A comunidade da modificação corporal se despede do Zombie Boy

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Zombie Boy morre aos 32 anos de idade. Foto: reprodução / Instagram

“Sem imaginar um futuro possível, não há presente possível. É isso que todos nós precisamos compreender. É isso que os jovens corpos tombados estão também dizendo em seu silenciamento violento.”
Eliane Brum

 

No dia 02 de Agosto de 2018 foi encontrado o corpo de Rick Genest (conhecido como Zombie Boy) em seu apartamento, no bairro de Plateau-Mont-Royal, em Montreal, Canadá. As autoridades trabalham com a hipótese de suicídio. A morte de um dos ícones da modificação corporal aconteceu seis dias antes de seu aniversário de 33 anos.

Recordo ainda com muita força da primeira vez que vi a figura de Zombie Boy no Modblog do BMEzine em 2006. Na época Shannon Larratt escreveu que considerava que “era a mais intensa tatuagem facial que já tinha visto em termos de radicalmente transformar a interação da pessoa com o resto do mundo.” E sem dúvida alguma foi e para minha surpresa podemos considerar que essa interação foi em certa medida bastante positiva. Transformou o menino zumbi em uma estrela internacional e, principalmente, abriu portas para outras pessoas com muitas tatuagens trabalhar em diferentes setores. Empurrou um pouco mais as fronteiras de até onde podemos nos tatuar. Derrubou muitos tabus sobre os conceitos subjetivos sobre o que é o belo. E sabendo que toda estética é também política, isso tudo é muito importante. 

Rick Genest ganhou fama internacional – para além dos muros da comunidade da modificação corporal – ao trabalhar no clipe Born this way de Lady Gaga. Ainda, como modelo trabalhou para o estilista francês Thierry Mugler e chegou a ser a ser uma das figuras da Rocawear, a marca de roupa do rapper Jay-Z. A sua forte figura pode ser vista em muitas revistas importantes sobre moda e cultura como a Vogue Japão e na GQ Style do Reino Unido. Participou também de filmes como 47 Ronin da série Silent Witness.

A sua imagem foi copiada de uma forma bastante intensa e esse efeito também nunca tínhamos visto dentro e fora da comunidade da modificação corporal. As cópias se davam desde crianças que se fantasiavam em festas de dia das bruxas e se maquiavam como o Zombie Boy até grandes filmes e séries que inserem um personagem ou outro com o rosto “tatuado” em forma de zumbi, dentre eles, Dredd (2012), American Horror Story (2012) e Esquadrão Suicida (2016). Passando obviamente pela quantidade grande de pessoas ao redor do mundo que também tatuaram o próprio rosto de modo bastante similar. Rick Genest foi inegavelmente um grande influenciador. 

Após o anúncio da morte de Rick, a cantora Lady Gaga se manifestou no Twitter, dizendo:

 

“O suicídio de um amigo é mais do que devastador. Nós temos que trabalhar duro para mudar a cultura, trazer a Saúde Mental para a frente da conversa e apagar o estigma que não podemos falar sobre ela. Se você está sofrendo, ligue para um amigo ou familiar hoje. Nós temos que salvar uns aos outros. A ciência diz que demoramos 21 dias para formar um hábito, se você está sofrendo de algum problema de Saúde Mental, eu te encorajo que hoje seja o seu primeiro dia ou a continuação do trabalho que você já vem fazendo. Procure ajuda se você está em dor, e se você conhece alguém que está, o ajude também”
 

A vida é curiosa. Esses últimos dias todos eu andei pensando bastante sobre o Rico. Dias depois vi uma foto dele com a Mulher Vampiro, ambos aparentemente felizes. E a notícia de sua morte chega de uma forma amarga, dolorida… Espero de verdade que as pessoas não caiam no velho hábito de julgar que ele morreu porque era uma pessoa muito modificada. Por favor, não façam isso e respeitem a memória do menino zumbi, respeitem seus amigos e familiares. O suicídio é muito mais complexo do que isso. Tem aumentado entre adolescentes e jovens e precisamos ter claro em mente que “o presente só é possível se o futuro for possível“, recuperando as palavras de Eliane Brum no texto O suicídio dos que não viram adulto nesse mundo corroído. A grande pergunta que precisamos começar a fazer e a partir dela fazer mudanças consistentes é: o que estamos fazendo de nós?

Seguimos amargando a notícia. É mais um de nós que cai cedo demais. E eu fico aqui a pensar que nessa configuração de mundo que temos, nem depois de mortos as pessoas nos enxergam como pessoas de verdade. Novamente: o que estamos fazendo de nós? 

Descanse em paz, Rick. Obrigada por todas as contribuições que você trouxe para a nossa comunidade pelo simples fato de ter existido. Receba amor. Seja luz. 

 

 

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