Novas reflexões sobre a modificação corporal na atualidade

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Free+Yourself(Foto: tattootheflesh.tumblr)

“É nosso dever moral, e obrigação, desobedecer a uma lei injusta.” Martin Luther King

 Um dos convidados da International Convention Tattoo Week de São José dos Campos foi o body modifier venezuelano Emilio Gonzalez. Além de cumprir com sua agenda no evento, ministrou um workshop sobre modificações corporais em São Paulo e também realizou alguns procedimentos. Nada de muito novo até aqui, desde o começo do ano 2000 Emilio tem vindo ao Brasil, participado de convenções, feito procedimentos e coisas do tipo. O que mudou? O tempo é outro, a mentalidade acerca das modificações corporais é outra, surgiu o eyeball tattoo e o workshop organizado, foi feito sem o alarde das mídias sociais. Passando o fim de semana dos eventos mencionados acima, assistimos situações que precisam ser registradas e mais que isso, refletidas, analisadas e estudadas de forma madura e consciente. Vamos aos fatos. A Associação dos Tatuadores e Perfuradores do Brasil fez publicações em sua fanpage no Facebook dizendo que o caso, isto é, a presença de Emilio Gonzalez e os procedimentos realizados, haviam sido denunciados para os órgãos de saúde brasileiros. Atualmente todas essas publicações foram deletadas da página e hoje você consegue visualizar apenas um pedido de desculpa público de Emilio. O texto diz:

Buenas onda Colegas y Profissionales del Brasil. Vengo por meio desta dizer que yo no sabia sobre legislacion brasileira sobre pigmentos, Eye Ball, dentre otras praticas invasivas y estoy muy triste con los acontecimientos…Pieço desculpa (…) por no tene-lo consultado antes sobre mi classe. No tengo nenguma intencion del atrapalhar la regulamentacion del atividad en solo brasilero, pero contrario soy un Professional tambien! Saludos y todos os Colegas del Brasil. Atenciosamente . Emilio Gonzales(sic)

Em um diálogo que acontece nos comentários da publicação acima, Emilio completa dizendo que não fará mais workshop de modificação corporal no Brasil, uma vez que o que ele faz é uma introdução sobre as técnicas de body mods, o que não possibilita que as pessoas saiam fazendo o mesmo. Bem, essa discussão também não é nova no meio, workshop é uma pequena parte da formação de um profissional e isso em toda e qualquer profissão. Mesmo aquelas não regulamentadas, como a do historiador por exemplo.

Continuando, entramos em contato com o responsável pela ATPB, afim de entrevista-lo sobre o ocorrido, mas até o fechamento desta não obtivemos retorno. Como ele sempre nos atendeu muito cordial e amistosamente, estamos certos que quando tivermos respostas para a entrevista, faremos uma publicação exclusiva. A ideia é esclarecer e o nosso objetivo é informar.

Dando seguimento, é preciso dizer que ao assistirmos o ocorrido, ficamos cheios de dúvidas e honestamente falando, com uma certa angustia. Explicaremos daqui em diante. Sentimos que existe uma corrente dentro da comunidade da modificação corporal no Brasil que é contra os procedimentos que vão além do piercing e tatuagem. Como também existe aquela ala mais conservadora que só aceita as tatuagens e até o piercing é visto, digamos, com olhares hostis. Quando falamos ser contra, estamos dizendo que existe uma corrente que tem trabalhado realmente para que essas outras práticas e técnicas – tais quais, implantes, tongue splitting, etc – sejam abolidas do país. Dito isso, há registros em diversas matérias em que fica explicito que pessoas que fazem tais procedimentos, principalmente pós eyeball tattooing, estão sendo denunciadas tanto para Vigilância Sanitária como para o Conselho Regional de Medicina. Como o caso aqui apresentado de Emílio Gonzalez.

Curioso e irônico que esse movimento esteja acontecendo dentro do próprio meio. Sempre pensamos que a qualquer momento ele poderia acontecer por parte da comunidade externa. Não está totalmente claro se estaria sendo denunciado apenas o procedimento de eyeball tattooing ou qualquer outro, tais quais implantes, tongue splits e etc. Se for todo e qualquer procedimento – que é o que nos parece – temos um problema, diríamos, bastante grande.

A gente sabe que as pessoas não vão parar de fazer o que elas querem com seus corpos por conta de leis. Repassar cada vez mais o controle do nosso corpo para o Estado é – por base – problemático. É em suma coibir de modo autoritário a subjetividade dos cidadãos, limitar a autonomia sobre si, e cercear uma prática cultural secular. Para deixar claro, não achamos que a situação do eyeball tattoo seja positiva no país, tão pouco indicamos que o procedimento seja feito, como repetidamente já falamos, em especial AQUI. Também acreditamos que mesmo nos outros tantos procedimentos que rondam as modificações corporais, o que abarca a tatuagem e o piercing, exista uma quantidade considerável de pessoas não capacitadas atuando. Estamos bem lúcidos enquanto a isso tudo. Mas ficamos angustiados em ver os rumos que a comunidade da modificação corporal brasileira está seguindo.

Essas divisões todas e guetificação dentro do próprio meio nos soa como algo estranho. Se de fato esse for o caminho a ser seguido, ou seja, tornar proibido a modificação corporal no país, damos por encerrada as nossas atividades por aqui. Passa a não existir mais motivo algum para que continuemos em atividade. Lutamos sempre pela visibilidade das modificações corporais (todas elas), pela tentativa de mostrar os bons profissionais, de criar um fluxo contrário ao preconceito e legitimar o reconhecimento destas práticas como fenômeno social e cultural.

Hoje começamos a pensar que talvez a melhor maneira de fazer com que essas práticas todas permaneçam vivas e protegidas, seja não falando mais delas. Como nos ensinou Hakim Bey sobre a resistência e potência – através – da invisibilidade, uma vez que o Estado não pode reconhecer – tão logo controlar – aquilo que não está definido. Como também fomos direcionados aos escritos do Critical Art Ensemble sobre os Citas, povo nômade-agrícola que construiu um império invisível e dominou a “Ásia” por quase três décadas. Sem deixar de lado a Modcon, que ao que nos parece teve essa característica também de sociedade secreta, tão logo, invisível. A body modification contemporânea é anárquica e é prática com raiz na contracultura, muito embora reconheçamos que ela esteja cada vez mais sendo assimilada pela cultura de massa e tão logo controlada pelo Estado, assim como os nossos próprios corpos.

O momento é delicado, se faz urgente refletirmos aonde queremos chegar e quais os meios que utilizaremos para tal.
Os fins não justificam os meios, não nos esqueçamos disso.
Longa vida as modificações corporais, todas elas.

Nota: O Fórum ‘As modificações corporais na atualidade’ que aconteceu ano passado, pode nos ajudar na reflexão. CLIQUE AQUI para ver os vídeos.

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REFERÊNCIAS

Modcon
http://wiki.bme.com/index.php?title=ModCon

TAZ – Zona Autônima Temporária de Hakim Bey
http://www.mom.arq.ufmg.br/mom/arq_interface/4a_aula/Hakim_Bey_TAZ.pdf

Distúrbio Eletrônico por Critical Art Ensemble https://we.riseup.net/deriva/disturbio

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About T. Angel

No cenário da modificação corporal brasileiro desde 1997, inicialmente como entusiasta e posteriormente atuando no campo da pesquisa. Parte de seu trabalho está incluso no livro "A Modificação Corporal no Brasil - 1980-1990" e grande parte depositada aqui no FRRRKguys.com.br.