Uma conversa com o psicólogo Roland de Oliveira sobre corpos dissidentes, suicídio e saúde mental

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“Psicologia só se faz com empatia e compreensão das jornadas alheias”, diz Roland. Foto: divulgação

As taxas de suicídio ao redor do mundo têm caído, mas crescido no Brasil, conforme pesquisa realizada pela Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP, publicada na Revista Brasileira de Psiquiatria e na Current Opinion in Psychiatry em 2019. Foram utilizados dados do SUS (Sistema Único de Saúde), do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e do Coeficiente Gini (que mede desigualdade) para chegar às conclusões. O recorte da pesquisa é de 2006 e 2015.

Diversos estudos e pesquisas apontam que a vulnerabilidade de grupos de pessoas é um dos fatores determinantes. No caso brasileiro, por exemplo, a desigualdade social e o desemprego são fatores marcantes. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), o Brasil está em oitavo dentre os países com maior taxa de suicídio.

Para entendemos um pouco mais sobre a questão do suicídio e também para falarmos sobre saúde mental (precisamos!), com foco nos corpos dissidentes, conversamos com Roland de Oliveira Neca, psicólogo junguiano e terapeuta corporal. Aproveitamos para falar também da experiência de Roland enquanto uma pessoa modificada e o mercado de trabalho. É uma daquelas conversas que precisamos ter ou como o próprio disse na entrevista, insistir nos diálogos.

O profissional além de prestar atendimento na área da psicológia, tem atuado como palestrante e convidado especialista em webséries, com destaque o Transgente do Canal Brasil (2019) e Sauntering (2017) do FRRRKguys.

Confira abaixo a nossa – importante e especial – conversa.

FRRRKguys: Você é passou por algumas modificações corporais e trabalha no campo da psicologia. Como é carregar esse marcador social e trabalhar como psicólogo?
Roland de Oliveira Neca: Olha, o meu começo de carreira foi bem marcado pelo conflito “ser uma pessoa modificada” versus “ser psicólogo”. A mensagem que me era constantemente passada era a de escolha, ou uma coisa, ou outra. Poxa, mas eu sempre soube que queria ambas, desde tão pequeno! E era uma mensagem algumas vezes direta e muitas vezes indiretas. Professores e professoras falavam sobre a importância de um visual “sóbrio”, que não “distraísse” o foco na clínica e que não tivesse nada “tão diferente”. A mensagem direta era essa, culminando com um “você sabe que vai ter que mudar esse cabelo quando começar a atender fora, né?” que ouvi no quarto ano de faculdade, quando tinha um cabelo longo e vermelhão. Indiretamente eu não tinha referência alguma de colegas de carreira com modificações corporais, no máximo as tais das “tatuagens discretas”, sabe? Então eu fui internalizando que ser psicólogo era aquilo, aquela figura extremamente neutra visualmente e não, sabe? A neutralidade na psicologia é sobre acolher as subjetividades alheias de uma forma não repressiva, autoritária ou julgadora. Carregar esse marcador foi um problema no início, mas ao quebrar a casca acadêmica e me lançar mais em minha atuação me fizeram perceber que eu posso ser sim quem sou. Eu devo ser quem sou, porque esse é nosso dever.

FRRRKguys: Em algum momento as modificações corporais foram um problema em sua carreira profissional?
Roland: Nesse começo foi sim, eu me angustiava na dúvida, nessa coisa de ter que escolher uma coisa ou outra. O acordo pessoal que fiz foi de fazer as tais famigeradas “tatuagens discretas” (sabe? As que são consideradas pequenas, em lugares que se cobre com roupa, de temática mais neutra) e estava indo bem. Trabalhei um bom tempo em hospitais e centros de acolhida para população de rua, então vivia de calça e jaleco. Foi em uma aula da pós-graduação em psicologia junguiana que do nada me deu o estalo de que eu não poderia trabalhar com um espaço de espontaneidade corporal sendo que eu mesmo não era espontâneo com meu próprio corpo. No fim de semana seguinte fui ao flashday de uma amiga tatuadora e fiz duas nos braços, foi tão libertador. Aprendi a reverter aquilo que a sociedade posiciona como estigma em força própria. Hoje recebo pacientes que pressupõe pelo meu visual que eu não os julgarei naqueles sentidos mais tacanhos de “modificações corporais são coisas de quem quer se aparecer” ou “são mutilações feitas por um desejo inconsciente” e blablabla.

“Aprendi a reverter aquilo que a sociedade posiciona como estigma em força própria”, diz Roland sobre sua experiência com as modificações corporais. Foto: divulgação

FRRRKguys: Falando sobre modificações corporais, por quais técnicas você passou e o que mais pretende fazer?
Roland: Tenho tatuagens e piercings, estou a caminho de bifurcar a língua, escarificar e colocar alguns microdermais. Ah, e também suspender.

FRRRKguys: Sabemos que existe uma tentativa de se patologizar todos os corpos e subjetividades que escapam das normatividades do discurso dominante. Como você enxerga essa questão?
Roland: Enxergo que não deveria existir. risos
Não há psicologia sem o desdobrar legítimo a outras vivências e corpos que não sejam semelhantes às suas vivências e corpos. Psicologia só se faz com empatia e compreensão das jornadas alheias.

Roland insiste que o diálogo é fundamental para nos ajudar com a saúde mental. Foto: divulgação

FRRRKguys: Hoje falamos muito sobre as identidades das pessoas trans não binárias, mas nos parece que é um grupo que ainda sofre com preconceito dentro da própria comunidade LGBTQ+. Como podemos melhorar nesse sentido?
Roland: Não há nada mais potente do que a comunicação. Sente com uma pessoa NB, pergunte sobre sua história, suas vivências, dificuldades, como é sua vida… Dialogue. Saia do “eu acho que”. Logicamente, caso a pessoa NB em questão queira conversar sobre isso, afinal, nada mais chato do que demandar de uma pessoa trans que sua história de vida seja contada e debatida assim, do nada. Ninguém tem obrigação de ser “wikipedia trans” caso assim não queira.

FRRRKguys: Muitas pessoas trans, lésbicas, gays e variadas sexualidades e identidades de gênero, assim como pessoas com modificações corporais já nos relataram problemas sérios quando foram buscar atendimento de profissionais da psicologia. O que podemos fazer quando nos deparamos com atendimentos desumanizadores que partem dessas e desses profissionais?
Roland: Se a pessoa tiver energia para recorrer a uma denúncia ao Conselho Regional de Psicologia, bom, é possível. Porém, mesmo nesses casos a primeira coisa a se fazer é ofertar acolhimento e escuta, porque já não basta as situações difíceis de lidar que levaram essa pessoa a buscar auxílio, agora ainda tem “mais essa para lidar”. Acolher e encaminhar para profissionais de confiança.

FRRRKguys: Sabemos que vivemos um momento de retrocessos ao redor do mundo, no Brasil há o cenário político obscuro que temos e no campo da psicologia temos profissionais que buscam o direito de operar aquilo que chamamos de “cura gay”. Como anda essa questão atualmente?
Roland: As ditas terapias de “reversão sexual” são vetadas pelo Conselho Federal de Psicologia, na resolução CFP número 001/99.

FRRRKguys: Sabemos que o cenário político brasileiro tem afetado fortemente a saúde mental de pessoas dissidentes. O que podemos fazer para criar um movimento contrário ao ódio e intolerância que rege o país hoje?
Roland: Eu vou continuar batendo na tecla do diálogo. risos
Diálogo e muita, muita atenção à saúde mental. Aceitar as limitações, entender que não se é de ferro, buscar ajuda. Também manter-se em contato com pessoas que fazem bem, vincular. Quem é de confronto mais, digamos, “ativo”, em linha de frente de debate e discussão, realizar essas tarefas sem perder de vista a busca por outros espaços para trabalhar suas fragilidades, poder “desabar”. A saúde mental de quem vive desta forma costuma sofrer baques muito constantes.

FRRRKguys: Precisamos falar de suicídio agora… É comum que exista o discurso que pessoas com modificações corporais sejam mais propensas ao suicídio, como se fosse uma etapa natural do processo. Como você entende esse tipo de pensamento?
Roland: Sabe aquele exemplo do ovo e da galinha? Pois então. Quem será que veio primeiro? Só que neste caso a resposta é mais fácil: não há nada que implique que uma pessoa modificada seja mais propensa ao suicídio e há tudo implicando que pessoas em vulnerabilidade social sejam mais propensas ao suicídio. Quem é que se sente bem com empregos negados, família torcendo o nariz, olhares jocosos e temerosos nas ruas, dificuldade em procurar um atendimento de saúde bacana porque a questão das modificações fica sempre em holofote, como o “verdadeiro problema” da pessoa sendo que muitas vezes nem ao menos isso é um problema. O preconceito, este sim, pode deixar pessoas mais propensas ao suicídio.

FRRRKguys: O suicídio também afeta fortemente a população trans. Como podemos criar estratégias para evitar que esses números sigam aumentando?
Roland: Mesmíssima coisa, sem o combate ao preconceito e ao desmantelamento de uma sociedade transfóbica não há um embate tão efetivo contra o suicídio. Trabalhar com orientação de profissionais de saúde para que realizem atendimentos de forma ética e respeitosa é essencial. Fortalecer redes de apoio, não ignorar avisos dados por memes, letras de música, encaminhamento para cuidados de saúde mental. É um trabalho duro, mas é um trabalho possível e é de urgência.

FRRRKguys: Apenas falar sobre suicídio aumenta o índice de casos?
Roland: Muito pelo contrário. Ignorar o assunto não diminui o índice de casos e deixa a experiência de passar por ideação suicida mais permeada por tabus, solidão e pouca possibilidade de ser trabalhada, elaborada e revertida.

T. Angel e Roland na gravação de Sauntering. Foto: Sauntering/divulgação

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Roland de Oliveira Neca faz atendimento em São Paulo e também atende online pessoas ao redor do mundo. Deixamos abaixo os contatos do profissional para caso você precise de atendimento.
E-mail: arquetipicamente@gmail.com
Site: www.arquetipicamente.wordpress.com
Instagram: @rolandpsi



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About FRRRK Guys

Plataforma criada em 2006 que vive, investiga e fomenta a cultura da modificação corporal e diferentes usos do corpo.