“Toda ofensa feita sobre a nossa estética só expõe a sua falta de ética sobre a plenitude da vida.”
Manifesto Freak
“O fio da faca que esquarteja, ou o tiro certeiro nos olhos, possui alguns aliados, agentes sem rostos que preparam o solo para esses sinistros atos. Sem cara ou personalidade, podem ser encontrados em discursos, textos, falas, modos de viver, modos de pensar que circulam entre famílias, jornalistas, prefeitos, artistas, padres, psicanalistas etc. Destituídos de aparente crueldade, tais aliados amolam a faca e enfraquecem a vítima, reduzindo-a a pobre coitado, cúmplice do ato, carente de cuidado, fraco e estranho a nós, estranho a uma condição humana plenamente viva. Os amoladores de faca, à semelhança dos cortadores de membros, fragmentam a violência da cotidianidade, remetendo-a a particularidades, a casos individuais. Estranhamento e individualidades são alguns dos produtos desses agentes. Onde estão os amoladores de faca?”
Luiz Antônio Baptista, A atriz, o padre e o psicanalista – os amoladores de faca
Precisamos começar essa conversa com pelo menos algo já resolvido: toda estética é política, toda política é estética. Viremos a página. Podemos?
ADENDO: Mas leia o texto todo se perguntando quem são e onde estão as/os amoladores de faca.
A comunidade freak é o nosso lugar de situação e atuação. Nesse sentido, a nossa aparência e estética – individual e coletiva, ambas políticas – sofrer micro e macro agressões faz parte do cardápio oferecido pelo sistema e que precisamos aprender a lidar desde os nossos primeiros passos enquanto pessoas e monstruosidades dissidentes. Costumeiramente as violências e discriminações iniciam nas famílias – instituição disciplinar por excelência – e, enquanto um padrão da normatividade compulsória, rebate em todas as outras instituições como escola, igreja, trabalho, Estado. Etc, etc, etc…
No entanto, ataques contra a aparência acontecem com qualquer grupo de pessoas que escapam daquilo que foge do crivo da normatividade. Pessoas com deficiência, gordas, trans, travestis, não-bináries, pessoas albinas, com vitiligo, manchas e formas corporais outras, estão sempre com um alvo em suas cabeças para esses ataques vis e perversos. Os amoladores de faca estão sempre atentos. E é disso que pretendemos falar.
Pensando a comunidade freak, nunca podemos esquecer que a extrema-direita nos odeia e utiliza a nossa aparência como parte de seus ataques que variam entre a patologização, marginalização, satanização e criminalização. Sugerimos a leitura do texto A manutenção do preconceito contra as modificações corporais através do discurso da direita que publicamos aqui em 2014. Todavia, a esquerda – supostamente progressista e aliada – não tem demonstrado ser diferente, ao contrário… Uma parte significativa da esquerda tem se apresentado enquanto avessa de qualquer pensamento genuinamente progressista. A esquerda – quando se trata de algumas dissidências e aparências, por exemplo, como as que trataremos aqui – é igual ou tão conservadora e reacionária quanto a extrema-direita. E ou a gente tece autocrítica, aponta a falha ou vai seguir perpetuando regimes de violências contra certas populações.
ADENDO: Nós estamos radicalmente à esquerda.
Casos recentes de ataques contra pessoas de distintas dissidências ou que apenas são/têm um corpo com outras marcações reforçam a necessidade do debate, tratemos alguns apenas para dar corpo ao assunto. Você ainda está pensando sobre as/os amoladores de faca?
ANDREONE MEDRADO
Em dezembro de 2025, o deputado Nikolas Ferreira (PL) da extrema-direita pagou R$ 30.000,00 para psicóloga Andreone Medrado por ofensas racistas e transfóbicas. Andreone é uma psicóloga com doutoramento pela Universidade de São Paulo – USP, autora de diversos livros, tem contribuído muito com os debates sobre colonialismo e transgeneridade. O deputado de inclinação fascista, publicou em 2024 uma imagem da psicóloga em suas redes sociais que contam com milhões de seguidores – amoladores de faca e potenciais esfaqueadores – atacando a sua aparência enquanto uma travesti negra. As advogadas da Andreone apontaram que o parlamentar insultou a psicóloga e fez insinuações infundadas sobre seu trabalho a fim de mobilizar sua base para atacá-la, o que foi justamente o que aconteceu. Nesse caso, a justiça foi feita, mas as marcas das agressões ficam impressas no corpo, ainda que vocês não vejam.

ATENA ROVEDA
Em janeiro de 2025 publicamos aqui o texto Vereadora Atena denuncia violências e ataques sofridos por conta de suas modificações corporais. Atena Roveda é uma vereadora de Porto Alegre pelo PSOL. É uma travesti, escritora e tem muitas modificações corporais. Tem um trabalho aguerrido de militância para além da causa trans, de suma importância para sociedade. No entanto, a sua aparência não é boa o suficiente para que a sociedade a respeite. Não importa a contribuição que ela traga ao mundo, o seu corpo travesti e rabiscado será sempre o local que partirá muitas agressões. Os amoladores de faca sempre estão famintos – por banalidade do mal – em suas mediocridades tacanhas.

JACQUELINE MUNIZ
Em outubro de 2025 assistimos com horror e pesar a chacina nos complexos da Penha e do Alemão, cometido pela polícia do Rio de Janeiro. A antropóloga Jacqueline Muniz que é professora do Departamento de Segurança Pública da Universidade Federal Fluminense foi convidada pela Rede Globo (e outras emissoras) para comentar o caso. Desde que apareceu pela primeira vez, se tornou alvo de ataques por conta de sua aparência – cabelo curto alaranjado, inúmeros brincos nas orelhas e braços tatuados – e por condenar o ataque que ocasionou a morte de mais de uma centena de pessoas. É como, para essas pessoas, se o seu corpo negasse/anulasse a sua potencialidade intelectual. A professora em suas redes sociais pontuou que estava sendo alvo de campanha de ódio e violência. Mesmo com mais de 30 anos de estudo e trabalho voltado para segurança pública brasileira, sendo referência nacional, o episódio fez com que a professora entrasse em um programa de proteção após receber ameaças de morte. Tem quem amola a faca e tem quem deseja cravar a facada, os dois caminham juntos.

MARIANO BARBACID
Em Janeiro de 2026 passou a ser divulgado a evolução de um estudo importante envolvendo o câncer de pâncreas, considerado um dos piores e mais agressivos tumores. O grupo do chefe de pesquisa é o bioquímico molecular espanhol Mariano Barbacid. Premiado internacionalmente desde 1984 por conta suas contribuições para a ciência e sendo reconhecido pelo seu trabalho promissor no combate ao câncer, não eliminou o fato que uma parte da sociedade escolheu se concentrar em atacá-lo e menosprezá-lo (incluindo seu trabalho) por conta de sua aparência. Em seu rosto, Barbacid tem uma grande marca de nascimento avermelhada, causada por uma condição vascular congênita. É esse nível medíocre de sociedade que temos. O pesquisador está apenas nos levanto para cura de um câncer, mas sua aparência não é boa o suficiente para as/os amoladores de faca. Ainda que seja um homem branco, europeu e cisgênero.

PESSOAS TRANS NA EDUCAÇÃO
Em 29 de Janeiro, Dia Nacional da Visibilidade Trans, a Carta Capital publicou uma matéria intitulada Ser trans nas escolas. Participam das entrevistas o rapper e educador Jupitter Pimentel, o inspetor escolar Alexandre Santos e a professora T. Angel. São três pessoas trans que estão na intersecção com a categoria freak, isto é, além de não serem cis, os seus corpos carregam modificações corporais não hegemônicas e visíveis. Pronto, os comentários nas redes sociais sobre a matéria se misturam no lamaçal entre transfobia, desconhecimento e o ódio medíocre pelas corporalidades e subjetividades que não atendem a normatividade compulsória. Grave, uma vez que a matéria da Carta Capital foi publicada no mesmo momento em que o Dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais – ANTRA foi divulgado e coloca o Brasil ainda como o país que mais mata pessoas trans e travestis. Quem se importa?
Grave porque parte dessa esquerda a qual estamos criticando, apontam que as corporalidades e subjetividades de Jupitter, Alexandre e T. Angel são munições para a extrema-direita e que diretamente – por serem como são – serão responsáveis pela eleição de bolsonaros e toda variedade de fascistas que se candidatar.
O que esses grupos – amoladores de faca – estão dizendo é que Juppiter, Alexandre e T. Angel não existam como são ou que, se existirem, sejam aprisionades nas tradições de silenciamento, apagamento e invisibilidade. Em que esse tipo de pensamento se diferencia das ideologias da extrema-direita e das vidas fascistas?
Se você considera que políticos da extrema-direita e fascistas são eleitos pela existência de pessoas trans, travestis e não-bináries que não atendem a cartilha da norma, você é parte do problema e é diretamente responsável por cavar mais fundo o buraco da miséria que estamos. Você é uma/um amolador de faca.
Se você se considera de esquerda e progressista e é incapaz de se solidarizar e defender uma classe trabalhadora que historicamente tem sido negada de existir, você é parte do problema e se espirrar duas vezes cai para a extrema-direita. Amolador de faca é isso que você é e é em você que ele está. Não olhe para o lado, não aponte para o outro, olhe para si.
Paulo Freire já nos avisava que se a educação não é libertadora o sonho do oprimido é ser o opressor, as esquerdas precisam retomar as leituras de Freire e incluir pessoas dissidentes nesse bojo e repertório.
É preciso exterminar o amolador de faca que habita em você, considerando sua “presença camuflada do ato genocida”. São genocidas, como afirmou Luis Antônio Baptista, pois “retiram do ato de viver o caráter pleno de luta política e o da afirmação de modos singulares de existir“.
Nós precisamos falar sobre isso.
