Uma conversa com Felipe Campos sobre os seus dez anos de profissão

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Fotos: Arquivo pessoal de Felipe Campos
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Felipe Campos é um body piercer brasileiro que atua em São Paulo. Em 2015 o profissional da perfuração do corpo completa dez anos de carreira. Foi em fevereiro de 2005 que recebeu o seu primeiro diploma, ele conta em sua biografia que:

“Foram meses de aprendizado, achando que nunca conseguiria. Como eu tremia, tadinho dos meus mestres. A partir daí tudo começou a fazer sentido, era exatamente isso que queria fazer para o resto da minha vida.”

O primeiro emprego de Felipe Campos e onde permanece trabalhando como piercer foi na Klash Tattoo, que se tornou sua casa. Conversamos com ele para saber um pouco mais sobre a sua experiência e história e compartilhamos com vocês nessa entrevista exclusiva.

Deixamos aqui publicamente o nosso agradecimento ao Felipe pela atenção e carinho em nos receber para essa entrevista e muitos parabéns pelos 10 anos de profissão. Boa leitura!

 

 

T. Angel: Conta para gente como começou o seu interesse pelas modificações corporais e quando você iniciou profissionalmente como piercer?
Felipe Campos: Meu interesse na profissão começou de muito moleque ainda, quando tinha uns 15 anos. Meu tio trabalha com piercing e eu vivia no estúdio dele, depois que saia da escola passava algumas tardes por lá, me sentia à vontade naquele ambiente, não demorou muito pra eu passar pro outro lado do balcão.

T. Angel: Sabemos que existe um preconceito muito forte sobre as modificações corporais, inclusive dentro da própria instituição familiar tradicional. No entanto, em seu caso em particular, a sua família é bastante envolvida com a cena nacional. O que você pode nos dizer sobre isso?
Felipe Campos: Penso que preconceito é muito forte, prefiro falta de informação. Mas de uma maneira bem menor isso também aconteceu comigo, quando você decide trabalhar com tatuagens o medo dos familiares é que você se torne fisicamente um monstro, isso acontece inicialmente nada que um pouco de conversa e troca de informação para resolver, no meu caso. Tenho uma família que sempre me deu muito apoio, que hoje também se interessa por essa área e agora trabalhamos juntos.

314714_266303196724748_496798742_n(Felipe em foto com seu pai, Lobo)

T. Angel: O que você considera importante para uma pessoa se tornar um bom piercer?
Felipe Campos: Ela tem que saber o que quer realmente, lidar com pessoas não é fácil, lidar com pessoas sentindo dor. risos Um pouco mais difícil. Mas acho que quando você se preocupa com o que vai fazer ao seu cliente, você acaba querendo fazer sempre o melhor possível e agindo da maneira correta e isso faz a diferença

T. Angel: Qual foi o seu percurso de formação como profissional do piercing?
Felipe Campos: Vou ter que dar uma resumida, eu considero meu percurso desde meu primeiro piercing, o que foi colocado em mim no caso. Depois disso tudo me fez aprender algo, isso até hoje, tive muitos professores a quem sou muito grato por todas as informações. broncas, estadias, conversas, conselhos, almoços e por aí vai. Tenho como objetivo pessoal todo ano participar de algum curso, workshop ou palestra pra sempre renovar e aprender novas técnicas, foi assim desde que comecei. Isso me dá a oportunidade de conhecer novos profissionais também. Carrego comigo alguns certificados  e diplomas  de tudo isso. Passei por um bocado de coisas que me fizeram crescer muito e me orgulho de não ter inimigos profissionalmente.

61790_1604461558007_2982948_n(Felipe Campos e Victor Peralta na Argentina)

T. Angel: Em 10 anos de profissão, quais são as mudanças mais significantes que você percebe no meio? Cite as mais significantes, tanto do lado positivo como negativo, caso houver.
Felipe Campos: Umas das maiores mudanças positivas foi a forma com que as pessoas passaram a buscar
nosso serviço. Hoje em dia entrar em um estúdio é fácil pois é frequentado por todas as pessoas, antes acho que tinha um certo medo do que encontrariam, sei lá. Acho que medo dos caras todos tatuados. E me alegro por não ter mais isso. O lado negativo eu colocaria a fama prematura que se vem buscando até meio que sem noção, devemos tentar lembrar que um piercing bem colocado e curado é mais importante que algo somente ‘’bonito’’.

T. Angel: Além do body piercing você trabalha com outras técnicas de modificação do corpo?
Felipe Campos: Amo fazer minhas perfurações consideradas simples, mas durante esse tempo foi impossível eu ficar só nelas, me envolvi e me interessei por outras técnicas e tive o prazer de trabalhar e ser aprendiz de pessoas que fazem todo os tipos de modificações. Com isto fui obtendo conhecimento suficiente pra escolher o que queria fazer com segurança além dos piercings. Entre esses trabalhos já realizei suspensões, implantes, bifurcações escarificações, um branding, reconstruções, um eyeball,rituais, freak shows. Hoje em dia gosto muito de fazer reconstruções de lóbulos.

200621_170576146328492_4182255_n(suspensão corporal realizada por Felipe Campos)

T. Angel: O que pensa sobre as técnicas que vão além do piercing e da tatuagem?
Felipe Campos: Sou um pouco rígido em relação à isso, é preciso ter segurança do que está fazendo, sempre lembro do poder que temos de mudar a vida de alguém através do nosso trabalho. Acho que paciência é muito necessária pra realizar esses procedimentos. Acho muito legal quando alguém faz algo sabendo dessa responsabilidade.

132570_161377550575952_2146933_o(procedimento de tongue splitting auxiliado por Felipe Campos)

T. Angel: Qual a sua visão sobre o espaço dedicado ao piercing dentro das convenções de tatuagem no Brasil?
Felipe Campos: Acredito que o melhor espaço que poderiam nos dar são palestras. Temos que lembrar que nessas convenções estão reunidos muitos piercers brasileiros e até gringos, então acho que seria interessante aproveitar isso. Um prêmio dado é visto como reconhecimento individual, acho que precisamos de reconhecimento coletivo dos profissionais, palestras, debates, workshops iriam fazer isso. Um espaço nesse sentido.

T. Angel: Sobre as associações, gostaríamos de saber sua opinião sobre essas instituições e se você é filiado com alguma. Se sim, qual? Se não, por quê?
Felipe Campos: Não sou filiado com nenhuma associação, acho até interessante, mas imagino que representar uma classe inteira de profissionais deve ser bem difícil. Acredito que pra você entrar em algo que não depende só de você tem que ter muita certeza de que aquilo vai te representar de forma positiva, de maneira séria. Não vejo como assinar um papel e pronto. Pra deixar bem claro, pago um pau pra quem vai nos encontros da APP. risos

T. Angel: Falando especificamente sobre o seu próprio corpo, quais as técnicas que você já fez? Quais as modificações corporais que você tem hoje?
Felipe Campos: Tenho algumas modificações, me considero  medroso, mas encarei algumas. Além de piercings e tattoos, tenho alargadores, implantes de silicone e magnético, tenho algumas marcas de suspensões e brincadeiras com ganchos. Uma das últimas coisas que fiz foi uma tatuagem feita através de bambu, que foi bem significativa pra mim por todasa história que sabemos ter essa técnica.

59821_133854893328218_602481_n(Orelha alargada e implante subdermal no corpo de Felipe)

11084308_793303794049988_1136339906110877637_n(Procedimento de tatuagem com bambu)

T. Angel: Qual a sua relação com a suspensão corporal?
Felipe Campos: Como espectador admiro muito, vejo como um ritual que além de beleza, quando bem feito, consigo ver o quanto é satisfatório a superação da dor, a coragem, a resistência e o prazer encontrado. Como perfurador, realizador, gosto muito de saber que o que estou fazendo ali era feito há tantos anos e que até hoje acontece e eu estou fazendo parte dessa história. Como suspenso quero agradecer a todas as pessoas que tiveram paciência comigo. risos
Na minha primeira vez suspenso cheguei a quase desmaiar de nervoso e medo, foi pelas costas, chamada de suicide. Quando consegui  subir, tudo no meu tempo, a sensação foi incrível, me senti forte e realizado. Como dizem algumas tribos indígenas,  mais preparado pra encarar algumas batalhas mais difíceis.

T. Angel: Quais seriam as suas principais referências e influências?
Felipe Campos: Pergunta muito difícil, porque se eu for citar nomes vou esquecer de um monte de pessoas importantes. Mas posso dizer que trabalhei com muitos de meus ídolos nacionais e internacionais e com pessoas que se tornaram meus ídolos depois de termos trabalhados juntos, posso responder essa pergunta agradecendo a todos que durante todo meu tempo de profissão acabei me envolvendo. Obrigado à você profissional que está lendo e que lembra que realizamos algum tipo de procedimento juntos, quero que saiba que lembro de todos com carinho.

29893_100676019979439_6184766_n(Rata, Felipe Campos, Lukas Zpira e Andre Fernandes)

T. Angel: Recentemente você fez uma viagem ao Oriente, quais são as suas percepções sobre a cultura do corpo daquelas populações?
Felipe Campos: Sim, minha viagem foi maravilhosa nesse sentido também. Poder ver o quanto a modificação corporal é encarada de forma importante pra todas aquelas culturas me fez muito feliz. Tive a felicidade de conversar  com um historiador indiano especializado em joias, foi algo que não esperava na minha vida, ele me deu a noção do quanto uma simples perfuração de orelha pra nós, pode ser muito importante em uma tribo, envolve muito mais do que imaginamos. Em Myanmar pude ver de perto as mulheres girafas que possuem aqueles anéis no pescoço, uma das modificações corporais mais conhecidas no mundo.  Vi tambem na Tailândia aqueles maoris feitos no bambu seguindo uma tradição milenar.

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T. Angel: Deixe uma mensagem para as pessoas que pretendem atuar profissional como piercer.
Felipe Campos: Um bom profissional precisa entender a importância que envolve tudo o que fazemos, ralar muito e querer evoluir e aprender sempre. Amo o que eu faço, trabalho com pessoas que chamo de família e considero meu estúdio como minha primeira casa. Eu acordo todos os dias com vontade de vir trabalhar, então só posso te falar uma coisa seja um piercer. Sinto orgulho de tudo isso

CONTATO
https://www.facebook.com/klashsuzano

FONTE
http://frrrk.wikia.com/wiki/Felipe_Campos

 

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About T. Angel

No cenário da modificação corporal brasileiro desde 1997, inicialmente como entusiasta e posteriormente atuando no campo da pesquisa. Parte de seu trabalho está incluso no livro "A Modificação Corporal no Brasil - 1980-1990" e grande parte depositada aqui no FRRRKguys.com.br.