Pessoas com deficiência, a dança e a suspensão corporal

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Fotos: Gal Oppido

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“Em outros momentos históricos (mesmo que ainda hoje isso possa acontecer), as pessoas com deficiência estavam “enclausuradas” nos hospitais psiquiátricos, nos asilos, nos manicômios, sendo-lhes negada a possibilidade de exibirem seus corpos e expressarem as suas sexualidades aos olhos da sociedade”
(CAMPOS, 2013, p.137)

Antes de começar a ler esse texto, por favor, assista o pequeno documentário abaixo. É importante como forma de orientação e de contextualizar o assunto e principalmente conhecer sobre as pessoas que falaremos adiante.

“Um corpo não é apenas um corpo. É também o seu entorno. Mais do que um conjunto de músculos, ossos, vísceras, reflexos e sensações, o corpo é também a roupa e os acessórios que o adornam, as imagens que dele se produz(em), as máquinas que nele se acoplam, os sentidos que nele se incorporam, os silêncios que por ele falam, os vestígios que neles se exibem, a educação de seus gestos… enfim, é um sem limites de possibilidades sempre reinventadas e a serem descobertas.”
(GOELLNER, 2003, p.29)

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A suspensão corporal é uma das possibilidades de usos do corpo com uma potência transformadora e o melhor, está disponível para toda e qualquer pessoa que tenha interesse em passar por essa experiência. Todas de verdade, o que inclui pessoas com deficiência. É uma prática tão poderosa que pode transformar a vida de quem faz a suspensão e também de quem assiste. Talvez essa seja uma hipótese de sua expansão e longo alcance na contemporaneidade.

Na terça-feira (06) o body piercer profissional Luciano Iritsu trabalhou em um desses casos especiais, que nos faz rever tudo aquilo que pensamos que o corpo e a suspensão podem. Se não fizer rever conceitos, pelo menos tirar boas horas para refletir sobre tudo isso, isto é, as reinvenções e descobertas do corpo.

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Os bailarinos Marcos Abranches e Ale Bono Vox estão focados no desenvolvimento de sua nova obra. A dupla que é de São Paulo, já vem trabalhando junta há alguns anos e dessa vez buscaram a suspensão corporal como técnica corporal para as suas danças. Ambos com paralisia cerebral, ela cadeirante, nos mostram que o corpo pode mais do que o discurso médico, normatizador e de senso comum diz.

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Dentro da arte contemporânea – principalmente na performance art – a suspensão corporal em si tem sido utilizada como obra, a exemplo podemos citar Stelarc, que é inclusive um precursor nesse recorte. No entanto, uma série de outros artistas – a qual me incluo – passam a utilizar a suspensão corporal como técnica, sendo assim, uma parte da obra e não a sua totalidade. Em meus trabalhos com suspensão corporal tenho buscado criar danças, explorando a condição do corpo sustentado por ganchos na pele. Ale e Marcos parecem que seguiram o mesmo caminho, pensando aqui que é a dança a linguagem que ambos vem trabalhando. Os seus corpos em si já possuem uma gama de repertório de movimentos, dessa vez ampliados com a possibilidade de ganhar a posição vertical e o ar.

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A nova obra da dupla ainda não tem data de estreia, mas obviamente que iremos divulgar por aqui. Haverá um vídeo também desse momento e já estamos ansiosos para assistir.

Abaixo vamos compartilhar na íntegra o depoimento de Luciano Iritsu, que ficou responsável pela execução do trabalho. Sua fala reafirma a ideia das potências dos corpos – todos eles – e da prática da suspensão corporal.

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“Difícil escrever em palavras, mas vamos lá… Desde a primeira vez que nos encontramos foi tudo muito natural. Terminamos a primeira reunião e saímos da Galeria Olido. Acabou que eu estava conversando com a Ale, peguei a cadeira de rodas e sai pilotando. Nunca havia guiado uma cadeira de rodas antes… Os lugares que passei, as “dificuldades” que havia passado, nunca tinha tido antes, tudo muito novo. Andei pelas calçadas do centro de São Paulo e parecia um trator, chacoalhava muito, parecia que ela iria cair da cadeira. Chegamos no estacionamento, fomos colocá-la dentro do carro, percebi que tinha algumas pessoas olhando e certamente pensando “coitadinha, está numa cadeira de rodas”. Esse era um dos meus pensamentos quando eu via esses corpos, mas quando você está convivendo com maior proximidade, a coisa se transforma. O tempo se torna relativo porque simplesmente você tem que fazer. Está ali e tem que ser feito, o momento está existindo. Quando fui colocar a cadeira de rodas no porta mala, o Marcos disse que não precisava de ajuda e o vi colocando de outra forma, diferente do que uma pessoa “normal” colocaria.

No meu segundo contato foi quando eu conheci a mãe da Ale, porque ela tinha dúvidas sobre a suspensão e queria uma boa conversa sobre o assunto. Pude deixá-la tranquila quanto ao procedimento e depois disso agendamos o grande dia no Gal. Espaço onde eu já havia feito algumas suspensões e o Gal que iria filmar, sou fã do trabalho dele, das suas fotografias voltadas para o corpo e tal.

Antes disso fiquei pensando na suspensão da Ale, como iria proceder tecnicamente, por fim, desencanei e fui nos meus sentidos. Fui sentindo a pele, percebendo qual era a elasticidade, qual era a posição que ela ficaria mais confortável e quando chegamos no estúdio, a primeira coisa que o Marcos me disse é que queria subir também. Fiquei ansioso em dobro.

Chegou a hora, antes disso a Ale havia dito que estava muito feliz e que era um sonho pra ela. Fui montar as coisas e como eu disse antes pra ela, o foco estava todo voltado e concentrado pra ela. Suspensão é isso, né T.? Você sabe…

Fiz a marcação com ela na cadeira de rodas e fizemos as perfurações no chão. Todo processo que você conhece, respiração, pupilas dilatadas, ganchos colocados e voltamos para a cadeira. Ela entraria em cena levando a cadeira e o Marcos a conectaria. Deixando que ela ficasse sozinha, para que pudesse movimentar e sentir seu próprio corpo. Nesse momento o seu semblante era tranquilo, sem nenhuma interrogação e foi… Subindo com toda delicadeza e leveza saindo da cadeira de rodas sozinha. Nunca tinha saído antes, ficado em pé. Subiu e logo seu sorriso fazia parte do momento. Estava presente e isso é o mais importante. Parecia muito leve e se divertiu bastante. A coloquei com os pés no chão, ela ficou sem auxílio de nada, apenas ela e os ganchos Aproveitamos para tirar fotos todos juntos, todos estávamos em êxtase. Perguntava para a Ale se ela queria ir para cadeira e recebia um não. Colocamos a Ale em pé pela primeira vez na vida.

Chegou a vez do Marcos. Preparamos, limpamos e acho que ele sentiu um pouco mais os ganchos, porque os homens são mais razão do que as mulheres, que são mais coração. Fomos para a suspensão, ele subiu meio tenso, demorou um pouco para relaxar, lembrando que ele é mais razão… Por fim, foi tão intenso quanto a Ale.

São duas pessoas super especiais, não estou dizendo pelo corpo e sim pela alma. Eles são intensos, acho que não existe dificuldade em nada, existe a falta de vontade de querer fazer algo.
Teve um momento que fui descendo o corpo do Marcos com os pés no chão e ele ficou na horizontal e quase beijou o chão. Por ser dançarino ele tem o abdômen muito forte e ficou linda a cena também. Me lembrou um pouco você que dança suspenso. Fazia movimentos usando o gancho como ponto fixo e foi lindo. Até chegar no momento que ele tinha cansado, descemos, nos abraçamos e foi lindo tudo!”

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Um lindo registro que esperamos que possa reverberar entre tantas outras pessoas que sempre tiveram interesse em experimentar a suspensão. Há muito para descobrir, e parafraseando Morus, “assim aspiro, muito mais do que espero“.
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About T. Angel

No cenário da modificação corporal brasileiro desde 1997, inicialmente como entusiasta e posteriormente atuando no campo da pesquisa. Parte de seu trabalho está incluso no livro "A Modificação Corporal no Brasil - 1980-1990" e grande parte depositada aqui no FRRRKguys.com.br.