Catraca Livre remove matéria maliciosa após revolta da comunidade da modificação corporal

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“A imprensa é tão poderosa no seu papel de construção de imagem que pode fazer um criminoso parecer que ele é a vítima e fazer a vítima parecer que ela é o criminoso. Esta é a imprensa, uma imprensa irresponsável. Se você não for cuidadoso, os jornais terão você odiando as pessoas que estão sendo oprimidas e amando as pessoas que estão fazendo a opressão.”
Malcolm X

 

“Para o opressor qualquer revolta do oprimido é sempre radical e exagerada.” 
Wernner Lucas

 

Há momentos históricos que precisam ser sublinhados, reforçados e, principalmente, tratado com bastante carinho para que não caia no esquecimento. Hoje falaremos de um deles, que tomou corpo ontem e hoje no ambiente eletrônico.

Uma parte da imprensa nas últimas décadas vem escrevendo as maiores atrocidades sobre as práticas de se alterar o corpo. Sobre isso o psicanalista italiano radicado no Brasil, Contardo Calligaris (1948), já havia chamado a atenção em seu livro Crônicas do individualismo Cotidiano em 1996. Analisando como a imprensa tratava as modificações corporais, ele diz:

“Engraçado que tudo isso chegue agora em tantas conversas. Pelo menos em Nova York, e espalhe-se na imprensa, quer seja em um tom de horror (“Olha o que estão fazendo com seus próprios corpos!”) ou com um tom de menosprezo (“Ah, são só um bando de marginais, primitivos modernos, alienados ou rejeitados por uma América que se torna cada vez mais exclusicamente high-tech”).

 

A imprensa disse – e vem repetindo quase sempre o mesmo falacioso discurso – e a comunidade da modificação corporal, quase sempre, assumiu um estado de passividade. Algumas pessoas reclamavam dentro de quatro paredes, outras se angustiavam caladas e tantos outros davam de ombros. O grande problema de dar de ombros é que essa mesma imprensa é responsável por formar a opinião da massa. Não bastando isso o nosso silêncio poderia demonstrar, não somente passividade, como quiçá, que poderíamos de alguma forma consentir com o que estava sendo dito (e algumas pessoas realmente consentem!). Ou que então não tínhamos o direito de reclamar, subentendendo-se que, este o preço que temos que pagar, uma vez que interferimos  em nossos corpos e rompemos com os dogmas, padrões, modelos e ditames culturais da cultura do corpo. Em outras palavras, culpabilizar o oprimido pela opressão.

 

Também poderia ser visto como assinar um contrato social de que nossos corpos são abjetos e objetos de deplorável análise, chacota e depreciação. Como se as nossas práticas, que são seculares, não fossem parte da cultura humana, que nunca há de ser mono e sim plural e transversal. Ainda, fazendo-nos crer que não superamos totalmente o discurso científico-médico do século XIX, responsável por segregar todas as pessoas que não estivessem dentro da lógica da normatividade física, sexual, estética e subjetiva. Sobretudo, e isso é importante que não nos esqueçamos também, esse mesmo discurso foi responsável por transformar corpos com deficiência ou corpos não brancos, não heterossexuais, não cisgênero e não ocidentais em atração de show de horrores. Já que falamos da importância da memória, recordemos de Saartjie “Sarah” Baartman (1789-1815) colocada como atração de circo por conta de seu corpo africano e rememoramos também o inglês Joseph Carey Merrick (1862-1890), que também se tornou figura de circo por conta de seu corpo deformado pela neurofibromatose tipo I. Além deles, tantos e tantas outras.

Dito isso, há de se dizer que estamos rompendo com o silêncio e aprendendo a defender as nossas práticas, que são culturais. No ano passado tivemos o nosso primeiro duelo direto com o jornal Folha de São Paulo. Sem muito apoio, para não dizer que estávamos completamento sozinhos, confrontamos a matéria maliciosa publicada por eles. O jornal por sua vez não só não se retratou como sugeriu que a culpa fosse nossa, isto é, das pessoas modificadas. Você pode reler sobre isso CLICANDO AQUI.

No último dia 18, o site Catraca Livre fez uma matéria completamente equivocada sobre a tatuagem no olho. No mesmo ato começamos a enviar notas de repudio e pedir apoio da comunidade. Foi quando o silêncio se quebrou. Muitas pessoas – não só da comunidade da modificação do corpo, mas também simpatizantes – começaram a se manifestar contra o Catraca Livre, enviando notas de repudio pelas redes sociais e diretamente por e-mail. A mobilização foi bonita de acompanhar. Muitas palavras de ordem, outras tantas sobre o direito sobre o próprio corpo e sobre respeito e liberdade.

Hoje recebemos uma carta formal comunicando que a matéria havia sido removida e um pedido padrão de desculpas. Reproduzimos as palavras abaixo:

“Pedimos desculpas por quaisquer inconvenientes causados pela matéria feita em nosso site.

Agradecemos as orientações. Com a ajuda de leitores como vocês podemos melhorar cada vez mais nosso serviço, para contribuir com cidades mais acolhedoras, criativas e educadas.
Assim que percebemos o que não estava correto, retiramos e conversamos internamente para que o ocorrido não se repita.”

Comemoramos ao ver essa resposta, como não poderia deixar de ser. Ela fala não só sobre respeito com as nossas práticas, mas com o direito de sermos tratados com dignidade. Essa resposta – que não é somente textual, mas também simbólica – fala sobre mobilização e trabalho coletivo. Fala sobre lutarmos quando – e enquanto – for preciso, não para censurar a imprensa, mas para que a autonomia que temos sobre os nossos corpos não seja subjugada.

Pela primeira vez na história da modificação corporal do Brasil aconteceu esse enfrentamento direto e coletivo. É um episódio novo, mas estamos certos que será potencialmente frutífero. Todas as pessoas ganham com isso, inclusive aquelas que acham que não temos razão em nossa revolta e também aquelas que defendem seletivamente a autonomia dos seres humanos.

Que não mais nos calemos diante de nenhuma injustiça e opressão propagada pela imprensa, seja ela qual for, inclusive da própria comunidade da modificação do corpo. O nosso barulho precisa ser ideológica e intelectualmente ensurdecedor. Assim o será!

Força!

 

catraca

 

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