Dez anos depois da primeira conferência brasileira de body art e body mods

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Luciano Iritsu e T. Angel falam dos dez anos da Frrrkcon. Foto: divulgação

No dia 17 de Outubro de 2008 acontecia em São Paulo a Frrrkcon 000.1, a primeira conferência brasileira de body art e body modification. Organizada por Luciano Iritsu e T. Angel, o evento inovava ao promover um encontro onde o corpo era pensando e atravessado por diferentes práticas, dentre elas, a suspensão corporal.

Curiosamente na época o evento teve grande repercussão na imprensa nacional, abrindo um outro espaço e levando informações sobre os diferentes usos e apropriações do corpo. É certo que insistentemente a grande imprensa – aquela que chamamos de genérica – buscava noticiar de forma sensacionalista, mas foi possível encontrar espaços e profissionais sérios que puderam escrever, falar e mostrar um outro lado dessas histórias todas. E mesmo nos espaços menos éticos, como os programas de televisão, estavam lá Luciano Iritsu e T. Angel tentando tirar leite de pedra, para mostrar que existia um outro lado possível de olhar para os corpos modificados. 

 

Matéria publicada no Anuário Brasileiro de Tatuagem de 2009.

Matéria publica da The Point de 2011, revista da APP.

Falar sobre a Frrrkcon depois de dez anos é ainda um esforço de se fazer uma cuidadosa manutenção de uma história sobre o corpo modificado, entendendo que o evento possibilitou a criação de outros espaços, outros eventos e, em conjunto, fomentando a propagação das práticas de modificações corporais. A nossa memória é curta e por isso é preciso falar sobre, escrever sobre. E se não nós, quem falará? 

Falar sobre a Frrrkcon depois de dez anos é ainda relembrar de sonhos, desejos, lutas e insistências. Nós ainda estamos aqui. E em tempos onde tudo se dissolve num piscar de olhos, permanecer é revolucionário.

E dez anos depois queremos saber como estão as duas pessoas que criaram e trabalharam na Frrrkcon e que seguem até os dias de hoje alimentando a amizade que começou uma década atrás. Queremos saber o que Luciano Iritsu e T. Angel têm a dizer sobre o impacto da Frrrkcon em suas vidas e compartilhamos logo abaixo com vocês.

 

Luciano Iritsu segue trabalhando com piercing e formação de novos profissionais. Foto: reprodução / Facebook

“Nossa! 10 anos, né? Éramos jovens sonhadores! risos
Para mim foi um divisor de águas na minha volta para o Brasil. Estava fazendo uma “festa” com amigos e para futuros amigos. Porque a minha casa/estúdio ficava cheio na época da Frrrkcon. Nossa, era muito louco e a Frrrkcon foi sempre perto do meu aniversário também… E acho que tudo começou porque eu organizava a Conscar e te conheci, né? O Thiago Soares que colocava homens “pelados” na internet (frrrkguys). Mas aí depois que nos conhecemos na segunda Conscar foi amor à primeira vista. Com todo o seu conhecimento acadêmico aprendi muito com você e montamos nosso primeiro evento. O primeiro teve muitas coisas, performances, músicas, informações, exposições, stress, cansaço e alegrias! Ah! Um monte de coisa! Começamos às 14:00 da sexta e a última atração foi as 7:00 da manhã. Nossa! E ainda ficamos no prejuízo financeiro. risos
Lembra? Tínhamos muito mais pessoas “produzindo” a Frrrkcon do que entraram no evento. Ai você desencanou de organizar junto a segunda… Mas esteva sempre próximo. E sempre estará próximo. 

Organizar esse evento me fez conhecer muitas pessoas. Aprendi uma porção de coisas, queria abraçar o mundo, éramos jovens, né? risos

Acredito que mudamos a ideia de body art/bodmod/piercing na América Latina. Falo isso porque saímos na revista da APP, falando do palco da Virada Cultural, que foi continuação da Frrrkcon. Mas a Frrrkcon me deu muitos amigos, muitos sonhos realizados, que era divulgar e difundir ainda mais a nossa cultura de arte no corpo… Não queríamos ser famosos, só queríamos juntar a galera, concentrando tudo num só lugar.

Agora estou em processo de mudança de novo… Ainda estou fazendo piercing com experiência sensorial em Campinas… Oferecendo cursos online e querendo cada vez mais viajar e aprender. Nossa como é louco olhar para trás e se passar 10 anos, né?”
Luciano Iritsu

T. Angel trabalha atualmente com educação. Foto: divulgação

 

“A Frrrkcon obviamente mudou a minha vida. Primeiro porque estava expandindo mais ainda os horizontes do Frrrkguys e aprofundando ainda mais as minhas relações com as modificações corporais. Nesse sentido, inclusive quebrando fantasias que eu tinha… Eu acreditava que a comunidade da modificação corporal era o lugar debaixo do arco-íris onde todas as diferenças eram celebradas, que todo mundo gozaria de um espírito de fraternidade, amizade e suporte mútuo e vi esses muros ruírem. É dolorido, claro que é, mas foi importante ver explodir essa bolha da fantasia.

Eu acredito que a Frrrkcon foi um evento com muitos erros no sentido técnico, prático e de logística, fruto claramente de nossa inexperiência e precariedade. Éramos duas pessoas sonhadoras e pobres, produzindo um evento grande e, tudo isso sem recurso e apoio financeiro algum. Mas hoje entendo que se não fosse assim, não teria acontecido, nada teria se realizado e, principalmente, tudo o que veio depois da Frrrkcon. Tudo o que eu me tornei depois da Frrrkcon. Naquele momento foi preciso bater a cabeça, quebrar a cabeça e depois juntar os cacos e se refazer.

Eu não tive mais o desejo de continuar a trabalhar com a Frrrkcon, mas fico feliz que o Lu tenha continuado e eu pude estar ali pelas bordas dando apoio para o meu amigo. É muito trabalho (muito de verdade) e acredito que as pessoas não tenham a mínima noção do quanto de esforço envolve produzir um evento independente e por isso desrespeitam e não se importam. E é fácil e cômodo estar nesse lugar de apenas apontar o dedo e dizer que está tudo ruim e errado. Ter assistido que parte da comunidade da modificação corporal pouco se importava me tirou completamente as forças de trabalhar com a Frrrkcon. Mas respeito demais o que vivemos, o que fizemos e carrego boas memórias de tudo o que foi feito. Aprendi muito, muito de verdade…

Eu me graduei em História e hoje estou me especializando em Educação Inclusiva, trabalho com educação pública e, no momento, minhas energias estão concentradas nessa área. Ainda assim, sigo firme na performance e o FRRRKguys ainda está de pé. Em 2015 publiquei um livro e sigo pesquisando a modificação corporal e diferentes usos do corpo, talvez com uma intensidade menor do que no passado. Sinto que a história da modificação corporal está passando por uma fase profunda de transformação e, agora mais do que nunca, é preciso guardar todas essas histórias com muito carinho para que – quem sabe – as próximas gerações saibam do que fizemos e como fizemos.”
T. Angel

 

Vídeo documentário publicado em 2016 com imagens da Frrrkcon 000.1

 

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