve ou grave por conta do eyeball tattooing?
Mariana Queiroz: Não.

10155210_602017483227992_1639743597918864665_n                                                                                   (Foto: Bruno Akanni – 2014)

T. Angel: Fala-se muito de uma super sensibilidade à luz, você passa por isso?
Mariana Queiroz: Não, apenas nos primeiros dias senti, mas logo passou.

 

T. Angel: Fala-se também sobre pessoas que pigmentaram os olhos e lacrimejam sem parar, com você acontece isso?
Mariana Queiroz: Acontece de lacrimejar às vezes por alguns minutos, normalmente quando tenho que olhar diretamente para luz forte por muito tempo, como em sessão de fotos. Mas uma sensibilidade bem como a de quem não tem olhos tatuados.

T. Angel: Passou por alguma consulta no oftalmologista depois do procedimento? Se sim, quando e como foi?
Mariana Queiroz: Sim, fui logo após realizar a pigmentação dos dois olhos (fiz um de cada vez) e mais ou menos 1 ano depois. Ambas consultas foram ok, fui bem tratada, me perguntaram como foi feito o procedimento e examinaram meus olhos, por fim não houve alteração até então.

1907590_632343226845802_1057126354_n                                                                                   (Foto: Bruno Akanni – 2014)

T. Angel: Sente que a visão foi prejudicada por conta do procedimento?
Mariana Queiroz: Não.

T. Angel: As pessoas que são contra a prática do eyeball tattooing no Brasil, em sua maioria, alegam que quem fez eyeball tattooing está ficando cego. Você está ficando cega?
Mariana Queiroz: Não e não conheço registros de cegueira por conta do procedimento até então.

T. Angel: Você se arrepende em algum momento de ter realizado o procedimento?
Mariana Queiroz: Não.

T. Angel: Você é contra o projeto de lei que pretende tornar crime o eyeball tattooing no Brasil?
Mariana Queiroz: Sim.

 

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T. Angel: Qual a sua posição diante das críticas e manifestações de pessoas da comunidade da modificação do corpo, que querem que o procedimento seja banido e se torne crime?
Mariana Queiroz: Fico bem triste em ver que dentro da nossa comunidade existe esse tipo de repressão, deveríamos estar unidos, buscando informações e técnicas mais seguras para evolução de nosso meio. Muitos não concordam com isso e acabam desinformando e criminalizando colegas de trabalho, mas minha parte vou fazer, mesmo que como um trabalho de formiguinha, buscar , trocar informações e lutar pela nossa liberdade de escolha, que só cabe a nós decidirmos o que fazemos com nosso corpo!

Para assinar o repudio ao projeto de lei que pretende tornar crime o eyeball tattooing, clique no link abaixo:

https://secure.avaaz.org/po/petition/Deputado_Rogerio_Peninha_Mendonca_PMDBSC_Pedimos_o_arquivamento_imediato_do_PL_57902013/?cWKTwfb

CONTATOS
Mariana Queiroz – https://www.facebook.com/maryjobodyart
Pri Nunes – https://www.facebook.com/priscila.varela.18
Bruno Akanni – https://www.facebook.com/brunoakannipage

 

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About T. Angel

No cenário da modificação corporal brasileiro desde 1997, inicialmente como entusiasta e posteriormente atuando no campo da pesquisa. Parte de seu trabalho está incluso no livro "A Modificação Corporal no Brasil - 1980-1990" e grande parte depositada aqui no FRRRKguys.com.br.