Os velhos preconceitos sobre a tatuagem de novo…

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Confesso que nos últimos anos eu cheguei a acreditar que todos os preconceitos sobre as pessoas tatuadas haviam por fim acabado. Sabe quando se respira aliviado até? Pois é. Mas ao que me parece tudo não passou de uma doce e curta ilusão. Sem querer soar fatalista ou pessimista… São os fatos da situação atual.
Apesar do preconceito sobre a tatuagem ter sofrido uma evidente e inegável redução, ele existe e está circulando livremente agora mesmo e pior, dando mostra de querer se fortalecer. No Fórum que aconteceu ano passado sobre a modificação corporal na atualidade, eu já havia apontado para o quanto a sociedade estava se tornando mais conservadora e o impacto de todo esse conservadorismo dentro da comunidade body mods. Os acontecimentos que irei expor logo abaixo vão endossar esse pensamento e acho que serve como um alerta do rumo em que a sociedade contemporânea está seguindo. Veja bem, não se trata apenas de uma mera discussão sobre tatuagens, mas sim sobre opressores, liberdade e autonomia de ser.

Recentemente tivemos o infeliz episódio com o novo diretor do Procon e suplente de vereador em Goiânia, o senhor Miguel  Tiago (PT), em que fez afirmações demasiadamente preconceituosa sobre os tatuados. Após passar por uma situação de assalto em que ficou rendido por bandidos, Miguel Tiago utilizou as redes sociais para afirmar que “tatuagem e bandidagem estão associados. Pode haver exceção. Mas é EXCEÇÃO!!! ”. (sic)
Visto a falha e o quanto a polêmica se alastrou, tão logo o senhor suplente de vereador se retratou. Desabafo feito, a opinião foi posta, as desculpas não nos convenceram.

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Acha que acabou por aqui? Antes fosse.
A Polícia Militar da Bahia lançou a cartilha “Tatuagens: desvendando segredos”, realizada pelo tenente PM Alden. O material que vem sendo bastante utilizado pelos militares busca especificar o significado e as relações que as tatuagens podem ter com a criminalidade. Basicamente se coloca um desenho e se descreve os tipos de relações, tipo:
“Carpa – Passagens por tráfico de drogas e formação de quadrilha. A carpa subindo indica a posição de status como um gerente (posição conquistada por mérito).”

Perceba, aqui o primeiro problema que já seria suficiente para a perda completa de credibilidade do material. As tatuagens expostas (ou quase todas) são aquelas que são chamadas de comerciais pelos tatuadores, ou seja, as que mais vendem: carpas, caveiras, palhaços, anjos, etc… Tão logo, é óbvio que esses desenhos estejam mais presentes em corpos de criminosos, mas não só deles, atletas, artistas, modelos, padeiros, músicos, professores, desempregados, médicos, aposentados e inúmeros cidadãos também gostam desse temas.  Cabe pontuar que é sabido que hajam as tatuagens mais específicas de facções criminosas ou aquelas que demarcam os crimes cometidos, mas é preciso cautela no manuseio dessas informações e em como são difundidas.

Nosso primeiro pensamento foi o de como se gasta dinheiro e tempo para produção de algo do tipo, ainda mais dentro da polícia militar, que como sabemos passa por diversos problemas, inclusive com baixo salário. Não queria julgar o livro pela capa e fui ler a apostila que está disponível para download. Fica claro que o autor se preocupou em não perpetuar um preconceito e mencionou que não é o objetivo do livro, mas…
Já o restante do conteúdo são de desenhos comuns – como eu disse, comerciais – e seus significados. Correto dizer: os significados colocados sobre as tatuagens, seja pelo tatuado, seja pelo autor, seja pelo policial que fez a prisão. Bem, é impossível um material desse não cair no âmbito do preconceito disfarçado de utilidade pública.

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Consultamos também uma entrevista com o tenente PM Alden que fala sobre a cartilha e de fato se percebe que houve uma pesquisa e que ele entende do que fala. Mas da forma que tudo se coloca, nos remeteu aos estudos de Lombroso, que segundo sua teoria – influenciado pela frenologia – era possível antever os sujeitos que se voltariam para o crime com base em uma análise de determinadas características somáticas. Olha o grau do retrocesso.
Esse tipo de pensamento foi uma das bases da eugenia, isto é, seleção dos melhores para purificação da raça. Os efeitos disso o nazismo já se cumpriu de nos mostrar.

Dito tudo isso, a cartilha criada e difundida pela Polícia Militar da Bahia se põe mais como uma arma contra a segurança pública do que como proteçãoao cidadão comum e tatuado. Para quem desacredita dessa afirmação faz importante mencionar que no dia oito de dezembro de 2012, um policial militar em São Paulo torturou e queimou um jovem de dezenove anos. O rapaz apresentou novos depoimentos ontem, um deles é o de que o policial ameaçou cortar a perna do jovem ao ver sua tatuagem. Por fim jogou gasolina na cabeça do jovem e ateou fogo, queimando 60% do corpo dele. O caso está em processo de investigação com base nas novas informações apresentadas.

Bem, parece que a polícia militar precisa de um outro tipo de cartilha, talvez nem criar uma nova, quem sabe ler a Declaração Universal dos Direitos Humanos fosse um bom começo.

Uma hora a gente cansa de andar pra trás.

Fontes
Tatuagem: desvendando segredos
https://sites.google.com/site/abordagemlivros/tatuagem_desvendando_segredos.pdf

Entrevista tenente PMBA Alden – Cartilha sobre tatuagem e crime
http://abordagempolicial.com/2012/05/entrevista-tenente-pmba-alden-cartilha-sobre-tatuagem-e-crime/
Pessoas tatuadas são bandidas, só algumas são exceções
http://www.tattootatuagem.com.br/noticias/6200/pessoas-tatuadas-sao-bandidas-so-algumas-sao-excecoes/
Polícia decide apurar de novo caso de jovem queimado na Zona Sul
http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2013/01/policia-decide-apurar-de-novo-caso-de-jovem-queimado-na-zona-sul.html

Declaração Universal dos Direitos Humanos
http://portal.mj.gov.br/sedh/ct/legis_intern/ddh_bib_inter_universal.htm

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1 thought on “Os velhos preconceitos sobre a tatuagem de novo…

  1. Bom vamos lá, concordo com o que foi escrito so que se você leu a cartilha, la fala que as tatuagens sao de presos – condenados pela justiça – com isso o pm so ligou os fatos, viu quem tinha tatuagem e viu o seu artigo. No seu texto da a entender de outra forma. Penso que se ele fez para ajudar, lembrando que ele é da Bahia, rejeito a ideia de ser usada em outros estados, ja que a mesma esta incompleta. Pois em SP para algumas tatuagens tem outro significado.
    A midia – terta.com e r7.com – vem passando a noticia dessa cartilha em redes socias, e la vejo que a populaçao de outros estados estao associando as tatuagens, e voltando com aquele preconceito, contra quem tem tatuagem

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