Body modification no Brasil: Antes do eyeball tattooing e depois do eyeball tattooing

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10(Foto: Thiago Lima)

“Há três tipos de déspotas. Aquele que tiraniza o corpo, aquele que tiraniza a alma e o que tiraniza, ao mesmo tempo, o corpo e a alma. O primeiro é chamado de príncipe, o segundo de papa e o terceiro de povo”.
Oscar Wilde (1854-1900)

Esse texto é parte de algumas reflexões que temos feito ultimamente acerca da modificação corporal na atualidade no Brasil, com base em episódios importantes (nem sempre positivos) dentro do meio.
Temos a sensação de que houve uma grande mudança de comportamento na comunidade da modificação corporal após a entrada do procedimento de eyeball tattooing no Brasil, que por sinal completa apenas um ano agora no dia 12 de Outubro de 2013. Escrevemos sobre o primeiro procedimento feito no Brasil e por um brasileiro, você pode ler CLICANDO AQUI. Como também escrevemos AQUI sobre os primeiros olhos tatuados por um profissional estrangeiro, Emilio Gonzalez da Venezuela. Ambos os casos aconteceram no mesmo dia.

Para deixar clara a nossa posição se faz importante dizer que não recomendamos que o eyeball tattooing seja feito no Brasil. As justificativas poderiam ser diversas, dentre elas a de que não existe uma clareza sobre os materiais usados e tão pouco sobre a preparação de quem faz. Fizemos uma reflexão sobre a questão dos erros do eyeball tattooing no Brasil e você pode ler CLICANDO AQUI.

Mas o que realmente mudou depois que a técnica chegou no solo brasileiro é o discurso dentro da comunidade da modificação corporal. Percebemos que se construiu (ou se acentuou) algo como a criação de subgrupos – antagônicos – entre body piercers, body modifiers e tatuadores. Acima de tudo percebemos uma resistência a prática e principalmente a fomentação de um discurso quase sempre conservador. Sobre isso escrevemos algumas linhas e você pode ler CLICANDO AQUI.

O maior problema de tudo isso é que se por parte da comunidade externa – isto é, a sociedade padrão – tudo se configura em um único grupo, como alguns estudiosos gostam de chamar, uma única tribo, dentro da comunidade da modificação corporal – seja a pessoa apenas tatuada, seja a pessoa somente perfurada ou sejam aqueles que optam por implantes, escarificações ou que se convencionou chamar, técnicas extremas – existe a tentativa de normatizar (e ao mesmo tempo excluir) algumas práticas dentro de uma ideia do que é aceitável e do inaceitável.

É óbvio que o conselho de medicina vai se posicionar contra as modificações corporais. Não podemos nos esquecer da discussão do Ato Médico, como também abordamos AQUI.

Não vamos entrar no mérito da discussão da saúde pública no Brasil, mas é sabido o quão complexo é tocar nesse tema e a precariedade desse sistema brasileiro.

A exemplo de posicionamentos de conselhos médicos em relação as modificações corporais, podemos mencionar a condenação do Conselho de Oftalmologia Brasileiro em relação ao eyeball tattooing. Mas também não podemos nos esquecer que em um tempo não tão distante muitos médicos (e seus respectivos conselhos) discutiam os riscos e perigos do piercing. Prestem atenção nos discursos de antes e os de agora.
O texto escrito pelo cirurgião dentista Dr. Mauricio Bernardes que você pode ler AQUI é um exemplo. Outro texto que exemplifica o embate entre médicos e o piercing é esse AQUI. Como esse AQUI publicado pela Universidade Metodista de São Paulo. Os grandes jornais (e revistas) igualmente tocaram no assunto, como você pode ler nessa matéria AQUI da Folha de São Paulo.

Importante lembrar que mesmo a tatuagem, que hoje já foi bastante assimilada pela massa da sociedade, também foi e ainda é questionada pelos médicos. Como nos mostra o texto publicado no Brasil Medicina e que você pode ler AQUI.

Sem deixar de mencionar que atualmente o debate se acendeu por conta da regulamentação de tintas, como você pode ver nessa matéria AQUI da Band e na reportagem abaixo.

Teoricamente todos os tatuadores deveriam usar tintas apenas regulamentadas pela Anvisa. Porém, sabemos que na prática a grande maioria dos tatuadores fogem dessa regra, assim como da lei que proíbe o piercing e tatuagem em menores de 18 anos como já explicamos AQUI. Nesse sentido hoje temos um monte de “foras da lei” em atividade. Será? Será que as regulamentações e leis atendem as necessidades reais desses profissionais? Falo da maioria e não da minoria destes. Ao que nos parece não e pelo visto está bastante aquém, mas fica tudo por isso mesmo.

Deixando de lado as modificações corporais definitivas, nos recordamos que uma das primeiras reportagens que vimos sobre suspensão corporal, havia um médico alertando que a prática poderia matar. O chefe do departamento de dermatologia da USP, Dr. Luiz Carlos Cucé, inicia sua fala dizendo que as pessoas que se submetem a suspensão “têm graves desvios mentais”. O discurso segue apontando as possibilidades de rompimento de vaso, veia, artéria ou um nervo, até mesmo da possibilidade de uma hemorragia. “Pode esperar que teremos muitos acidentes nos pronto-socorros” dizia o dermatologista. Concluindo que no geral que quem ganharia com isso seriam os psiquiatras, pois segundo Cucé, quem faz suspensão é um psicopata.   Você pode assistir a matéria completa logo abaixo.

Por agora não vamos nem entrar no mérito da patologização das modificações corporais (e da vida) e dos usos do corpo, mas é importante mencionar que esse discurso existe – e não é fraco – dentro da comunidade da psicologia e da psiquiatria.

Justamente pelos dados apresentados acima que acreditamos que é preciso ponderação por parte da comunidade de modificação corporal brasileira ao condenar alguma técnica de modificação corporal, uma vez que todas são ou foram condenadas pela medicina ou pela sociedade de modo geral. Não é estranho que as pessoas modificadas são chamadas de “loucas”, ainda que muitas vezes em um tom amistoso de brincadeira. A raiz dessa ideia é o discurso normatizador e patologizador, que fique claro.

É preciso cautela ao colocar em questão o pigmento que se usa no olho, por não ser regulamentado pela Anvisa, quando sabemos – como já dissemos – que alguns tatuadores usam tinta não regulamentada. É uma realidade.

Acreditamos que é problemático tecer e construir uma opinião sobre o eyeball tattooing (ou qualquer outra modificação corporal) utilizando como base discursos médicos e principalmente de programas como os exibidos pela Record, que como sabemos são conservadores e tendenciosos. Especificamente sobre a forma que a Record aborda as modificações corporais escrevemos AQUI, pontuando as informações incorretas. Esses programas e canais de comunicação da grande mídia estão cheios de intenção. Escrevemos sobre essa questão AQUI de um caso recente com a Folha de São Paulo.

Reproduzir o texto dessa mídia como correto é em suma alimentar o discurso do opressor. Sim, pessoas que modificam os seus corpos – fora do padrão branco, ocidental, heterossexual, cisgênero, judaico-cristão – são oprimidas e estigmatizadas socialmente. Falamos sobre isso só para lembrar e reforçar o barco em que estamos.

O discurso médico sobre a prática do eyeball tattooing não é muito diferente daquele que falou do piercing, da tatuagem ou da suspensão corporal como você pode ler AQUI em um texto publicado no site da Cerpo Oftalmologia.

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Repetindo, não estamos afirmando que a tatuagem nos olhos ou que qualquer outra intervenção corporal não ofereça riscos sérios para quem se submete a passar por esses procedimentos, muito pelo contrário, reconhecemos que lidar com o corpo é sempre um risco. Que obviamente pode ser minimizado de acordo com a capacitação do profissional. Inclusive, falando especificamente do eyeball tattooing, não recomendamos que esse procedimento seja feito no Brasil como já explicamos acima. Veja bem, é uma recomendação e não imposição de ideias. É o que achamos coeso de acordo a situação atual. Compreendemos e acreditamos que cada um tenha que ter o direito de escolha, autonomia e poder de decisão sobre o próprio corpo e não o Estado.

Consideramos importante que comecemos a refletir sobre as particularidades – o que abarcam as necessidades – da comunidade da modificação corporal, principalmente dos profissionais.

O momento pede ponderação, reflexão e principalmente muita troca e suporte mútuo entre todos. O tatuador deve lutar pelos seus direitos e deveres como tatuador, sem que para isso precise atacar quem trabalha com o piercing ou com modificações extremas. O body piercer deve lutar pelos seus direitos e deveres como piercer, sem que para isso precise atacar quem trabalha com a tatuagem ou com modificações extremas. O body modifier deve lutar pelos seus direitos como modificador, sem que para isso precise atacar quem trabalha com o piercing ou com tatuagem. É preciso lembrar que apesar das aparentes subdivisões categóricas, fim ao cabo o barco em que estamos é o mesmo. Se reconhecer como classe pode ajudar a fortalecer as nossas práticas e inclusive o seu respectivo reconhecimento profissional. Não menos importante e principalmente reconhecer as nossas práticas como fenômeno social e cultural que acompanha a humanidade secularmente.

Sabemos que muitos não irão concordar com o nosso posicionamento, sabemos que podemos até estar sozinhos, mas lá no fundo estamos com a consciência tranquila, cientes do nosso papel como mídia e como formadores de opinião.

“A polícia não é a única responsável por manter a ordem do povo. O povo, devidamente treinado por instituições como escolas, igrejas, trabalho e a própria mídia, garante o seu próprio controle e o monitoramento no dia a dia. Quem sai da linha do que é visto como o padrão e o normal, leva na cabeça. Quem resolve se insurgir contra injustiças e foge do comportamento aceitável vira um pária. Sem essa vigilância invisível feita pelos próprios controlados, é impossível um grupo se manter no poder por tanto tempo e de forma aparentemente pacífica como ocorre por aqui.”
(Leonardo Sakamoto – texto completo AQUI)

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About T. Angel

No cenário da modificação corporal brasileiro desde 1997, inicialmente como entusiasta e posteriormente atuando no campo da pesquisa. Parte de seu trabalho está incluso no livro "A Modificação Corporal no Brasil - 1980-1990" e grande parte depositada aqui no FRRRKguys.com.br.