Diário da Manhã de Goiânia e o discurso leviano sobre a prática da suspensão corporal

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Foto: reprodução Diário da Manhã

Sem Título-1(Atenção ao destaque que fizemos com a palavra “masoquismo”)

Por muito tempo acreditei que a imprensa nacional – e falarei desta porque é a que está presente em minha realidade – e os seus respectivos profissionais do jornalismo pudessem estar desinformados acerca dos assuntos que rondam os diferentes usos do corpo, a exemplo, a suspensão corporal. Hoje, sem muitos rodeios e firulas, percebo que se trata mesmo é de um mau-caratismo. Afirmo que se trata de um problema de caráter pelo excessivo esforço em se reproduzir estigma e ao mesmo tempo silenciar práticas e grupos historicamente marginalizados, distorcer informações e forjar um ambiente de informação torpe.

Na última segunda-feira (20) o jornal Diário da Manhã de Goiânia publicou uma matéria sobre suspensão corporal falando do trabalho da equipe Valkirias com o título “O prazer da dor”. O jornalista responsável que assinou o texto foi Saulo Humberto.

É muito visível a obsessão do jornalista com a questão da dor. A palavra está presente no título, nos subtítulos e aparece diversas vezes ao longo do texto. É uma tentativa explícita de limitar e reduzir uma prática cultural secular (dado que ele simplesmente ignorou) a uma única sensação psicofísica humana: a dor. O que piora quando somamos ao fato do jornalista não demorar em relacionar a dor com doença, mais precisamente com algum tipo de distúrbio psicológico. Mas nem nisso ele inovou, apenas reproduziu o mesmo discurso patologizante que vem sendo feito pela imprensa desde a década de 70 do século passado. Talvez lá naquele tempo faltava informação, faltava internet, faltava até mesmo pessoas praticando a suspensão no ocidente, mas hoje? O que me parece mesmo é que hoje faltou bom senso e aula de ética no curso de jornalismo em que o Saulo Humberto frequentou.

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Sem Título-3(Atenção ao destaque que fizemos com as palavras “dor” e “doença”)

Falo que a matéria é tendenciosa, leviana e torpe porque a responsável pela equipe de suspensão, Alessandra Favorito, teve uma conversa com o jornalista. Inclusive, reproduzimos abaixo trechos em que ela conta sobre distorções que aconteceram em outras situações, na tentativa inclusive de se criar um material que tenha alguma utilidade, positivamente falando. Que pelo visto, não foi o caso.

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Falo que faltou caráter do jornalista Saulo Humberto pela tentativa de criar um material pejorativo e que reduz uma prática cultural super complexa à um CID (Classificação Internacional de Doenças). Ainda, porque ele ignorou tudo o que ele vivenciou durante a jornada de suspensão, porque ele ignorou tudo o que ele ouviu de Alessandra Favoritto, porque ele ignorou a denúncia dessas pessoas dizendo que são vítimas de preconceito social e, não só isso, destacou palavras como “dor”, “doença” e “masoquismo” para reforçar todo o tipo de preconceito que já existe e duplamente violentar simbolicamente essas pessoas. Houve um mau-caratismo porque inclusive nas chamadas menores ele passa uma informação mais “polêmica”, para que quem sabe o texto fosse mais vendável. Cito especificamente o momento em que ele fala que Amanda Morbeck começou a se suspender aos 14 anos de idade, e depois perdido no meio do texto ele cita que aos 14 anos a estudante começou a se interessar pela prática.

O Diário da Manhã e o jornalista Saulo Humberto erraram não só por criarem uma matéria leviana, mas por negarem a suspensão corporal como prática cultural possível. No mínimo, deveria acontecer uma retratação para amenizar o dano causado.

Para concluir, na data de hoje o Valkirias Equipe de Suspensão publicou uma nota de repúdio ao jornal Diário da Manhã. São com as palavras deles que encerramos essa matéria:

“Eu como integrante do grupo Valkirias e protagonista da matéria em questão fui entrevistada, contei um pouco sobre nossas atividades e não poderia ficar mais descontente com o resultado. Sou amante da suspensão corporal e me senti extremamente ofendida com a matéria divulgada pelo Diário da Manhã no dia 20 de Outubro de 2014, editor Marcelo Mendes e jornalista Saulo Humberto, com o qual tive uma conversa prévia sobre a entrevista e entramos em um acordo. Como integrante de um grupo cujas atividades são restritas a um número razoavelmente pequeno de pessoas procuro aproveitar bem as oportunidades de divulgação de nosso trabalho e quando elas ocorrem procuro observar de perto os resultados e eventuais desdobramentos dessa abertura. Para mim, mais importante do que alavancar o alcance das práticas do meu grupo é desmistificar impressões pontuais sobre nossas práticas. Sabe-se que a suspensão, assim como outras atividades de intervenção e modificação corporal, salvo sob raras e felizes exceções, são estigmatizadas e quando publicizadas geralmente são feitas sob o modelo tradicional da mídia: a patologização.
Após várias explicações sobre como a suspensão é, para nós, algo que respeitamos e que costumamos fazer em privado, muitas vezes como rito de passagem, experiência única e pessoal, o jornalista pareceu entender e concordei em dar a entrevista no dia 10 de outubro, durante uma jornada.
Recebemos bem a equipe logo de manhã, que registrou suspensões feitas à sombra de uma árvore, em um encontro de amigos e me entrevistou. Infelizmente, a maioria das pessoas cai nesse clichê de que a suspensão corporal é coisa de gente louca, é doença. Explico: é claro que o grande público do jornal Diário da Manhã não está familiarizado com a ideia de suspensão corporal, explicar do que se trata e contextualizá-los sobre o assunto é um ponto mais do que positivo para o veículo, o problema é que a reportagem em sua segunda metade descamba para a velha fórmula de enquadramento daquilo que não é comum e a partir daí entram as opiniões médicas, as teorias, do tipo escolha a sua, de Freud (até quando?) e a patologização. Entendo que é difícil para as pessoas imaginar algo diferente a respeito da suspensão daquilo que é mostrado na TV, de forma sensacionalista. Nosso foco não é o sangue, é a superação de limites, é o autoconhecimento, é a emoção, o divertimento, a física, a anatomia, a paixão.

As falas dos médicos citados aparentemente se contrapõem, Ledismar José da Silva carimba os adeptos da suspensão e os coloca na fila imaginária dos consultórios e das farmácias e Fernando Elias Borges emite uma opinião mais amena, porém é por meio de um jargão presente na fala do segundo médico que constatamos o principal problema dessa reportagem, a necessidade da fala de uma autoridade da saúde para atestar ou não nosso comportamento como sadio ou doentio.
O tom da reportagem e o posicionamento do neurologista deixam claro: se a busca pelo prazer se tornar prejudicial a vivência social é necessária ajuda profissional. Ora, a fala é genérica, mas sua aplicação não. Substitua aí a suspensão por qualquer outra atividade prazerosa – lembrando que esse é um conceito subjetivo e individual. Bem, ler poesia, jogar videogame, estourar plástico bolha, assistir TV. Agora imagine que a/o adepta/o de qualquer um desses fazeres resolva dedicar a ela um tempo considerado excessivo e por isso deixe de lado coisas como ir à escola, escovar os dentes, falar com pessoas.
Pois bem, não é preciso dizer que a pessoa que apresenta os sintomas acima ganhará de dez entre dez profissionais que cuidam das faculdades mentais um CID, uma prescrição, um lugar no divã. Agora procure se lembrar, em quantas reportagens sobre saraus; convenções de animes; grupos de discussão sobre cinema, você encontrou falas de médicos atestando ou não os eventos ou declarando sãs ou doentes as pessoas que participavam? Esse tipo de carimbo médico é presença garantida em matérias sobre modificação corporal, tatuagem, suspensão e etc. O resultado é infelizmente um desserviço para os adeptos dessas práticas já tão visadas. O que eu quero dizer é que a opinião de médicos só aparece quando se trata de algo desconhecido pela sociedade, onde cabe preconceito e aumenta a estigmatização da relação pessoal com o próprio corpo.
É esse o lugar que recusamos, o lugar de pessoas marcadas pelas impressões alheias, o lugar da doença, do desvio e do desvario.

Atenciosamente, Alessandra Favoritto.”

 ENVIE UMA NOTA DE REPUDIO E PEDIDO DE RETRATAÇÃO AO JORNAL DIÁRIO DA MANHÃ
Editor: marcelomendesdm@gmail.com

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