Revisitando os meninos de olhos preto

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3boys                                                      (Welton, Anami e Diego conversaram novamente conosco)

Em outubro de 2012 tivemos os primeiros registros do eyeball tattooing no Brasil, feitos por duas vias. Ambos em diferentes pontos de São Paulo, de um lado havia um body modifier brasileiro fazendo o primeiro olho e do outro, o modifier venezuelano, Emilio Gonzalez, fazendo os olhos de três pessoas. Vamos nos concentrar agora no segundo caso.

Na ocasião – há quase dois anos -, entrevistamos os três meninos e você pode conferir esse material CLICANDO AQUI. Fomos ao encontro deles novamente e trazemos uma nova entrevista para ver qual a situação deles hoje. Antes disso queremos tocar em alguns pontos e faremos isso daqui em diante.

Naquele mesmo momento fizemos uma série de reflexões e queremos discorrer brevemente sobre elas. Questionávamos se a propagação do eyeball tattooing seria similar ao procedimento denominado tongue splitting (bifuração da língua). Sim, a propagação e popularização é bastante similar. A diferença maior é a aceitação dentro da própria comunidade, o que já havíamos pontuado. O tongue splitting teve sua parcela de rejeição e por motivos igualmente similares, isto é, por conta de riscos, possível arrependimento, qualidade técnica, ética profissional. No entanto, se tratando do tongue splitting, talvez por naquele momento (década de 90) não haver a cultura das redes sociais no Brasil, a rejeição parecia menor. Menor, mas existente e que fique claro isso.

Também afirmamos que a chegada do eyeball tattooing no Brasil gerou um sério problema de aceitação, dentro da própria comunidade da modificação do corpo. Como escrevemos durante esse tempo, esse problema se potencializou em níveis nunca imaginados por nós. Por mais curioso que seja, essa resistência em aceitar o procedimento não é por conta de nenhum dano sério ocasionado pelo procedimento, a exemplo de cegueira, que tanto se falou (e ainda se fala). Até o presente momento não existe nenhum registro com fonte segura de alguém que tenha ficado cego por conta do eyeball tattooing. O que vemos circulando são rumores e aquilo que chamaremos de terrorismo psicológico para tentar frear o procedimento. Que entendemos como uma reação de defesa e que não teria grandes problemas, se isso não se desdobrasse em um projeto de lei que pretende tornar crime o procedimento.

Em resumo. O procedimento oferece risco? Sim. O procedimento tem histórico de erros? Sim. O procedimento tem pouco estudo? Sim. As pessoas vão parar de fazer o eyeball tattooing se o projeto de lei for aprovado? Não. Esse é o ponto que precisamos nos atentar, ou seja, com lei ou sem lei as pessoas vão colorir os seus olhos. Se realmente estamos preocupados com a segurança e saúde das pessoas, como o discurso se mostra, criminalizar vai interromper toda e qualquer chance de que o procedimento se torne, algum dia, mais seguro. Caso a lei seja aprovada esqueça a ideia de receber a visita do body modifier Luna Cobra (que elaborou a técnica em parceria com Shannon Larratt). Entende o prejuízo disso para a evolução da comunidade da modificação corporal do Brasil? Aqui não trato nem somente do eyeball tattooing, pois acreditamos que o trabalho de Luna Cobra não se resuma nisso. Com lei aprovada Luna Cobra será considerado criminoso em nosso país.

Acreditamos que assim como a tatuagem precisou de tempo para sua evolução. Assim como o body piercing precisou de tempo para seu aprimoramento. O eyebal tattooing precisa de tempo, empenho, dedicação e pesquisa para que os riscos sejam minimizados. Enxergamos nesse caminho a verdadeira possibilidade de que exista algum tipo de segurança. A criminalização não sana o problema.

Entendemos que existe uma preocupação, que realmente precisa e deve existir, mas temos a impressão que o que acontece hoje é outra coisa. Já em Outubro de 2012 tocamos no ponto que a discussão em torno do eyeball tattooing rondava um campo demasiadamente pessoal. O que é um problema sério e demonstra – entre tantas coisas – imaturidade. Será que o problema que temos é realmente o eyeball tattooing? Desconfiamos que não.

A nossa posição não se trata de fazer apologia para que todas as pessoas façam o eyeball tattooing, muito pelo contrário, a nossa recomendação é para que as pessoas não façam o procedimento. No entanto, não podemos fazer da nossa posição uma imposição. Se as pessoas querem enfrentar os riscos todos, se elas querem ter o eyeball tattooing, se elas querem estudar o procedimento para aprimorá-lo, defendemos esse direito delas. A maioria das modificações corporais dentro do nosso recorte carregam isso em suas raízes. Elas um dia precisaram ser experimentais, para que hoje tivessem seus riscos minimizados. Perceba que falamos em minimizar e não em extinguir os riscos. Ao lidar com um corpo vivo, seja lá qual for o procedimento, haverá sempre algum tipo de risco.

Confira abaixo a entrevista exclusiva com os primeiros meninos que tiverem os olhos pigmentados no Brasil. Optamos em fazer as questões de maneira bastante didática, para tentar ao máximo que esse material tenha um potencial educativo. Pode ser que em algum momento soe primário demais, mas se é esse o nível que nos encontramos, é assim que precisa ser.

T. Angel: Há quase dois anos depois de realizar o eyeball tattooing, como está a sua saúde ocular?
Alexandre Anami: Estão ótimos, sem reação alguma.
Diego Morais: Perfeitaaaaaa, sem nenhum problemaaaa!
Welton Luiz Da Silva: Ótima!

 

T. Angel:  Algum de vocês “retocaram” o procedimento? Se sim, por quê?
Alexandre Anami: Não.
Diego Morais: Não retoquei e nem pretendo, estou satisfeito com a estética.
Welton Luiz Da Silva: Sim, eu fiquei com uma pequena falha, decidi retocar para ficar totalmente preto.

T. Angel: Em algum momento tiveram algum problema leve ou grave por conta do eyeball tattooing?
Alexandre Anami: Até o momento nenhum.
Diego Morais: Sò uma dor de cabeça terrível no primeiro dia.
Welton Luiz Da Silva: Sim, eu tive nesse retoque. Me movimentei na aplicação e machucou muito. Depois de dois dia inflamou, busquei um médico especialista e tratei com colírio. Fiz 3 meses de acompanhamento e deu tudo ok.

T. Angel: Fala-se muito de uma super sensibilidade à luz, algum de vocês passam por isso?
Alexandre Anami: Sim, como eu já estava ciente que a sensibilidade se da pelo fato do olho estar na coloração preta. Já que preto retém calor, e por isso da sensibilidade.
Diego Morais: Tive sensibilidade só uns 3 dias.
Welton Luiz Da Silva: Mudou nada, normal. E se mudou, pode ser que o corpo se adaptou.

T. Angel: Fala-se também sobre pessoas que pigmentaram os olhos e lacrimejam sem parar, com vocês acontece isso?
Alexandre Anami: Estou normal.
Diego Morais: NÃO! Lacrimejo normal, só quando forço a vista.
Welton Luiz Da Silva: Não!!!!

T. Angel: Passaram por alguma consulta no oftalmologista? Se sim, quando e como foi?
Alexandre Anami:100% ok
Diego Morais: Só passei por uma consulta. A retina foi examinada, a pressão ocular estava ótima. O oftalmologista só me indicou um colírio lubrificante. Ainda bem que a pressão voltou ao normal. Medo de ficar com dores de cabeça o resto da vida. – risos
Welton Luiz Da Silva: Sim.

T. Angel: Sentem que a visão foi prejudicada por conta do procedimento?
Alexandre Anami: Não.
Diego Morais: Não, não. Eu já nasci com a visão podre! – risos
Uso óculos desde criancinha
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Welton Luiz Da Silva: Não.

T. Angel:  As pessoas que são contra a prática do eyeball tattooing no Brasil, em sua maioria, alegam que quem fez procedimento está ficando cego. Vocês estão ficando cegos?
Alexandre Anami: Não.
Diego Morais: Essas pessoas não tem um pingo de informação, minha visão está ótima e continuará assim!
Welton Luiz Da Silva: Meu cão guia esta digitando pra mim, senhor.

T. Angel:  Vocês se arrependeram em algum momento de ter realizado o procedimento?
Alexandre Anami: Não.
Diego Morais: Jamais! Refleti tanto pra realizar esse procedimento, estou sem nenhum peso na consciência.
Welton Luiz Da Silva: Eu não, porque depois de um ano retoquei.

T. Angel:  Vocês são contra o projeto de lei que pretende tornar crime o eyeball tattooing no Brasil?
Alexandre Anami: Sim.
Diego Morais: CONTRAAAAAAAAAAAAAAAAA!!!!! Tantas coisas para darem prioridade e acho suuuuuuuuuuuuper válida essas manifestações que tu promoveu T..
Welton Luiz Da Silva: Sou contra, mas nem tem como controlar o ato.

T. Angel:  Qual a posição de vocês diante das críticas e manifestações de pessoas da comunidade da modificação do corpo, que querem que o procedimento seja banido e se torne crime¿
Alexandre Anami: Será um retrocesso, fazendo com que seja feito de maneira desorganizada e pior de como está!
Diego Morais: Na verdade ainda estou tentando entender as pesssoas do meio da modificação corporal (BME) que crucifificam o eyeball. É tanto nego querendo ser politicamente correto que acaba tropeçando no próprio pé. ENTENDAM: a bodymod nunca vai ser vendida em televisão, revistas de moda e nem em hospitais luxuosos. Só a gente, piercers/modifers, tem o poder de mudar essa imagem, afinal atuamos constantemente na área. Por que envolver terceiros que não tem nada a ver com o assunto? Continuarei com asco de me envolver com os ”ditadores” da bodymod.
Welton Luiz Da Silva: Alguém já morreu pra ser crime? Crime tá aí na rua. Vão caçar o que fazer, lava louça, sei lá, dar o cu.

 

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About T. Angel

No cenário da modificação corporal brasileiro desde 1997, inicialmente como entusiasta e posteriormente atuando no campo da pesquisa. Parte de seu trabalho está incluso no livro "A Modificação Corporal no Brasil - 1980-1990" e grande parte depositada aqui no FRRRKguys.com.br.