Modifique seu corpo e modifique o mundo

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Nosso entrevistado de hoje é a prova viva de que não se deve julgar um livro pela capa e no quão surpreendente os seres humanos podem ser.
Diretamente da África do Sul, prestes a entregar seu doutorado, Eldge, conta um pouco pra gente sobre sua carreira acadêmica e processos corporais.
Sem dúvida alguma, uma profunda aula de vida. Confiram abaixo!

English version just scroll down

T. Angel: Conte-nos um pouco sobre sua vida acadêmica. Quando e como começa?
Eldge:
Terminei o colégio com a expectativa de ir para a universidade (na minha família não existe outra opção). Eu estava interessado em design e considerando arquitetura, mas a idéia de toda aquela matemática me fez sentir doente. Eu queria continuar com idiomas, que era minha favorita na escola. Então, eu fiz um BA (Bacharelado de Artes) com especialização em inglês e incluindo francês, latim, africâner e holandês. Assim, comecei em um programa de direito e pensei que seria uma boa idéia fazer isso, mesmo que na verdade eu quisesse continuar com idiomas. Mas naquele estágio, direito soou com uma boa prática vocacional (“algo para se “acomodar”, Yuck. Por que alguém se “acomodaria” numa cama com flores com espinhos, que é o que o Direito parece pra mim?)
Quando terminei o programa, eu não estava certo do que fazer a seguir, então apenas continuei com o direito, e me graduei com o LLB (Bacharelado em Direito). Na universidade eu tinha me envolvido com questões do direito gay, principalmente depois que eu havia acabado de “sair do armário”, mas a política de tudo isso fez me sentir inconfortável, pois era tão cássica, séria e sem criatividade.
Eu não estava pronto pra me tornar um advogado e queria experimentar um pouco do mundo. Então, eu fui para Londres e trabalhei por lá para um promotor durante dois anos, naquele tempo eu explorei meu próprio “fetishe” e sexualidade nos finais de semana. Eu ainda não estava certo do que queria ser “quando crescer”, então, voltei pra África do Sul para terminar a minha qualificação jurídica.
Acho que naquele momento eu só queria terminar o que tinha começado, porque eu não poderia pensar em algo mais interessante pra fazer. Estava interessado na elaboração de contratos, no que eu era bom e recebi um prêmio na escola de prática legal. Eu comecei a trabalhar como advogado, e logo encontrei minha vida ocupada por divórcios, seqüestros, casos de embriaguez ao volante e disputas mesquinhas sobre quem fez o que a quem e quem deve pagar. Logo percebi, que quando uma pessoa vai à um advogado é tarde demais, o estrago está feito, e a causa é demasiadamente irreparável.
O que as pessoas precisam é de um psicólogo, não um advogado! Percebi que quando a maioria das pessoas vão até um advogado, na verdade elas estão pedindo pra ele/ela fazer as vidas deles melhores e não apenas resolver uma questão jurídica. Eu era desqualificado pra isso.
E o mais importante, advogados são geralmente muito conservadores e não muito criativos e, eu estava louco pra deixar o terno e a gravata e deixar minha própria criatividade sair, em especial meus desejos para me modificar. Então eu deixei o direito e me juntei a uma produtora de filmes como pesquisador. Filme foi um ótimo sopro de ar fresco, cheio de pessoas interessantes e criativas. Eu trabalhei em filmes por um número de anos, mas depois de um tempo percebi que mesmo que eu estivesse mais livre e mais feliz que quando era um advogado, eu estava um pouco insatisfeito intelectualmente.
Produção de filme tende ser realmente “pró-ativa” e o que é ótimo, mas não há muito tempo para considerar os elementos intelectuais das coisas. Então um dia eu tive um encontro com uma amiga minha, falei sobre isso, e ela disse “por que você não volta estudar?”. Eu não tinha pensando sobre, e era uma ótima idéia, então voltei. Escolhi cuidadosamente o que eu queria fazer, que fosse explorar a idéia do masculino e o corpo, no contexto de histórias da vida, e em especial à luz do meu novíssimo implantes de peito. Assim fiz meu mestrado.
Então, estava mais animado sobre os elementos acadêmicos das coisas do que os práticos e, eu encontrei um emprego como professor em uma escola privada de cinema. Eu amei dar aula lá, mas logo percebi que eles estavam mais interessados em arrancar muito dinheiro dos alunos do que dar uma boa educação. Eu não estava tendo chance em desenvolver minha própria carreira acadêmica, então eu abandonei e comecei meu doutorado, o qual estou terminando agora, enquanto eu ensino roteiro de cinema em uma universidade pública (muito mais divertido e com muito mais integridade). O Doutorado tem realmente sido sobre trazer meus interesses em conjunto e terminando com uma ampla visão geral, social da ciência/humanas, eu senti falta ao longo do caminho enquanto eu entendia melhor meus não usuais interesses pessoais: enquanto o mestrado foi sobre gênero (masculino), identidade e o corpo em uma perspectiva sociológica, o doutorado tem sido sobre sexualidade e seu relacionamento com objetos materiais, em uma perspectiva psicológica.

T. Angel: Você é “fortemente” modificado, você teve algumas “portas fechadas” por conta do seu corpo?
Eldge:
Eu suponho que sim. Foi muito difícil pra mim conseguir um trabalho como advogado, mas acho que foi mais porque eu realmente não via interesse em ser um, e porque eu realmente não me adaptaria ao molde nos termos e modos que penso, menos do que pelo aparento, desde que eu não estivesse visivelmente modificado naquele momento, por isso era mais a minha cabeça em vez do meu corpo que provavelmente tornou isso mais difícil.
Mas em geral, eu descobri que as pessoas respondem ao modo como se pensa sobre si mesmo e não como uma aparência. Eu ainda poderia ir à um tribunal para representar um cliente (yuck, eu prefiro comer merda de cachorro!), mas o magistrado ou juiz provavelmente não me levariam a sério, pelo menos até que eu comece a falar, e eu provavelmente ao conseguiria nenhum cliente.
Mas eu descobri que a maioria das pessoas supõem uma coisa sobre mim (e cada um supõe algo diferente) e então reajustam suas opiniões quando eu falo, uma vez que eu sou claramente bem educado e eloqüente. A coisa mais difícil tem sido encontrar o que eu quero fazer (à parte de “ser modificado”, o que não paga muito bem!) e depois a coragem de fazê-lo. Uma vez que eu esteja rolando, eu fico bem. Além disso, acredito firmemente que tudo é possível e se alguém fica preso em suposições sobre o que os outros estão pensando, nunca vão fazer nada. As pessoas são infinitamente surpreendentes sobre o que elas gostam ou pensam. Como por exemplo, um número de conservadores idosos vieram até mim na rua e disseram que eles amaram o que eu fiz de/para mim. E uma dupla de heteros machistas bem agressivos me disseram que acharam meus peitos muito sexy. Mas nenhuma empresa conservadora me empregaria ou chamaria meus serviços e pessoas conservadoras não me ouviriam com uma mente aberta. Mas ao contrário, e é por isso que eu sou bom no que eu faço e no que eu gosto de fazer porque isso me alimenta num nível além de simplesmente fazer uma vida: ensino e mudanças de paradigmas. Eu agito as pessoas de suas complacências e deixo-as saberem que suposições são uma coisa ruim e que tudo é possível. Não fácil, mas possível.

T. Angel: Como se deu o interesse sobre os estudos da África?
Eldge: Há um debate em curso na África sobre o que é ser “africano”, especialmente depois do Apartheid, que tanto desumanizou pessoas e dispensou culturas “não ocidentais”. Muitas pessoas aqui estão interrogando o papel do “branco” na África, e eu acho que existe um ressentimento e uma defensiva por muitos indígenas acerca das reivindicações das pessoas de origem européia em ser “africano”.
Eu fui criado em uma comunidade anglófila “branca”, onde todas as referências culturais e sociais eram da Europa ou América. África praticamente não existia, e ainda não existe para a maioria das pessoas nessas comunidades, mesmo que consista em alguns milhões de pessoas que vivem na África e não têm acesso a cidadania européia ou americana e nunca poderão se considerar “européias”. Pessoalmente, eu sempre me senti mais que deslocado de todas as culturas, e nunca me senti como “pertencente” a qualquer lugar. Por exemplo, através do meu avô que era de Chipre, eu sou um cidadão (grego) cipriota. Mas eu não falo grego e não tenho costumes culturais gregos/oriente médio. Ainda há também inglês, alemão, holandês, francês, polonês, judeus do oriente médio e quem sabe a herança de outros, incluindo talvez Khoi-san (um povo indígena africano) e/ou indonésio/indiano que eu também poderia recorrer. Alguns ramos da minha família têm vivido na África desde 1700, e eu sou “da África”, mesmo que eu não tenha sido criado com qualquer identificação cultural “africana”.
Eu estava, portanto, interessado em explorar o que “ser africano” significa. Eu percebi que, como todo essencialismo, que não há nenhum significado real para isso, e culturalmente, menos que geograficamente, frequentemente é um rótulo imposto de fora. Eu percebi que ninguém “pertence” à lugar algum e que nós somos todos crianças da Terra, mas que eu tenho uma compreensão maior da África do Sul que qualquer outro lugar do mundo. No entanto, isso não significa que eu tenha que permanecer aqui.

T. Angel: Sobre o seu doutorado: você está pesquisando e estudando fetishes e sexualidades do gay masculino. Fale um pouco sobre o progresso de trabalho?
Eldge: Eu praticamente já terminei (assim espero). Finalizei o projeto completo da tese, o qual meu supervisor está olhando e que espero apresentar nos próximos meses. Foi uma viagem interessante que tem sublinhado para mim a importância do pensamento gay, que pretende ir além das identidades essencialistas e para um foco no que as pessoas fazem. A pesquisa também reorientou minha própria compreensão de como as pessoas se relacionam com os objetos materiais e, que elas os usam como pontos de orientação em relação ao mundo material e normas culturais/sociais. Se estamos falando de fetishe sexual, modificação corporal ou outra prática “underground” ou subcultural, ou mesmo as culturas tradicionais, eu posso agora confortavelmente alegar que as pessoas fazem sentido de seu mundo e se estabelecem em relação a isso, em nível social e psicológico, através de como elas lidam com os objetos materiais.

T. Angel: Você é anti religião mas pró espírito. O que você pensa sobre as relações contemporâneas com a espiritualidade?
Eldge: Depende do que você quer dizer com “relações contemporâneas com a espiritualidade”. Eu moro num país muito cristão e conservador, mas onde práticas indígenas co-existem confortavelmente, ou algumas vezes não tão confortavelmente. Por exemplo, nosso presidente acabou de casar com sua quinta esposa.
(Apenas para esclarecer, eu não tenho problemas com o poliamor, mas eu tenho um enorme problema com o sexismo da poligamia: suas esposas deveriam ter o direito de ter muitos maridos, mas elas não tem). Assim, nesse espaço, relações contemporâneas com a espiritualidade pra muitas pessoas significa escurecer o cristianismo, que em si é uma imposição colonial, sobre as práticas culturais tradicionais, tais como reverência ancestral. Em alguns níveis, eu sou um ateísta com pontos de vistas bem sólidos: não há um “Deus” olhando pra gente aqui embaixo. Pelo contrário, nós somos os autores dos nossos próprios destinos. Como tal, não há “certo” ou “errado” definidos a partir do exterior e não importa quem ou o que você quer foder, comer, falar ou construir uma casa, ou o que você quer fazer com sua vida ou seu corpo, ou mesmo como você se sujeita as normas sociais. Mas de uma perspectiva ocidental moderna, eu aplaudo a dissolução do cristianismo em algum tipo de relíquia do passado, onde pessoas apenas iam na Igreja no natal e páscoa, e só porque é uma ótima maneira de se conectar com a comunidade. Eu rebaixo o terrível fundamentalismo e conservadorismo fundamentalista da América e a terrível força da Igreja Católica em grande parte do mundo e o fundamentalismo islâmico. Basicamente, qualquer coisa que professe “ter as respostas” é um monte de merda que só serve para fingir que algumas pessoas são melhores que as outras e que eles estarão “salvos”, enquanto que os outros estarão condenados. E entre estes eu incluo a “Oprahficação” e “comodificação” da ”alternativa” espiritualidade, em que cada remédio espiritual charlatão e “solução” psico-blablabla que desce a estrada é saudada como “a resposta”. Simplesmente substituindo um “Deus” monoteísta com “o universo”, com se houvesse alguma consciência singular motriz que faça a mesma coisa.
Enquanto você respeitar um conjunto de éticas adotadas a partir de dentro, baseado no bem estar e desenvolvimento de todos os seres (humanos) do planeta. Neste sentido, creio que são fluxos de energia ao qual nós podemos bater, que não são nem boas e nem más, mas são apenas o elemento “invisível” da física.
Isso pode parecer obscuro, mas se nós pensarmos “espiritualidade” como “oração”, nós somos suscetíveis de recair em velhos padrões de êxtase religioso, agradecendo algum ser senciente fictício por nossa existência. Pelo contrário, devemos celebrar o mero fato de existir, juntamente com as maravilhas do mundo em qual vivemos e ao fazê-lo, nós deveríamos nos permitir seguir o fluxo da vida onde quer que isso possa levar, escolhendo interessantes opções, onde pode haver uma bifurcação no rio, e fazer as escolhas informados, em vez de pensarmos que somos obrigados ou impedidos por alguma coisa do tipo “força maior”. Nesse sentido, aqueles que elevam “espiritualidade” em algo “sagrado” ou apenas re-expressando as mesmas mentiras das velhas religiões com novas roupagens.
Aqueles que vivem suas vidas de forma livre e fundamentada e, apenas “são” (incluindo ateístas entre nós, que não precisamos de religião para viver e aproveitar e apreciar as maravilhas da existência) tem uma espiritualidade mais honesta e valiosa. Eu suponho que minha opinião é de certa forma semelhante ao budismo, mas sem as conotações religiosas.

T. Angel: Você acha que é possível modificar o corpo separando-o da mente e espírito?
Eldge: Não. Partindo do pressuposto de que corpo, mente e espírito são inseparáveis e, ainda, não são realmente identificáveis como coisas separadas. Eu sou bem anti-cartesiano nesse sentido: “cogito, ergo sum” (penso, logo existo) é um monte de lixo. Do ponto de vista fisiológico, nossa memória celular não vive em nossos cérebros sozinha, mesmo que as sinapses do cérebro façam conexões com base em mensagens sensoriais enviadas a partir do corpo. Nossa visão de mundo está ligada às nossas experiências sensoriais do mundo, tais experiências nos desenvolve inconsciente e conscientemente e nos recriam emocionalmente mais e mais pela maneira de “quem somos”. Daí a eficácia da programação neurolinguística (PNL), como uma forma de “reprogramar” nosso falido emocional. E, como mencionado acima, eu não acredito que há um “Deus” que nos deu um espírito. Pelo contrário, nós somos um grupo de seres que evoluíram a partir do lodo primordial, para sermos conscientes do nosso mundo material, o que inclui a nossa própria corporeidade e nós temos experiências emocionais em relação ao mundo. “Espírito” é uma relação emocional com o valor de estar vivo, e para conexões com a idéia de existência. Se esta consciência transcende o material, e se a energia física que habita nossos corpos se move em outra parte (ou volta em um outro corpo, ou talvez alguma outra opção) depois que nós morremos é uma questão só passível de resposta quando nós realmente morrermos, e pode muito bem depender da constituição da energia de uma determinada pessoa. Assim, é possível que as pessoas que acreditam em céu vão para um lugar que se aproxima quando elas morrem, porque elas criaram a força energética para levar aquela sensibilidade com eles depois da morte. Aqueles que acreditam em reencarnação poderiam muito bem reencarnar, enquanto os ateus poderiam simplesmente “puff” e desaparecerem, as energias deles seriam para alimentar alguma outra coisa. Ou talvez nós todos nos reunirmos em uma indistinguível e inconsciente bola de energia depois da morte. Ou talvez nós simplesmente desaparecermos. Mas eu digresso… Essa digressão rotunda significa que modificar o corpo é, por definição, modificar a mente e o espírito, que são todos um só. Por sua vez, modificar o corpo é realmente modificar a sociedade e o mundo, e, por implicação no universo também, uma vez que é um exercício de escolha que conflita com o embutido desejo evoluído para evitar a dor, e só para fazer coisas que são praticamente úteis. A modificação serve para muitos propósitos, por exemplo, expressar simbolismo, transformar estados emocionais, reajustar práticas aprendidas, localizando e nos orientando social, cultural e espiritualmente e etc. Depende do que cada indivíduo precisa alterar como o que já foi mudado. Para alguns, a modificação é principalmente sobre desafiar a sociedade, enquanto para alguns é sobre se tornar mais OK com eles próprios, enquanto que para outros é sobre a conexão com algum tipo de significado transcendente. Mas você não pode separar mente, corpo e espírito, para a maioria é uma combinação de todos os tipos de coisas. Pra mim, a modificação é sobre afastar-se da dor, medo e obrigação em direção a conexão, possibilidade e libertação, nos planos social, cultural, emocional, sexual e espiritual.

T. Angel: Você está se modificando (corpo e mente) por duas décadas. Quando isso começa?
Eldge: Tudo começou quando eu tinha uns 14 e tinha o desejo irreprimível de furar minha orelha. Até mesmo porque era muito desafiador em minha comunidade conservadora, eu tinha que esconder isso dos meus pais.
Nada demais aconteceu entre aquela época e quando eu cheguei à universidade e, morei longe de casa pela primeira vez eu tinha 18 anos (em 1991), quando eu comecei perfurar outras coisas. Eu fiz minha primeira tatuagem com 21, depois quando tinha uns 23 comecei os alargadores e assim por diante.
Afastei os limites o tanto quanto eu poderia ainda ser empregável, mas eu realmente só comecei com a idéia da modificação corporal completa, quando decidi que eu nunca queria ser um membro “normal” da sociedade. Suponho que depois que eu deixei a prática legal, e me dei permissão para o risco do desemprego, pois a minha liberação corporal era mais importante que o suicido emocional da conformidade.

T. Angel: Conte-nos sobre os seus implantes no seio. Quando você decidiu tê-los?
Eldge: Creio que eu sempre quis ter um peito grande. Me interessei pelo “body building”, mas eu era muito preguiçoso para treinar á sério. Naquela época eu estava ativamente interessado em desenvolver meus músculos peitorais, que sempre foram proporcionalmente maiores que meus outros músculos. Mas eu não penso muito sobre isso. Então, em 2001 meu lóbulo alargado estourou (eu estava com 4 cm de cada lado), tive que ir até um cirurgião plástico para concertá-los. Quando eu estava no consultório do cirurgião eu perguntei, fora de interesse, quais possibilidades haviam para aumentar o tamanho do meu peito. Ele me disse tudo sobre os implantes de peitorais, mas eu estava interessado em algo mais suave e maior do que eles permitiam, pois o implante de peito parecia algo como muito dinheiro para pouquíssimo retorno. Eu pesquisava a questão, perguntando sobre os implantes mamários e ele parecia aberto à idéia. Naquele momento, creio que me dei permissão para “ir lá” e me permitir estar aberto a idéia, a qual esteve inconsciente o tempo todo. Armado com informações, eu fui embora e pensei muito sobre isso e decidi que eu REALMENTE queria seios. Levei muito tempo para juntar o dinheiro para fazer a operação e para encontrar um outro cirurgião disposto a fazê-lo, uma vez que o cara que eu havia falado tinha emigrado. Eu finalmente fui adiante em 2004, com o maior tamanho que o cirurgião pode implantar: 500 cc em cada lado. Então eu tive contratura capsular em um dos lados e tive que retornar para um ajuste em 2005. Depois da primeira cirurgia eu estava decepcionado com a forma com a qual eles estavam pequenos, e fiz um upgrade para 700 cc cada lado, que é o que meu orçamento permitiria (o custo dos aumentos dos implantes aumentaram dramaticamente para tamanhos grandes). Quem dera tivesse pagado a mais pelos de 1000cc, uma vez que 700cc ainda estão demasiado pequenos.

T. Angel: Há uma discussão transexual envolvida nessa parte do seu projeto de modificação corporal?
Eldge: Havia a questão da identidade transgênera, a qual eu luto por um bom tempo, antes e depois da cirurgia. Mas eu percebi que a conversa era realmente sobre o que as outras pessoas pensariam, ao invés do que eu acreditava sobre mim mesmo. Eu realmente cavei profundamente dentro de mim e me questionei sobre gênero, o que isso significa pra mim, como eu sinto sobre ser um garoto, como sinto sobre meu corpo e também como eu sinto sobre meu pau e bolas (daí o meu mestrado). Intelectualmente eu percebi que não há diferença essencial entre masculino e feminino e que não importa se eu tenho um pinto ou não, ou se eu tenho mamas ou não. É mais sobre os diferentes componentes de mim como um ser humano e não como um “garoto” ou uma “garota”. Percebi que eu não sou transgênero de verdade, no sentido de não estar feliz com o meu sexo e querendo ser outro. É um pouco sobre puxar sentimentos e associações juntas de várias partes e transformá-los em um todo, que não é na verdade conflitos entre um corpo sexuado e um mente sexuada oposta. Isso se liga em minha sexualidade também, que é uma questão que precisa ser respondida para muitos transgêneros. Eu fico excitado com homens, mas eu amo pornô hétero, homens-trans, “shemale” (desculpas às mulheres-trans que odeiam esse termo, politicamente me oponho a ele, mas de uma perspectiva gay eu amo “tanto quanto” a libertação e a sensualidade de uma linda mulher com um pinto grande).
Eu não tenho interesse em enfiar meu pau em lugar algum e eu prefiro ser fodido, o que não faz de mim “femino”. Então, eu não sou “transgênero” como em querer ser/sentir como uma garota. Porém, eu me sinto “transgênero” como significando de “gênero transcendente”. Acho que algum tipo de rótulo seria “gênero masculino não conformista com fundo agressivo”. Ou talvez apenas “pervertido”. Isso quer dizer que eu não quero seios “reais”, mas eu amo ter os implantes. Pra mim é realmente sobre a perversão: é como uma perversidade sexual, política e emocional, ligado para ser um garoto com seios falsos e um pinto grande demais para ser usado!

T. Angel: Vamos falar sobre seu pênis e bolas. Conte-nos sobre o processo do silicone.
Eldge: O processo é realmente bastante simples, uma vez que você encontre os recursos: é difícil encontrar o grau certo de silicone líquida (grau cirúrgico). Muitas pessoas tentaram outros tipos de fluídos e morreram no processo, devido ao silicone sujo e técnicas impróprias. Você não pode ir na loja de ferragem local e comprar o material lá! Também é potencialmente perigoso em casos que se injetam na veia, isso pode viajar para o coração e causar uma embolia. Por isso, é imperativo que seja feito por um médico conceituado e, geralmente não é um procedimento inteiramente “legal”. Embora na maioria dos locais não seja ilegal fazer, não é aprovado pela fraternidade médica, então, cirurgiões plásticos e doutores não vão fazer esse tipo de procedimento. Há um doutor em Tijuna, México, e um profissional em Londres, que é onde eu vou. Mas depois de ter encontrado a pessoa certa, é realmente simples. Você liga para o cara, faz um agendamento, gasta muito dinheiro em passagens de avião, se você vive do outro lado do mundo e vai visitá-lo.
O silicone é injetado sob a pele do pênis e em vários lugares do escroto, não no pau ou testículos em si. O ponto de inserção da agulha fecha por si só ou é fechado com um maço de super cola e papel. Então você enrola isso ao redor para conseguir o efeito desejado, por fim, você o deixa se ajustar sozinho.
Os profissionais desenvolveram várias técnicas para minimizar o inchaço e para garantir o melhor efeito e, no geral, é um processo indolor, exceto pela picada de agulha como uma injeção, o que realmente é, apenas em uma grande escala.
Eu descobri que para o maior tamanho o melhor é esperar um longo tempo para se ajustar, o que parece melhor é fazer depois de 9 meses, 18 meses parece ser o truque para que a pele relaxe totalmente e esteja pronta para uma outra grande carga (a primeira vez eu injetei somente 240cc, a segunda vez aproximadamente o mesmo e a terceira vez em torno de 450). A pele se torna muito sensível durante muito tempo, eu tive que investir em calças e cuecas macias. Depois disso, a pele nunca desliza sobre o pau e bolas como fazia antes e eu não posso mais fazer nenhuma ginástica sexual com meu pau, desde que se tornou doloroso sem lubrificação, mas eu prefiro não usar meu pinto de qualquer modo. O efeito é fantástico e o constante peso pendurado entre minhas pernas é incrível.

T. Angel: Tattoo, piercings, implantes e alargadores. Algum plano para futuras modificações?
Eldge: Estou trabalhando na parte 1 do meu “Embedded Form Project” (Projeto formulário incorporado) que deve ser terminado em Dezembro de 2012.
Atualmente estou trabalhando no meu processo de tatuar o corpo inteiro (tatuagem em toda parte do meu corpo, não 100% coberto, exceto pelo meu rosto e meio das costas ). Este ano eu vou provavelmente terminar minha perna esquerda e meu quadril direito. Em média eu visito uma vez por mês o meu artista (Simon do Wildfire em Cape Town. Eventualmente, após 2012, eu termine minhas costas com um Buda, para representar a aproximação do projeto. Eu provavelmente continuarei com meu rosto depois disso também, mas eu preciso me estabelecer melhor trabalho sábio primeiro, e de qualquer modo, eu não quero esconder completamente o meu rosto.
Piercings vão e vem. Eu tenho cerca de 22 agora, e posso fazer mais, ou não, depende do meu humor. Eu alarguei meus nostrils para 18 mm, e provavelmente irei deixa-los em 20 mm ou mais. Meu labret está cerca de 14 mm. Eu o fiz para ficar em torno de 22, mas ficou incomodando muito no dia-a-dia, então eu deixei fechar. Eu gostaria de poder ter 100 mm e eu tenho um enorme respeito por pessoas como Jenya na Rússia e Rafa no Brasil, mas pra mim ficou muito pesado e doloroso (acho que a perfuração era muito baixa) e eu preciso da minha capacidade de voz desempedida para poder dar aula. Eu estou re-alargando meus mamilos, ambos estão em 10 mm agora, e eu provavelmente irei parar em torno de 12 mm, embora eu possa ir mantendo em uma polegada ou mais, mas é possível que eles rasguem antes. Eu gostaria de dilatar com pesos ao invés de alargar, possivelmente, seja o caminho a percorrer.
Eu quero aumentar o tamanho dos meus implantes no seio para 1200cc em cada lado até o fim de 2012. Estou tentando juntar o dinheiro para isso. Infelizmente, consta que implantes de silicone de mais que 1000cc não estão sendo feitos (eu não quero salina, que não faz bem), então eu vou ver o que pode ser feito. Eu não sei se é possível, mas eu amaria conseguir expandir o implante preenchidos com 1200cc de silicone, expansível até 3 litros ou mais, então eu posso lentamente trabalhar o meu caminho para os implantes super-grandes sem ter que ter caras e dolorosas cirurgias ao longo do caminho e me possibilitando parar quando o tamanho estiver bom, se maior ou menor que 3 litros. É muito arriscado ter silicone liquida injetada diretamente no meu peito, devido a proximidade ao coração. Eu não quero uma embolia.
Espero conseguir mais 1.2 litros de silicone no meu pinto e bolas antes do fim de 2012, e então, nos anos seguintes espero aumentar para cerca de 6 litros ou mais, como Greg nos USA. Mas de novo, eu preciso estabilizar melhor o meu trabalho e rendimento antes disso, e chegar a um acordo em estar sendo chamado de lado todo tempo que passo pela segurança no aeroporto. O segredo será em encontrar o equilíbrio entre meus desejos perversos e minha vida real.
Por alguma razão implantes subdermal e transdermal estão em baixa na minha lista, embora alguma brincadeira com aparência alien, implantes na testa seriam legais, como seria legal uma mandíbula hiper masculina e maçãs do rosto acentuadas. Novamente, isso é um plano para algum tempo no mais distante futuro, mas se eu conseguisse financiamento para o projeto de arte de 2012 eu consideraria seriamente mais cedo.
Mas, dito isso, eu tenho estado muito concentrado nas grandes mods por um longo tempo, como fazer as grandes doses de silicone no meu pinto e bolas, e maiores implantes nos seios e terminar meu tattoo suit. Agora estou focando uma progressão mais holística e menos invasiva, como lentamente fazer uma chapa de dentes de prata o que é praticamente indolor, e colocar minha peça da língua de volta depois de muitos anos sem ela, e deixar meu cabelo crescer de novo (sim, eu vejo estilos de cabelo como uma mod também!). É bom focar em manter o ajuste e olhando minha saúde e encontrando um equilíbrio de vida, ao invés de estar obcecado em ter mais e maiores mods, como eu fiz no passado. As vezes tenho tendência para esquecer de “cheirar as rosas”, apreciando a jornada que me permite aproveitar as pequenas coisas de novo.

T. Angel: Qual a coisa mais interessante que você poderia nos contar sobre sua pesquisa com corpos?
Eldge: Corpos são as coisas mais fascinantes. Todo mundo tem um, nenhum deles é igual e nenhum executa a mesma função para todos, além das necessárias, comer, cagar, foder, etc, e até mesmo essas experiências tem um significado diferente para cada um. Não existe tal coisa como “um corpo”.
“O corpo” é uma construção da sociedade e de nossas experiências em nossa própria materialidade. Preferencialmente, a experiência incorporada transporta significado e valor para as pessoas. Desta forma, o corpo físico é como qualquer outro objeto em torno de nós: portanto, é parte de nós e nos separa, e faz parte do continuum entre as consciências individuais. Não é necessário um começo ou fim para o corpo, nem entre o corpo e a mente, ou entre corpos e coisas. Assim, estamos todos conectados uns aos outros e ao mundo que nos rodeia, quer queiramos ou não. Quando nos construímos (ou nos modificamos), nós construímos um mundo em torno de nós e quando destruímos nossos corpos, destruímos também o mundo em torno de nós. Então corpos (e modificações) estão ligados à política e ecologia, economia e bem estar social e tudo mais. Eles são pessoais, públicos, políticos, emocionais e o único meio à nossa disposição para existirmos. Nós devemos celebrá-los!

Fim.
Contatos do nosso entrevistado no final da página.

English version

T. Angel:
Tell us a little bit about your academic life. When and how it starts?
Eldge: I finished school with the expectation that I was to go to university (in my family there is no other option). I was interested in design and considered architecture, but the idea of all that maths made me feel ill. And I wanted to continue with languages, which were my favourite at school. So I did a BA (Bachelor of Arts) majoring in English and including French, Latin and Afrikaans & Nederlands. Then I got into a law program and thought that it would be a good idea to do that, even though I really wanted to continue with languages. But at that stage law sounded like a good practical vocation (‘something to fall back on’. Yuck. Why would anyone want to ‘fall back’ on a bed of white-hot pokers, which is what law feels like to me?!).
When I finished that I was not sure what to do next, so I just continued with law, and graduated with a LLB (Bachelor of Laws). At university I had been involved in gay rights issues, particularly after I had recently ‘come out’, but the politics of it all made me feel uncomfortable, since it was so ernest and serious and uncreative. I was not ready to become an attorney and wanted to experience the world a bit, so I went to London and worked there for a property developer for two years, during which time I explored my own ‘fetish’ sexuality on weekends. I was still not sure what I wanted to become when I ‘grew up’, so I returned to South Africa to finish my legal qualification.
I think at that point I just wanted to finish what I had started because I could not think of anything more interesting to do. I was interested in drafting contracts, at which I was good and for which I received an award at legal practice school. I started work as an attorney, and soon found my life occupied by divorces, sequestrations, drunk driving cases and petty squabbles about who did what to whom and who should pay. It was quickly eating away at my soul. I soon realised that when people go to a lawyer it is too late, the damage is done, and the matter is pretty much irreparable.
What people need is a psychologist, not a lawyer! I realised that when most people go to a lawyer they are actually asking him/her to make their lives better, rather than just solve a legal question. And I was unqualified for that. More importantly, lawyers are generally very conservative and not very creative, and I was itching to leave the suit and tie and let my own creativity hang out, particularly my desires to modify myself. So I left law and joined a film production company as a researcher. Film was a great breath of fresh air, full of interesting, creative people. I worked in film for a number of years, but after a while I realised that even though I was much freer and happier than when I was a lawyer, I was somewhat intellectually unfulfilled.
Film production tends to be really ‘hands-on’, which is great, but there is not much time spent considering the intellectual elements of things. Then one day I had a drink with a friend of mine, talking about this, and she said ‘why don’t you go back to study again?’. I hadn’t really thought about this, and it was a great idea, so I did. I chose carefully what I wanted to do, which was to explore the idea of maleness and the body, in the context of life stories, and in particular in light of my newly acquired breast implants. So I did my Masters.
By then I was excited more about the academic than the practical elements of things, and found a job teaching at a private film school. I loved teaching there, but soon realised that they were more interested in charging their students loads of cash than in giving them a good education. And I was just not getting the chance to develop my own academic career, so I left and started my PhD, which I am now finishing, while I teach film scriptwriting at a public university (much more fun, and a lot more integrity!). The PhD has really been about bringing my interests together and finishing the broad social sciences/humanities overview I missed along the way while better understanding my unusual personal interests: whereas the Masters was about (male) gender, identity and the body from a sociological perspective, the PhD has been about sexuality and its relationship with material objects from a psychological perspective.

T. Angel: You’re heavily modified, did you have some “closed door” because of your body?
Eldge:
I suppose I did. It was really hard for me to get a job as an attorney, but I think that was more because I didn’t really see the point in being one, and because I really didn’t fit the mould in terms of the way I think, rather than in terms of how I look, since I was not that visibly modified at the time, so it was more my head, rather than my body that has probably made it more difficult.
But in general I have found that people respond to how one thinks about oneself, rather than how one looks. I could still go into a courtroom to represent a client (yuck, I’d rather eat dog shit!), but the magistrate or judge would probably not really take me that seriously, at least until I start speaking, and I probably wouldn’t get any clients.
But I have found that most people assume one thing about me (and everyone assumes something different) and then re-adjusts their opinion when I speak, since I am clearly well-educated and eloquent. The more difficult thing has been to find what I want to do (aside from ‘be modified’, which doesn’t pay very well!) and then pluck up the courage to do it. Once I’m rolling I’m fine. Also, I firmly believe that anything is possible, and if one gets stuck in assumptions about what other people are thinking, one will never do anything. People are endlessly surprising about what they like or what they think. Like , for example, a number of conservative old people have come up to me in the street and said that they love what I’ve done to/for myself. And a couple of very aggressive, macho straight men have said that they find my tits very sexy. But no conservative company would employ me or call on my services, and no conservative people would listen to me with an open mind. But, conversely, that is why I am good at what I do, and what I like doing because it feeds me on a level beyond simply making a living: teaching and shifting paradigms. I shake people out of their complacency and let them know that assumptions are a bad thing and that anything is possible. Not easy, but possible.

T. Angel: How did you get interested about African studies?
Eldge: There is an ongoing debate in South Africa about what is ‘African’, particularly after apartheid, which so dehumanised people and dismissed ‘non-western’ cultures. Many people here are interrogating the role of ‘white’ people in Africa, and I think there is some resentment and defensiveness by many indigenous people about the claims of those of European origin to being ‘African’.
I was brought up in a ‘white’, anglophile community, where all cultural and social references were to Europe or America. Africa pretty much didn’t exist, and still doesn’t for most people in those communities, even though they consist of a few million people who live in Africa and have no access to European or American citizenship and can therefore never count themselves as ‘European’. Personally, I have always felt more than a little dislocated from all cultures, and have never felt like I ‘belong’ anywhere. For example, through my grandfather who was from Cyprus, I am a (Greek) Cypriot citizen. But I speak no Greek and have no Greek/Middle Eastern cultural ‘ways’tem. Yet there are also English, German, Dutch, French, Polish, Eastern European Jewish and who knows what other heritage, including perhaps Khoi-san (an indigenous African people) and/or Indonesian/Indian which I could equally call on. Some branches of my family have been living in Africa since the 1700’s, and I am ‘of Africa’, even though I was not brought up with any identifiably ‘African’ culture.
I was therefore interested in exploring what it means to ‘be African’. I realised that, like all essentialism, there is no real meaning to it, and culturally, rather than geographically, it is often a label imposed from the outside. I have realised that nobody ‘belongs’ anywhere, and that we are all children of the Earth, but that I have a greater understanding of South Africa than anywhere else in the world. Yet that doesn’t mean that I have to remain here.

T. Angel: About your PhD: you are researching and studying gay male fetish sexualities. Tell as about the progress of it?
Eldge: I am practically finished (I hope). I have finished a full draft of the thesis, which my supervisor is looking through, and which I hope to submit in the next few months. It has been an interesting journey which has underlined for me the importance of queer thinking which seeks to move beyond essentialist identities, and towards a focus on what people do. It has also re-oriented my own understanding of how people relate to material objects, and that they use them as points of orientation in relation to the material world and cultural/social norms. Whether we are talking about sexual fetish, body modification or other ‘underground’ subcultural practices, or indeed mainstream cultures, I can now comfortably claim that people make sense of their world, and establish themselves in relation to it on social and psychological levels, through how they call on material objects.

T. Angel: You’re anti-religion but pro-spirit. What do you think about the contemporary relations with spirituality?
Eldge: It depends on what you mean by ‘contemporary relations with spirituality’. I live in a very Christian and conservative country, but where indigenous practices co-exist comfortably, or sometimes not so comfortably. For example, our president just took his fifth wife. (Just to clarify, I have no problem with polyamory, but I have a huge issue with the sexism of polygamy: his wives should have the right to have many husbands, which they don’t). So in this space, contemporary relations with spirituality by many people mean glomming Christianity, which is itself a colonial imposition, onto traditional cultural practices such as ancestor-reverence.
But from a modern Western perspective, I applaud the dissolution of Christianity into some kind of quaint relic from the past, where people just go to church on Christmas and at Easter, and then only because it’s a great way of connecting with the community. I decry the awful fundamentalism of American Christian conservatism, and the terrible power of the Catholic Church in much of the world, and Muslim fundamentalism. Basically, anything that professes to ‘have the answers’ is a load of shit which just serves to pretend that some people are better than others and that they will be ‘saved’ while others will be damned. And amongst this I include the ‘Oprah-fication’ and commodification of ‘alternative’ spirituality, whereby every quack spiritual remedy and psycho-babble ‘solution’ that comes down the road is hailed as ‘the answer’. Simply replacing a monotheistic ‘God’ with ‘the universe’, as if there is some singular consciousness driving it does the same thing.
On some levels I am a dyed-in-the-wool atheist: there is no ‘God’ looking down on us. Rather, we are the authors of our own destiny. As such, there is no ‘right’ or ‘wrong’ defined from the outside, and it doesn’t matter who or what you want to fuck, eat, talk to or set up home with, or what you want to do with your life or your body, or whether or how you conform to social norms. As long as you abide by a set of ethics adopted from the inside, based on the well-being and development of all (human) beings and the planet. In this regard, I believe that there are energy flows which we can tap into, and which are neither good nor bad, but are merely the ‘unseen’ element of physics. This may sound obscure, but if we think of ‘spirituality’ as ‘prayer’, we are likely to fall back into old patterns of religious ecstasy, thanking some fictive sentient being for our existence. Rather, we should celebrate the mere fact of existing, along with the wonders of the world in which we live, and in so doing, we should allow ourselves to follow the flow of life wherever it may lead, choosing interesting options wherever there may be a fork in the river, and making informed choices rather than thinking we are compelled to or prevented from doing things by some ‘higher force’. In this regard, those who elevate ‘spirituality’ to something ‘holy’ are just re-couching the same old religious bullshit in new clothes. Those who live their lives in a free and grounded manner, and just ‘are’ (including the atheists amongst us who do not need religion to live and enjoy and appreciate the wonders of existence) have a more honest and valuable ‘spirituality’. I suppose my view is in some ways akin to Buddhism, but without the religious undertones.

T. Angel: Do you think is possible to modify a body separating it of mind and spirit?
Eldge: No. Following on from above, body, mind and spirit are inseparable, and are really not even identifiable as separate things. I’m very anti-Cartesian in that way: cogito ergo sum is a load of crap. From a physiological perspective, our cellular memory doesn’t live in our brains alone, even though brain synapses make connections based on sensory messages sent from the body. Our world-view is connected to our sensorial experiences of the world, which experiences we consciously and unconsciously develop and re-create emotionally over and over by way of ‘who we are’. Hence the effectiveness of neuro-linguistic programming (NLP) as a way to ‘re-program’ our emotional bullshit.
And, as noted above, I don’t believe there is a ‘God’ who has given us a spirit. Rather, we are a group of beings who have evolved from the proverbial primordial slime to be conscious of the material world, which includes our own corporeality, and we have emotional experiences in relation to that world. ‘Spirit’ is an emotional relationship with the value of being alive, and to connectedness with the idea of existence. Whether this consciousness transcends the material, and whether the physics energy which inhabits our bodies moves on elsewhere (or comes back into another body, or maybe some other option) after we die is a question only answerable when we actually die, and could well depend on the constitution of the energy of any given person. So, it is possible that people who believe in heaven will go to a place which approximates it when they die because they have created the energetic force to take that awareness with them after death. Those who believe in re-incarnation could well re-incarnate, while atheists could just go ‘poof’ and disappear, their energy feeding into something else. Or perhaps we all come together into some indistinguishable and unconscious ball of energy after death. Or perhaps we just disappear. But I digress.
This roundabout digression means that modifying the body is by definition modifying the mind and spirit, which are all one. In turn, modifying the body is actually modifying society and the world, and by implication the universe as well, since it is about exercising a choice which conflicts with the in-built evolved desires to avoid pain, and to only do things which are practically useful. Modification serves so many purposes, for example expressing symbolism, transforming emotional states, re-adjusting learned practices, locating and orienting ourselves socially, culturally, spiritually, etc. It depends on what the individual needs to shift as to what gets shifted. For some, modification is primarily about challenging society, while for others it’s about becoming more OK with themselves, while for others it’s about connecting with some kind of transcendent meaning. But you can’t separate out mind, body and spirit, so for most it is a combination of all sorts of things.
For me, modification is about moving away from pain, fear and obligation, and towards connection, possibility and liberation, on social, cultural, emotional, sexual and spiritual levels.

T. Angel: You’re modifying youself (body and mind) for two decades. When it starts?
Eldge: It really started when I was about 14 and had the irrepressible desire to pierce my ear. Even that was very challenging in my very conservative community, and I had to hide it from my parents. Not much happened between then and when I got to university and lived away from home for the first time when I was 18 (in 1991), when I started piercing other things. I got my first tattoo when I was 21 and then started with stretching and so on when I was about 23. I pushed the limits as much as I could while still being employable, but I really only started with the idea of the whole body modification when I decided that I never wanted to be a ‘normal’ member of society, I suppose after I left legal practice, and gave myself the permission to risk unemployment because my bodily liberation was more important than the emotional suicide of conformity.

T. Angel: Tell us about your boob implants. When did you decide get them?
Eldge: I suppose I have always wanted a big chest. I dabbled in body building, but was too lazy to do it seriously. At that time I was actively interested in developing my pec muscles, which have always been proportionately bigger than my other muscles. But I didn’t think much about it. Then, in 2001 my stretched earlobes blew out (I was at 4cm each side), and I had to go to a plastic surgeon to get them fixed. When I was in his office I asked, out of interest, what possibilities there were for increasing my chest size. He told me all about the pec muscle implants, but I was more interested in something softer and bigger than they allow, since the pec implants seemed like a lot of money for very little return. I skirted around the issue and asked about breast implants, and he seemed open to the idea. At that moment I suppose I gave myself permission to ‘go there’ and allow myself to be open to the idea which had been unconsciously there all along. Armed with the information, I went away and thought long and hard about it, and decided that I REALLY wanted boobs. It took me a long time to scrape the money together to get the operation done, and to find another surgeon willing to do it, since the guy I had spoke to had emigrated. I finally went ahead in 2004 with the biggest size the surgeon could get in: 500cc each side. Then I got capsular contracture in the one side, and had to go back for an adjustment in 2005. After the first surgery I was disappointed at how small they were, and I upgraded to 700cc each side, which is what my budget would allow (the cost of the implants increases dramatically for the large sizes). I wish I had coughed up the extra to get to 1000cc, since the 700cc are still way too small.

T. Angel: There’s a transsexuality discussion involved on this part of your body mod project?
Eldge: There was the question of transgender identity, which I grappled with for a long time, both before and after the surgery. But I realised that the conversation was really about what other people would think, rather than what I believed about myself. I dug really deep inside myself and asked about gender and what it means to me, and how I feel about being a boy, and how I feel about my body, and also how I feel about my cock and balls (hence my Masters degree). Intellectually I realised that there is really no essential difference between male and female, and that it doesn’t matter whether I have a cock or not, or whether I have tits or not. It is more about the various constituent parts of me as a human being, rather than as a ‘boy’ or a ‘girl’. I realised that I am not really ‘transgendered’ in the sense of not being happy with my sex and wanting to be the other one. It is rather about pulling feelings and associations together from various parts and making them into one whole, which is really not about a conflict between a sexed body and an opposite-sexed mind. This links into my sexuality too, which is a question needing to be answered for many transgendered people. I get turned on by men, but love straight porn, trans-men, ‘she-males’ (apologies to those trans-women who hate that term. Politically I am opposed to it, but from a queer perspective I love the ‘both-and’ liberation and sexiness of a beautiful woman with a big cock). I have no interest in sticking my cock in anywhere, and prefer to be fucked, but that does not make me ‘female’.
So I am not ‘transgendered’ as in wanting to be/feeling like I am a girl. Rather, I feel ‘transgendered’ as meaning ‘transcending gender’. I suppose some kind of label would be ‘male gender non-conformist aggressive bottom’. Or maybe just ‘pervert’. It is telling for that I don’t want ‘real’ breasts, but love having the implants. For me it’s really about the perversion: it is such a perverse sexual, political and emotional turn-on to be a boy with fake boobs and cock too big to be used!

T. Angel: Let’s talk about your penis and balls. Tell us about the silicone process.
Eldge: The process is really rather simple, once you find the resources: It is difficult to find the right grade liquid silicone (surgical grade). Many people have tried other kinds of fluid and have died in the process, due to dirty silicone and improper techniques. You can’t go to the local hardware shop and buy it there! It is also potentially dangerous in that if it is injected into a vein it can travel to the heart and cause an embolism. So it is imperative that it is done by a reputable practitioner, and it is generally not an entirely ‘legal’ procedure. Although in most places it is not illegal to have it, it is not approved by the medical fraternity, so plastic surgeons and doctors won’t do it. There is a doctor in Tijuana, Mexico, and a practitioner in London, which is where I go. But once you have found the right people, it’s really simple. You call the guy, make an appointment, spend loads of cash on plane tickets if you live on the other side of the world, and go to visit. The silicone is injected under the skin of the penis and into the scrotum in various places, not into the cock or testicles themselves. The insertion point for the needle closes by itself or is sealed with a wad of superglue and paper. Then you roll it around to achieve the required effect, then you leave it alone to settle. The practitioner has developed various techniques to minimize swelling and to ensure the best effect, and on the whole it is a painless process, save for a needle prick like for an injection, which is what it is, just on a large scale. I’ve found that for larger size it is better to wait a long time for it to settle, which it seems to do after about 9 months. 18 months seems to be the trick for the skin to fully relax and be ready for another big load (the first time I only got about 240cc in, the second time, about the same, and the third about 450). The skin becomes sensitive for quite a while, and I have had to invest in soft pants and underwear. Afterwards, the skin never slides over the cock and balls like it did before, and I can’t do any sexual gymnastics with my cock any more, since it becomes painful without lubrication, but I prefer not to use my cock anyway. The effect is fantastic, and the constant weight hanging between my legs is incredible.

T. Angel: Tattoo, piercings, implants and stretches. Some plan for future mods?
Eldge: I’m working on my ‘Embedded Form Project’ (http://www.eldjaytee.co.za/embedded_form.htm) part 1 of which should be finished by december 2012.
I am currently working on a full-body tat suit (tats on every part of my body, not 100% coverage, except for my face and the middle of my back). This year I will probably get my left leg and right hip finished. I average a visit to my artist (Simon at Wildfire in Cape Town: http://www.tattoo.co.za/html/tattoos/Simon_Gallery.html) once a month. Eventually, post-2012, I finish my back with a buddha to represent the bringing together of the project. I will probably continue with my face after that too, but I need to better establish myself work-wise first, and anyway, I don’t want to completely obscure my whole face.
Piercings come and go. I have about 22 now, and may get some more, or not, depending on my mood. I’ve stretched my nostrils to 18mm, and will probably get them to 20mm or so. My labret is at about 14mm. I got it to about 22, but it became very annoying on a daily basis, so I just let it close. I wish I could get it to 100mm, and I have huge respect for people like Jenya in Russia and Rafa in Brazil, but for me it becomes too cumbersome and painful (I think it was pierced too low), and I need unimpeded voice ability to teach. I’m re-stretching my nipples, both of which are at 10mm now, and I’ll probably stop at about 12mm, although I may just keep going to an inch or more, but they would probably split before then. I’d like to make them dangle lower, so weights rather than stretching is probably the way to go.
I want to increase the size of my breast implants to 1200cc each side by the end of 2012, and am trying to scrape the money together to do that. Unfortunately, it is rumoured that silicone implants of more than 1000cc are no longer being made (I don’t want saline, which doesn’t feel right), so I will see what can be done. I don’t know if it’s possible, but I would love to get expander implants filled with 1200cc silicone, expandable to 3 litres or more, so that I can slowly work my way up to super-large implants without having to have the expensive and painful surgeries along the way, and enabling me to stop when the size feels right, whether that is bigger or smaller than 3 litres. It is too risky to have liquid silicone injected straight into my chest, due to the proximity to my heart. I don’t want an embolism!
I hope to get another 1.2 litres of silicone in my cock and balls before the end of 2012, and then, in years to come hope to increase to about 6 litres or more, like GReg in the USA. But again, I need to establish my work and income better before that, and come to terms with being called aside every time I go through airport security! The trick will be to find and maintain a balance between my perverse desires and my real life.
For some reason subdermal or transdermal implants are low on my list, although some fun alien-esque forehead implants would be nice, as would a hyper-masculine jawline and pronounced cheekbones. Again, this is a plan for some time in the more distant future, but should I get funding for the 2012 art project I will seriously consider it sooner.
But, having said that, I’ve been very focused on the big mods for a long time, like getting huge doses of silicone in my cock and balls, and bigger boob implants and finishing my tat suit. I’m now focusing on a more holistic and less invasive progression, such as slowly getting a grill of silver tooth caps which is practically painless, and putting my tongue stud back in after many years of being without it, and letting my hair grow back again (yes, I see hairstyles as a mod too!). It feels good to focus on keeping fit and looking to my health and finding a life balance, rather than just obsessing with getting more and bigger mods, like I have in previous years. I have tended at times to forget to ‘smell the roses’. Enjoying the journey allows me to enjoy the small things again.

T. Angel: What the most interesting thing you could tell us about your research with bodies?
Eldge: Bodies are the most fascinating things. Everyone has one, none of them is the same, and none performs the same function for everyone beyond the necessary ones of eating, shitting, fucking etc, and even those experiences have different meanings for everyone. There is no such thing as ‘a body’. ‘The body’ is a construct of society and of our experiences in our own materiality. Rather, embodied experience carries meaning and value for people. In this way the physical body is just like any other object around us: it is both part of us and separate to us, and forms part of the continuum between individual consciousnesses. There is no necessary beginning or end to the body, either between body and mind, or between bodies and other bodies, or between bodies and other things. In this way, we are all connected to each other and to the world around us, whether we like it or not. When we build (or modify) ourselves, we build the world around us, and when we destroy our bodies, we destroy the world around us. So bodies (and modification) are linked to politics and ecology, economics and social welfare, and everything else. They are personal, public, political, emotional, and the only means at our disposal to exist. We should celebrate them.

*Entrevista feita originalmente em inglês e via e-mail.

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About T. Angel

No cenário da modificação corporal brasileiro desde 1997, inicialmente como entusiasta e posteriormente atuando no campo da pesquisa. Parte de seu trabalho está incluso no livro "A Modificação Corporal no Brasil - 1980-1990" e grande parte depositada aqui no FRRRKguys.com.br.