O suicídio e a comunidade da modificação corporal

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Você não está sozinho(a). Foto: reprodução / Google

“Muitas vezes elaboramos o suicídio como resultado de enorme sofrimento psíquico do indivíduo e depositamos sobre o sujeito toda a responsabilidade do ato que cometeu. Entretanto, já no século 19, o fundador da escola francesa de sociologia, Émile Durkheim, nos ensinou que toda a sociedade, com seus valores e crenças, é responsável pelas mortes voluntárias que produz.”
Vitor Angelo em “O suicídio entre jovens LGBTs”

Faço um convite para que tenhamos uma conversa madura sobre o suicídio. É urgente que a tenhamos e ao longo do texto espero corresponder com as devidas justificativas dessa minha direta introdução. Adianto que como de costume, tratarei as especificidades da comunidade da modificação corporal interseccionando com as questões LGBTQ.

Um amigo que eu amava muito se suicidou poucos anos atrás e eu honestamente não sei o quanto superei isso. Também tive um outro amigo próximo que tentou se suicidar. Como tenho uma amiga muito próxima que não esconde a sua tendência ao suicídio. Sei que não sou apenas eu que estou rodeada de pessoas que se suicidaram ou que tentaram ou que pensam constantemente na possibilidade de tirar a própria vida. Inclusive, bem antes dos casos que mencionei acima, inúmeros outros chegavam até mim por variadas vias. Alguém trazia a notícia que determinada pessoa havia se suicidado, lamentávamos com pesar e não falávamos muito sobre o assunto. O suicídio é considerado tabu. É também uma espécie de tema maldito que não devemos tocar. Um erro, um enorme erro e falo mais sobre isso adiante.

Os casos de suicídio que chegaram até mim – desde as minhas primeiras memórias até hoje – tinham motivações variadas, faixas etárias variadas, etnias variadas, classes sociais variadas, sexualidades variadas, gêneros variados, então, de tudo isso o que eu poderia concluir é que algumas pessoas não queriam mais viver e assim tiravam a própria vida.  Digo de modo meio frio agora, mas é o tipo de informação que sempre tirava o meu sono por uns dias. Exceto o suicídio do meu amigo próximo, que é bem verdade me causa desassossegos até hoje.

Um adendo importante, ainda que eu fale acima sobre a diversidade nos casos de suicídio que chegaram até mim, o que tenho percebido, estudando o tema com mais proximidade e amplitude, que é possível ver onde estão as maiores incidências. Por exemplo, entre pessoas LGBTQ, o índice maior de suicídio está na população T (travestis e trans*) que é aquela que enfrenta um cruel histórico de desumanização. Reconhecer essa informação, isto é, que determinadas populações carregam um índice maior de casos de suicídios, é importante pois nos ajuda, enquanto sociedade, a buscar tratar a base do problema de alguns casos. Entendo esse reconhecimento como a prevenção da prevenção, considerando principalmente os índices de suicídio ligados com a retirada da dignidade de determinadas populações, a exemplificar e sublinhar, a população T.

Recentemente foram publicadas duas notícias sobre a questão do suicídio e foram elas que me motivaram a escrever esse pequeno texto, além obviamente de ser um assunto que está entalado em minha garganta. A primeira delas foi publicada no dia 20 de Fevereiro de 2017 e é um estudo (em inglês) publicado na revista JAMA Pediatrics que postula que após a legalização do casamento entre pessoas do mesmo gênero, as taxas de suicídio entre adolescentes norte-americanos experimentaram uma queda significativa. Estima-se que a taxa de suicídio caiu 7% entre todos os estudantes, e impressionantes 14% entre estudantes LGBTQ. De acordo com Julia Raifman, que liderou o estudo, embora os estudantes ainda estejam no colegial e relativamente longe de um matrimônio, “permitir o casamento homossexual reduz o estigma estrutural associado à orientação sexual”. Ainda no mesmo estudo, a pesquisadora afirmou que os “formuladores de políticas precisam estar cientes de que as leis sobre os direitos das minorias podem ter um efeito real sobre a saúde mental dos adolescentes. Vindas de cima, elas podem ditar de maneiras positivas o que ocorrerá mais abaixo”.

Acredita-se – com base em pesquisas e estudos – que as atitudes negativas em relação a pessoas do grupo LGBTQ sejam a força motriz que faz com que o número de suicídio nessa população seja grande, colocando, especialmente os adolescentes, em um risco aumentado de assédio moral, bullying e agressões físicas. Uma informação fundamental é que geralmente, jovens de famílias que os rejeitam têm 8,4 vezes mais chances de tentar suicídio do que os que possuem famílias mais abertas à orientação sexual e identidade de gênero dos filhos e filhas. Percebe que preservar a dignidade de uma população tem efeito direto em sua saúde mental? Percebe que podemos modificar a base do problema? Pois é, podemos.

A nossa cultura é a de não falar sobre suicídio e com isso a sua prevenção é pouco debatida e, por falta de informação, muitas vezes as pessoas com ideação suicida não procuram um psicólogo para tratar os fatores que as levam a considerar o ato. Assim, já que na maioria dos casos o paciente não passa pela etapa de prevenção, o primeiro contato clínico que tem é com os enfermeiros de atendimento de urgência e de emergência, logo após já ter feito uma tentativa de tirar a própria vida. A relevância do profissional de enfermagem nesses casos levou o psicólogo Daniel Fernando Magrini a estudar o tema, resultando na dissertação de mestrado Atitudes dos profissionais de enfermagem que atuam em emergências diante do comportamento suicida e fatores associados, defendida na Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) da USP. Essa é a segunda notícia, publicada em 23 de Fevereiro de 2017 no Jornal da USP.

A prevenção ao suicídio deve ser um trabalho em conjunto, que me envolve, te envolve, envolve a academia e profissionais da saúde. Envolve falarmos sobre o assunto. O pesquisador Magrini, orienta ainda a deixar de lado opiniões moralistas e sentenciosas e, sob qualquer circunstância, não subestimar a ideação suicida. E completa dizendo ao Jornal da USP que “não é um comportamento passageiro. A pesquisa mostra que se a pessoa tem indícios de que quer se matar, geralmente ela se mata mesmo.”

É um assunto que fica engasgado na minha garganta, pois sei que ronda o imaginário malicioso de que pessoas que fazem muitas modificações corporais são tendencialmente e potencialmente suicidas, as palavras não são exatamente essas, mas o significado em um bruto resumo é esse. Esse imaginário inclusive está introjetado e sendo reproduzido pelas pessoas da própria comunidade da modificação corporal, em outras palavras, há uma assimilação do discurso dominante que nos coloca como doentes e nossas práticas como uma patologia que deve ser medicada, combatida e curada. Depositamos sobre o sujeito toda a responsabilidade do ato que cometeu, desconsiderando o sistema – este sim, doente – que estamos inseridos.

Ora, existe uma clara relação entre a retirada da dignidade de uma população e o suicídio, a exemplo do que colocamos sobre as pessoas LGBTQ e cabe igualmente para a comunidade da modificação corporal. Repito, salvando suas respectivas especificidades, a população ligada com as modificações corporais enfrenta um processo desumanizador muito parecido com o que a população LGBTQ enfrenta, por isso também faço essa intersecção. No que diz respeito a desumanização e privação da dignidade e sua relação com o suicídio: a exclusão do mercado de trabalho; a rejeição pela família; violência física; assédio moral; e bullying são alguns tipos de violências que podemos mencionar.  

Falando agora um pouco sobre números, segundo o relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), a cada 40 segundos, uma pessoa se suicida e, para cada vítima, cerca de 10 a 20 tentativas foram feitas. No total, a Organização das Nações Unidas (ONU) estima que o suicídio é a causa de 800 mil mortes anuais em todo o mundo, sendo que três quartos dos casos acontecem em países de média e baixa renda. Neste cenário, o Brasil se destaca com números alarmantes. Dados de 2012 colocaram o País na oitava posição entre as nações com mais casos: foram 11.821 vítimas, um aumento de 10,4% em relação ao ano 2000, se tornando a quarta maior taxa da América Latina.

Apesar dos números assustarem, pouco está sendo feito sobre a questão. Apenas 28 países possuem uma estratégia nacional de prevenção ao suicídio, segundo a OMS. No Brasil, há o Centro de Valorização à Vida (CVV), fundado em São Paulo em 1962, mas o projeto não consegue evitar, sozinho, que os casos de suicídio aumentem no País.

 Por fim, agrupar todas essas informações embasadas em extensas pesquisas, é dizer que nós precisamos melhorar enquanto comunidade e sociedade, inclusive para colaborarmos com a prevenção e redução das taxas de suicídio. Temos que parar de afirmar que pessoas que fazem modificações corporais extremas são mais propensas ao suicídio, como se isso fosse uma espécie macabra de caminho natural das coisas, de etapa ou parte desse processo. Temos que parar com esse discurso por ele, sobretudo, negar a violência que esses corpos e subjetividades enfrentam diariamente. Temos que parar pois, novamente dizendo, com esse discurso depositamos sobre o sujeito toda a responsabilidade do ato que cometeu, não levando em consideração o contexto. Temos que parar, pois quando reproduzimos esse tipo de pensamento, endossamos o discurso dominante que patologiza e demoniza nossos corpos e subjetividades e que tempos atrás teria o poder legitimado – e amparado nas leis – de nos jogar em algum manicômio e tempos um pouco mais atrás na fogueira. Temos que parar, por favor, precisamos parar.

Eu poderia fazer uma lista infinita de pessoas públicas que se suicidaram nos últimos anos e que não tinham implantes na testa, tatuagem no rosto e milhares de piercings espalhados pelo corpo. Eu sei que no fundo você sabe disso também, então, por favor, vamos parar de colocar os nossos preconceitos e nossos julgamentos morais sobre o que um corpo pode ou não, para tratar de um assunto tão delicado.

Ao redor do mundo a cada 40 segundos uma pessoa tira a própria vida. Eu, você e toda a sociedade tem o poder para mudar isso. Promover a dignidade das pessoas é ao mesmo tempo valorizar as suas vidas.

 
FONTES
Difference-in-Differences Analysis of the Association Between State Same-Sex Marriage Policies and Adolescent Suicide Attempts
http://jamanetwork.com/journals/jamapediatrics/article-abstract/2604258

Teenage Suicide Attempts Fall In The US After Same-Sex Marriage Is Legalized
http://www.iflscience.com/health-and-medicine/teenage-suicide-attempts-fall-in-the-us-after-samesex-marriage-is-legalized/

Same-Sex Marriage Legalization Linked to Reduction in Suicide Attempts Among High School Students
http://www.jhsph.edu/news/news-releases/2017/same-sex-marriage-legalization-linked-to-reduction-in-suicide-attempts-among-high-school-students.html?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed%3A+JHSPHNews+%28Public+Health+News+Headlines+from+Johns+Hopkins%29

Suicídio entre jovens gays cai após legalização do casamento gay
http://www.jornalciencia.com/suicidio-entre-jovens-cai-apos-legalizacao-do-casamento-gay/

Casos aumentam, mas profissionais ainda não sabem lidar com suicídio
http://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-da-saude/casos-aumentam-mas-profissionais-ainda-nao-sabem-lidar-com-suicidio/

 

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About T. Angel

No cenário da modificação corporal brasileiro desde 1997, inicialmente como entusiasta e posteriormente atuando no campo da pesquisa. Parte de seu trabalho está incluso no livro "A Modificação Corporal no Brasil - 1980-1990" e grande parte depositada aqui no FRRRKguys.com.br.