O que pretendeu a série Grey’s Anatomy ao falar sobre modificações corporais?

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O Homem-Gato de Grey’s Anatomy. Foto: reprodução / Netflix

No dia 05 de Novembro de 2012 morria Dennis Avner, conhecido mundialmente também como Stalking Cat, Cat man ou Tiger. No Brasil, era conhecido como o homem que queria ser gato ou que tinha se modificado como um gato. As pessoas e a grande imprensa pouco falavam sobre a sua relação totêmica e, de modo geral, pouco se interessavam em saber sobre as suas crenças e raízes. Pensar exige esforço e a maioria das pessoas não querem demandar energia para isso. 

No dia 27 de Fevereiro de 2014 a famosa série Grey’s Anatomy levou ao ar o episódio Take it back. Na trama, quebrando o cotidiano do Hospital, surge um personagem que causou um acidente na rua por conta de suas modificações corporais. Em clara referência à Stalking Cat, o personagem carregava as mesmas modificações corporais e era tratado como Homem-gato. Até mesmo o biotipo do ator era parecido com o de Dennis Avner. É impossível dizer que não existia o referencial. Assim como é impossível e inadmissível dizer que isso se tratou de uma homenagem. A premissa de uma homenagem é a retribuição de honra, um agradecimento público. E a série passou distante disso. 

As duas médicas não escondem o desconforto em atender o paciente. Logo quando ele chega no Hospital e percebe a cara de horror de uma das médicas, aponta que seu braço está machucado e não sua cara. Não foi suficiente. O personagem tenta saber se uma das pessoas feridas – uma criança – estava melhorando e essa rápida visita no quarto da paciente se torna uma cena de horror.  No maior estilo Frankenstein, clássico da literatura gótica. A criança acorda e se assusta com a figura do Homem-gato e se inicia uma gritaria. Chega uma médica que também se assusta e a gritaria se amplia. Sublinha-se aqui a figura do monstro, do inumano. A breve passagem do personagem termina com uma confissão para as médicas de que ele havia se arrependido das modificações corporais e que elas o causavam um dano biopsicossocial. Que ele estava há mais de um ano e meio sem sair de casa e no dia que ele resolveu sair, tudo aquilo estava a acontecer. E assim o personagem desaparece. Apenas dizendo que deseja voltar logo para sua casa. As duas médicas, que o tempo inteiro se mostraram visivelmente desconfortáveis em atendê-lo, não demonstram muita empatia e nem muita comoção. As cenas seguintes mostram ambas mergulhadas em seus dramas particulares e era como se nada daquilo estivesse acontecendo. 

A série reforça todos os estereótipos possíveis sobre as pessoas que fazem modificações corporais de modo mais profundo e intenso, tal qual Dennis Avner e tantas outras pessoas da nossa comunidade o fizeram ou fazem. Trabalha debruçada no discurso patologizante e no discurso de que se trata de uma fase ligada com a juventude inconsequente e que o resultado só pode ser um: o arrependimento. Em momento algum trata o personagem – que não é só um personagem! – com humanidade, muito pelo contrário, criam um monstro que causa acidentes, que assusta e que sofre com isso. 

Assistindo o episódio, lembrei das inúmeras vezes que fui ao médico e recebi tratamento muito parecido. Lembrei dos olhares desconfortáveis, da desconfiança, do medo e não tenho nem a metade das modificações corporais que Dennis Avner tinha. Lembrei das vezes que antes de sair do consultório de alguns médicos, era me entregue algum papel com dizeres bíblicos acompanhado de um “Jesus, te ama”. E o problema não são as modificações corporais e sim essa construção normativa de mundo que temos somado de uma deturpação ética. 

Em nosso país – assim como nos EUA, imagino – violar sepultura é crime, mas parece bastante razoável para essas pessoas violar simbolicamente as nossas sepulturas e gritar em nossos ouvidos que nem depois de morrermos teremos a nossa dignidade preservada. Porque a gente já entendeu que em vida a nossa dignidade é o tempo todo retirada. E talvez por isso que Dennis Avner tenha resolvido tirar a sua própria vida. Mas essa responsabilidade vocês não querem assumir e nunca irão, imagino. 

Dennis Avner dizia que encontrou fama, mas nunca fortuna. Nem fortuna e nem dignidade, nem mesmo depois de morto. 

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Nota 1: Agradecemos ao Higor Cabral por nos avisar sobre o episódio da série. 
Nota 2: Embora a nossa indignação seja enorme pelo desrespeito com a memória de Dennis Avner, a gente não se espanta tanto, pois sabemos que uma parte de nossa comunidade articula esse mesmo discurso vil, essa mesma lógica de validar alguns corpos e invalidar outros. No fundo a gente não se livrou muito da mentalidade do circo dos horrores, adoramos ter as pessoas com muitas modificações corporais nas grandes convenções de tatuagem e capas de revista (porque vende e chama público), mas não olhamos para essas pessoas com humanidade e nem depois que elas morrem. Se isso acontece dentro da nossa própria comunidade, o que esperar do que vem de fora? 

 

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