Reconstrução de lóbulos

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De acordo com vários autores, compreende-se por modificação corporal toda e qualquer alteração que se faça no corpo de forma deliberada. Dizer isso por aqui, deve soar meio como que chover no molhado, mas acredite, não é.
Uma das práticas da body modification mais assimiladas e diluídas no consumo de massa contemporâneo foi a dilatação dos lóbulos das orelhas. Inicialmente houve uma postura de forte resistência e estranhamento, mas não demorou para que fossemos vendo pelas ruas  – nos jovens e naqueles não mais tão jovens assim – a prática sendo consumida. Não tardou para que os pequenos brincos fossem colocados de lado e as orelhas ostentassem joias de maiores calibres. “Parece orelha de índio” é uma das frases que a maioria das pessoas que fizeram alargadores tiveram que ouvir. Além daquela irresistível curiosidade do outro em transpassar o dedo pelo orifício meticulosamente criado. E quando o outro conseguia realizar dada proeza – de por fim passar o dedo pelo buraco -, quase sempre esteve acompanhado de uma expressão facial que fica entre a agonia, o asco e o gozo.
Bem, para a nossa sociedade que tentou por séculos, de todas as formas aniquilar a cultura indígena deve ter sido um pesadelo ver o “retorno” de tal prática. Alterar o corpo seguindo essas possibilidades estéticas é atavismo puro como diria Lombroso. É um retrocesso ao homem primitivo, tão logo uma atitude vista com maus olhos – no limite, com muita desconfiança – por uma sociedade regimentada por códigos de condutas ocidentais, burgueses, brancos, heterossexuais e cristãos.
No fim dos anos 90 e principalmente na primeira década do século XXI, o número de adeptos de alargadores eram imensuráveis. Muitas orelhas alargadas, com os mais variados tamanhos e com as mais diversas joias. Mas assim como essas pessoas um dia escolheram e resolveram alterar o lóbulo de suas orelhas, expandindo-os ao tamanho que quisessem, com o passar dos anos a escolha foi pelo processo inverso: reconstruir os lóbulos.
Hoje em dia é alto o número de pessoas recorrendo para reconstrução e pelos motivos mais diversos. Alguns casos de pessoas que estouraram as orelhas alargando de forma incorreta, outros por questões profissionais (leia-se pelo preconceito de empresas conservadoras que não conseguem separar a aparência física da capacidade profissional e intelectual), tantos pelo cansaço com a estética do alargador e alguns apenas seguindo a “tendência do momento”.
Em todo caso, a reversão de um lóbulo alargado é tão modificação corporal quanto o processo de dilatação. A diferença é bastante pontual: seguindo um caminho – nesse primeiro caso o da dilatação – o sujeito cai em um lugar que vai contra as normas e padrões estéticos da sociedade. Já seguindo o outro caminho – o da reversão – o sujeito cai em um lugar que não causa mais ruído algum, entra no esquema de ter uma orelha “normal”. Contestamos em absoluto esses conceitos e pressupostos de normalidade, mas não cabe aqui e não agora. Divagações e contestações de lado…
Dizemos isso, pois já vimos e ouvimos muitas críticas às pessoas que optam em reconstruir suas orelhas. Como se houvessem obrigações unilaterais de se carregar uma única e exclusiva opinião para o resto da vida. Bem, muita calma e cuidado com os pré-julgamentos, as pessoas mudam de opinião, faz parte da natureza humana (ainda bem!) e estar vivo é justamente estar em constante processo de transformação.
Alargar as orelhas é um tipo de modificação corporal e compreendemos que a reversão  do processo também o é.
Esse artigo visa mostrar um pouco mais sobre a técnica e apresentar depoimentos de pessoas que passaram pela experiência.

Questionamos o profissional Alexandre Anami do Estúdio Kuroi Hana (São Paulo), sobre as principais motivações de seus clientes que buscaram a reconstrução, a resposta dele foi a seguinte:

“Hoje em dia a procura por esse procedimento está crescendo bastante. De meados de 2004 à 2010, o índice de pessoas usuárias de alargadores  (de 16 até uns 20 anos) se tornou uma febre. Essas pessoas ostentavam alargadores superiores a 20mm, chegando ate 50mm, mas por preconceito da nossa sociedade, pela ética no trabalho (uma boa aparência), pela repressão familiar, a procura da reconstrução de lóbulo vem se tornando cada vez mais comum em estúdio de tattoo e piercing ou espaços especializados em modificação corporal.”

Trabalhos de reconstrução realizados por Alexandre Anami:

Confira abaixo a entrevista que fizemos com cinco pessoas que passaram pela reconstrução de lóbulo.

T. Angel: Por qual motivo passou pelo procedimento?
Bruno Trombini: Meu lóbulo tinha 26mm. Somente e infelizmente por causa do trabalho.
Entrei na mesma empresa que estou há 2 anos. Seis meses antes de restaurar o lóbulo havia feito uma entrevista lá e tenho certeza que não passei por causa dos alargadores. Sei disso porque conversei muito com o coordenador da área sobre o assunto. Logo que tirei por coincidência fui chamado e passei na entrevista de cara.
Chibbi Naira: Como se um ciclo tivesse se fechado!
Vivenciei 14 anos com o alargador, chegando até onde queria, passando por todos os tipos de preconceitos. Obtive minha satisfação e passei por todos os rituais de tamanho para tamanho. Me senti completa e resolvi fechar. Novo ciclo, novas vivências. Mas sem nenhum arrependimento!!!
Faria de novo e continuo vendo beleza e admirando.
Fabricia Bouzon: Porque na época eu estava em busca de emprego, e minha área de atuação é um pouco conservadora, achei melhor; e outra, como eu estava com 50mm, minha orelha estava assando muito, estava atrapalhando para dormir já, eu tinha que retirar a joia sempre, lavar 2 vezes ao dia, passar pomada, estava me dando muito trabalho.
Rafael Braga: Usei alargador por 8 anos, cheguei em uma fase que cansei de usar, ficava um bom tempo sem, mas me incomodava as peles sobrando, aí decidi tirar.
Pérola Daibem: Não aguentava mais o peso das joias e não estava mais feliz
com o tamanho da minha orelha. Fiquei um ano pensando e decidi de vez.

Trabalhos de reconstrução realizados por Dark Freak:

T. Angel: Como foi o processo durante e o pós?
Bruno Trombini:
Durante foi tranquilo, com anestesia e não senti absolutamente nada. Somente um desconforto quando aplicaram a anestesia em alguns pontos. O pós foi tranquilo também, desconforto mínimo, segui as orientações do profissional, não houve sangramento e nem nada.
Chibbi Naira: O processo durante foi super tranquilo, estava em ótimas mãos. Estava segura do que queria, da minha escolha e escolhi um excelente profissional. O pós foi doloridinho nos 3 primeiros dias, mas fui tomando medicamentos e cuidando dos pontinhos.
Depois que tirei os pontinhos, fiquei um pouco insegura pois parecia que a orelha estava mais leve e ia descolar, mas isso só era porque estava acostumada com o peso dos alargadores. Mas tudo foi tranquilo!
Fabricia Bouzon:
Durante foi muito angustiante, a primeira orelha queimava enquanto era removido o excesso, em algumas partes eu senti o corte, a anestesia não pegou 100%, mas eu fui firme e fiz as duas de uma vez só. A segunda já foi mais tranquila, a anestesia pegou melhor, não senti muito não.
O pós foi bem tranquilo, evitei bebida, carne de porco, coisas muito gordurosas. A cicatrização foi bem rápida, não tive sangramentos, nem muita dor, tomei antiflamatório e remédio para dor e febre, em 10 dias já retirei os pontos, não tive complicações.
Rafael Braga:
Foi bem tranquilo, foi com anestesia, nao senti nada e quase dormi. rs A cicatrização também tem sido de boa, só pra dormir no primeiro dia que foi difícil. rs
Pérola Daibem: O durante foi meio tenso, doeu um pouco, mas nada que não dê para aguentar. O pós foi muito tranquilo, no mesmo dia trabalhei (na época era bartender ), e não tive problema algum.

Trabalho de reconstrução realizado por Tárcio em nosso entrevistado Bruno:

T. Angel: – Como se deu a escolha do profissional?
Bruno Trombini:
O Tárcio que costurou os meus lóbulos. Somos muito amigos e foi a escolha mais fácil e lógica pela confiança, só me cobrou o que ia utilizar no procedimento.
Chibbi Naira:
Se deu pela qualidade de todos os seus trabalhos, postura, competência e seriedade. Tudo isso me deu a segurança e o resultado que realmente almejava. Quem executou foi o Dark Barros / extreme.
Fabricia Bouzon:
O profissional na época foi meu marido, foi um dos primeiros procedimentos de reconstrução dele, com a ajuda de um amigo body piercer. Confiei no talento dele, pois ele já havia feito muitos procedimentos cirúrgicos de body modification, tinha uma certa experiência na área, e sabia dar pontos muito bem. Nunca havia dado nenhuma complicação nos trabalhos realizados por ele, todo o material usado era estéril e de qualidade. O resultado foi excelente, hoje em dia não da nem para perceber que minha orelha foi reconstruída. A cicatriz ficou quase imperceptível e a estética ficou ótima, bem simétrica as duas, em um mês fiz o furinho para colocar brincos, fiquei bem feliz. Faria de novo.
Rafael Braga:
Já conhecia o Luciano Iritsu antes do processo, um ótimo profissional, muito calmo, gostei do resultado.
Pérola Daibem: O Will quem fez minha orelha e ele já tinha trabalhado como piercer por bastante tempo. Eu também confiava no trabalho dele, o resultado ficou muito legal.

Fotos de Fabricia Bouzon (esquerda) Pérola Daibem (centro) e  Chibbi Naira (direita), meses depois do procedimento:

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About T. Angel

No cenário da modificação corporal brasileiro desde 1997, inicialmente como entusiasta e posteriormente atuando no campo da pesquisa. Parte de seu trabalho está incluso no livro "A Modificação Corporal no Brasil - 1980-1990" e grande parte depositada aqui no FRRRKguys.com.br.