Precisamos falar sobre tatuagens em animais (mais uma vez)

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Foto: reprodução / Facebook

“Ter o direito de fazer uma coisa não é, em absoluto, estar certo em fazê-la.”
G. K. Chesterton em  A Short History of England (1917)

“Pensei mais de uma vez que, quando se trata de animais, todo homem é um nazista.”
Isaac Bashevis Singer

Precisamos falar sobre tatuagens em animais mais uma vez e quantas vezes outras forem necessárias. Recentemente mais um caso de tatuagens em animais explodiu nas redes sociais, dessa vez as fotos divulgadas eram de gatos. As imagens mostravam gatos sendo tatuados com o nome e telefone de seus responsáveis. Letras grandes, há de se dizer. 

O caso, por sua vez, não é novo,  em 15 de Março de 2018, o Programa Balanço Geral da Rede Record exibida a matéria Veterinária faz tatuagem em cães para ajudar a identificar o dono. A notícia foi apresentada como uma espécie de boa ação, uma ideia que busca ajudar os donos que perdem os animais. Exibida sem nenhuma ponderação, contraponto e sem nenhum questionamento crítico. 

A jornalista diz que na clínica da veterinária Sabrina Manzoli em Franca, interior de São Paulo, se realizam mais de 100 procedimentos por mês. A justificativa é que se o animal desaparece, outra pessoa pode localizar o responsável através da marcação na orelha. Nas palavras da veterinária, a coleira com identificação pode cair, então é mais seguro que a marcação fique na pele do animal de forma indelével. Uma protetora, que participa da matéria, diz que cuida de 30 animais e que todos eles são tatuados com um número. Exibe uma foto no celular onde mostra o número do animal. A imagem nos causa um alto grau de desconforto pela associação que fazemos com a marcação numeral com tatuagem feita nos judeus nos campos de concentração nazistas. 

Nas últimas semanas quando o caso teve grande e negativa repercussão nas redes sociais, a veterinária lançou uma nota de esclarecimento reafirmando que faz, que vai continuar fazendo o procedimento, que é uma prática comum, e que está amparada pelo Conselho Regional de Medicina Veterinária. Reafirma que as coleiras são fáceis de perder e que os microchips são caros.

Alguns pontos precisam ser esclarecidos e muitas questões surgem tanto com a prática quanto pelo discurso que a acompanha.  De onde vem essa facilidade em se perder animais e coleiras? Não seria mais apropriado investirmos em educação, ensinando práticas de segurança e responsabilidade na relação dos responsáveis com os animais? Quando os pelos dos animais crescerem como se localizar a tatuagem? Como se adivinha que existe uma tatuagem? Quanto custa um procedimento como esse? Será mesmo que os microchips não seriam mais eficientes e seguros, considerando aqui o bem estar dos animais? Até que ponto essa prática não abre brecha para que no futuro se façam tatuagens estéticas em animais? Quem lucra com tudo isso? E os animais? E os animais?

Vamos falar agora  da tatuagem. Quando nós humanos escolhemos nos tatuar passamos pela dor do procedimento e pela dor posterior ao procedimento. Precisamos cuidar da tatuagem com pomadas, cremes e higienização diária. Tudo isso para evitar uma inflamação da área tatuada. A imunidade de algumas pessoas baixam durante esse processo, outras têm febre, dores no corpo e ínguas.  Algumas pessoas usam analgésicos para matar a dor e desconforto. E se alguma coisa começa a dar errado – e muitas tatuagens dão errado -, rapidamente podemos identificar, comunicar e buscar ajuda especializada. 

Pensando agora a tatuagem em animais. Primeiro ponto que precisa ser considerado: um animal não escolhe se tatuar. Tatuagem sem consentimento nos soa bem errado. E embora no caso aqui citado, exista a anestesia atrelada ao procedimento da castração, existe a dor depois do procedimento. Existe a chance da inflamação. Exige a necessidade dos cuidados e higienização que um animal não tem condição alguma de realizar sozinho. E se alguma coisa começa a dar errado – e repito, muitas tatuagens dão errado -, um animal não pode identificar, nem comunicar e tão pouco pedir ajuda especializada. 

Fim ao cabo, a tatuagem – especificamente aqui, ainda que não esteja dentro do campo da estética – me parece mais um capricho humano, do que uma proteção real e efetiva para os animais. Considerando ainda que a maior parte da população não sabe que existe essa prática de procurar marcas nos animais para localizar os respectivos responsáveis. Considerando ainda que números de telefone mudam com bastante frequência e a tatuagem com o tempo pode se tornar um grande número sem sentido. Considerando ainda que existem outras maneiras que – assim como a tatuagem – não garantem 100% de eficácia, mas respeitam mais os direitos dos animais. Ou ainda recursos que poderiam ser aprimorados para atender essa demanda. Acreditamos que outros caminhos possam ser traçados, mas a gente precisa primeiro querer e largar de mão a vaidade especista. 

Existe uma frase que diz que “o errado é errado mesmo que todo mundo esteja fazendo” e acredito que ela se aplique muito bem a toda situação. Esperamos que profissionais da medicina veterinária proponham práticas que não violem os direitos dos animais, que não criem riscos desnecessários e que ofereçam segurança real e eficiente. O resto é engodo. 

 

 

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