Os primeiros globos oculares tatuados no Brasil começam a surgir

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O dia 12 de outubro de 2012 foi marcado pelo primeiro registro de tatuagem no globo ocular no Brasil. Marco duplo, uma vez que tivemos também o primeiro brasileiro se aventurando na aplicação do procedimento.
A notícia chegou rapidamente ao facebook e confesso que ao vê-la o sentimento de preocupação foi maior do que qualquer outro. Shannon Larratt aparentemente teve a mesma sensação que eu e escreveu que se sentia feliz e igualmente nervoso.
Acho que essa mistura de sentimentos sempre vai existir na comunidade da modificação corporal, a cada novo procedimento que surgir e principalmente variando o seu grau de dificuldade e delicadeza.
Hoje é muito lindo ler os primeiros relatos do Fakir Musafar que nos conta sobre suas experiências corporais e do quanto ficou horas tentando perfurar o próprio pênis nos anos 60. Assim como é bonito ouvir os relatos dos primeiros tongue splits feitos com amarração de fio de nylon. Mas acho que são experiências que entram nesse esquema de sentimento dúbio e que por sorte sabemos hoje que deram certo e que ninguém morreu.
Dito isso, antes de qualquer julgamento moralista demais não podemos nos esquecer do quão tênue é a linha que circunda essa área. A maioria das body mods, que se convencionou chamar de extremas, são procedimentos cirúrgicos. Alguns inclusive fazem uso de anestésicos como bem mostrou o programa Tabu da National Geographic no caso dos implantes subdermais. Como é sabido os profissionais que atuam nessa área da body mods não cursaram medicina – e se fossem médicos a coisa seria mais grave ainda, sendo considerada prática ilegal da medicina – e muito do que fazem hoje, alguns inclusive com grande maestria, aprenderam definitivamente se arriscando ou como dizemos por aqui, na raça. Risco ao outro e a si próprio, podendo chegar ao extremo de tirar ou danificar a vida de alguém pra sempre.

Vamos continuar reforçando o quanto é necessário e importante que se procure um profissional qualificado, que tenha experiência e um bom histórico público para que o seu sonho de modificar o corpo não se torne um pesadelo. Existem cursos possíveis (biossegurança, enfermagem, primeiros socorros, etc) que podem aprimorar o trabalho desses profissionais e os que fazem e passam por esses cursos não receiam em mostrar ou falar sobre.

Focando exclusivamente a questão da tattoo no globo ocular, pensamos que o ideal seria que os novos profissionais fizessem algum tipo de treinamento ou curso com o criador da técnica, Howie (LunaCobra), que entrevistamos por AQUI. Sabemos que isso não aconteceu no Brasil, não houve esse contato direto, tudo ficou no âmbito das conversas pelas redes sociais.

Ponto importante de se comentar é que a técnica é nova e que nem tudo sobre ela está resolvido. Shannon publicou no ModBlog um dos riscos, que é o da tinta vazar, deixando a pele ao redor do olho manchada. Cabe sempre mencionar que apesar de não haver relatos, o procedimento – feito de forma equivocada – pode cegar.

Sobre o procedimento feito ontem no Brasil conversamos com o receptor, Jefferson Silva, e o profissional que fez a plicação, Rafael Leão.

Jefferson, 22 anos, nos contou que decidiu fazer os seus olhos há um mês, após ver os trabalhos de Luna Cobra. Disse que não teve receio algum sobre os riscos, mesmo sabendo que seria o primeiro procedimento de Rafael. Ambos decidiram por fazer apenas um olho pra ver qual será o resultado e depois preencher os dois.
Questionamos sobre a questão da dor no procedimento e pós, Jefferson nos disse que a sensação é de muita pressão no olho e que ainda agora sente um desconforto.

Rafael Leão, 31 anos, nos contou que tem contato com o body piercing desde 1998. Segundo ele passou a atuar profissionalmente como body piercer em 2007, momento que abriu sua loja, a Dhar-Shan, na cidade de Jundiaí, interior de São Paulo. Desde então, Leão diz que começou a estudar sobre body mods e em 2009 fez sua primeira escarificação e sobre os passos seguintes nas bodys mods acrescentou:

“Foram surgindo as oportunidades de fazê-las e busquei os materiais e ferramentas adequadas para os procedimentos. Recentemente tive o prazer de trabalhar com jóias de implante do Steve Haworth.”

Quando o assunto foi exclusivamente a tatuagem no globo ocular, o profissional nos respondeu:

“O interesse pela técnica de pigmentação ocular já tem 1 ano e meio e foi quando comecei a procurar informações sobre o processo de aplicação, ferramentas e materiais usados. A primeira coisa que tive certeza foi que não deveria usar luvas de látex. Fiquei no espelho analisando meu globo ocular usando luvas de procedimento e elas irritavam muito. Troquei pelas de nitrilo e esse problema se ausentou. Comecei a pesquisar a aplicação olhando vídeos de XRoniX e Luna e outros artigos no BME sobre cicatrização, entre outros problemas futuros. Observei os pontos usados e comecei a me preparar sobre o pigmento. Consegui um pigmento atóxico e livre de impurezas.
O procedimento em si e bem complicado de se fazer pois as pessoas não têm total domínio sobre suas córneas, é automático move-las ao menor contato e até mesmo um cisco já irrita o bastante. Tenho muita confiança no piercer Rodolfo, meu auxiliar aqui no estúdio. Com essa confiança no Rodolfo, nos materiais e insumos de qualidade me preparei para fazer. Mas a confiança maior partiu do Jeff, pois ele já estava a meses querendo fazer. Me dizia que sonhava e se via de olhos negros no espelho.”
(sic)

Ficamos curiosos em saber de Leão se já teria outras cores de pigmentos e ele nos contou que já tem e que em breve irá fazer o procedimento em uma outra cor, dessa vez em uma garota.

Vamos acompanhando os detalhes desses processos em terras brasileiras.

Segundo o BMEzine, atualmente no mundo os profissionais de maior destaque nesse procedimento são: Howie (Luna Cobra), Emilio Gonzalez e xRonix. Dos três, o único que visitou o Brasil foi o venezuelano Emilio.

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About T. Angel

No cenário da modificação corporal brasileiro desde 1997, inicialmente como entusiasta e posteriormente atuando no campo da pesquisa. Parte de seu trabalho está incluso no livro "A Modificação Corporal no Brasil - 1980-1990" e grande parte depositada aqui no FRRRKguys.com.br.