A manutenção do preconceito contra as modificações corporais através do discurso da direita

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945842_473252856076784_1136606894_nFotografia do acervo de Mariana Queiroz

No ano passado escrevemos AQUI sobre o modo leviano com que o jornal Folha de São Paulo deturpou uma matéria sobre modificações corporais. Na ocasião entramos em contato a fim de conseguirmos uma retratação. Infelizmente a resposta dos responsáveis pela matéria foi pior do que a própria publicação em si.

Acabamos por descobrir que tal matéria, de caráter hostil e lamentável sob todos os aspectos, reverberou em algo muito pior e é sobre isso que trataremos adiante. A intenção com a exposição desse caso não é a de “comprar briga”, mas registrar o preconceito que ainda existe com as práticas de se modificar o corpo. Principalmente dos setores mais conservadores da sociedade.

No dia 14 de Julho de 2013, o colunista da Revista Veja e economista carioca Rodrigo Constantino, publicou em seu perfil do Facebook uma foto de Mariana Queiroz inclusive a mesma imagem que havia sido publicada pela Folha, com o texto que reproduzimos abaixo:

“Bom, se ninguém vai dizer porque é “politicamente incorreto”, eu digo: essa menina, que tatuou os olhos com fundo vermelho permanente, que colocou um soco inglês de silicone na mão, tatuou Devil’s Reject na testa, e que está na capa da Folha não é “apenas diferente”, e não precisa de um tatuador: precisa de um psiquiatra! Isso NÃO é normal, NÃO é “só mais uma forma de se expressar”. Isso é uma mente muito perturbada gritando por socorro, desesperada para chamar a atenção de alguém, que lhe imponha alguma limite. Não sou médico, nem psiquiatra, nem psicólogo, mas tenho um mínimo de bom senso, e ainda não perdi meu juízo no mundo moderno do relativismo exacerbado. Tenho dito!”

 No momento em que vimos a respectiva postagem já haviam ocorridos 633 compartilhamentos, sendo grande parte acompanhados de textos dizendo coisas como que  Mariana precisava de um encontro com Cristo… Os inúmeros comentários deixaram o amor cristão de lado e falavam sobre uma possível surra, ora para Mariana, alegando uma “falta de carinho e de surra” (sic), ora para sua família, como neste comentário que dizia que a moça de olhos vermelhos é “digna de dó….e os pais dela, bem, esses mereciam uma surra!” (sic).

Provavelmente os comentários partiram de pessoas que concordavam com o lema “tem que apanhar para virar homem” do deputado federal Jair Bolsonaro e com o pavoroso exemplo de seu reflexo na vida real, como no caso recente do pai que matou o próprio filho, de oito anos de idade, alegando que espancava a criança para “ensiná-lo a virar homem”. É exatamente isso que esses discursos sugerem, ou seja, o uso da violência física para moldar o sujeito em algum tipo de normatividade. Não vemos diferenças.

Há de se mencionar ainda que citações bíblicas também não faltaram e muitas recomendações de internação psiquiátrica, a exemplo do próprio colunista autor da publicação. É nessas horas que tornam-se factíveis instituições como a Colônia, manicômio que existiu na cidade de Barbacena em Minas Gerais,  com grande êxito e com certa longevidade de operação. Inaugurada em 1903 atingiu seu pico de desumanização entre 1930 e 1980. A instituição, criada originalmente para atender pessoas com deficiência mental, acabou sendo usada para colocar pessoas “indesejadas socialmente”, tais como, gays, negros, prostitutas, alcoólatras, entre outros “inadequados”. Como bem lembra Daniela Arbex, autora do livro “Holocausto Brasileiro”, a ordem para internação das pessoas na Colônia vinha dos mais influentes da sociedade na época e “quem decidia é quem tinha mais poder”.

Rodrigo Constantino, não satisfeito com o resultado da publicação feita em sua página, escreveu um outro texto para seu blog que vocês podem ler na integra CLICANDO AQUI. Em seu novo texto, reafirma o seu ponto de vista anterior e acrescenta algumas citações do, segundo ele, “renomado psicanalista Joel Birman”. Tanto um, o colunista, quanto o outro,o psicanalista, afirmaram que a modificação corporal é reflexo de uma “condição psíquica torturada”. Ressalve-se que Birman trata exclusivamente da tatuagem. Podemos imaginar, então, o que ele escreveria sobre as demais técnicas de se alterar o corpo. Preferimos não. O exemplo de Barbacena já nos aterroriza e nos envergonha o suficiente.

Mariana Queiroz, alvo da crítica leviana, escreveu para o blog de Constantino questionando a publicação e obteve resposta. Rodrigo Constantino – pelo pouco que vimos, ainda bem – adora pequenos duelos virtuais (basta ver o rompimento dele com Olavo de Carvalho, que em parte pode ser acompanhado via Orkut em 2007). O economista discute com quem não concorda com a sua opinião e adora a expressão “relativismo exacerbado”. Para Mariana, o colunista respondeu mais algumas farpas e disse que gostaria de ter o direito de emitir a sua opinião. Terminou a frase citando o seu bom senso estético, que segundo ele “não é por ‘padrão’ burguês ou coisa do tipo”. Uma pena que o bom senso estético não veio acompanhado de bom senso ético.

O que nos parece, no entanto, é que a expressão da opinião de Constantino, a qual ele tanto clama, é sim baseada na perspectiva social burguesa, e não só nela, mas também fundamentada no padrão branco, conservador, moralista, ocidental, heteronormativo, cisgênero e judaico-cristão que, ao fim e ao cabo da reflexão, não reconhece a alteridade, não respeita o outro e tão pouco abre espaço para a diversidade humana.

Já que falamos tanto em “emitir opinião” eis a nossa: pessoas tais como Constantino (e também fazemos questão de incluir o deputado Bolsonaro, a jornalista Rachel Sheherazade e a psicóloga Marisa Lobo) estão confundido liberdade de expressão e, emitir opinião, com opressão e agressão.

 

Em nossa opinião, o caso de Mariana Queiroz se encaixa numa perversa combinação de violência simbólica e assédio moral. E não se afasta muito do caso de cyber bullying que escrevemos recentemente AQUI e que fica caracterizado quando “a Internet, telefones celulares ou outros dispositivos são utilizados para enviar textos ou imagens com a intenção de ferir ou constranger outra pessoa“, segundo o National Crime Prevention Council.

Mas não vamos aqui ficar analisando muito mais o discurso do colunista Rodrigo Constantino, pois os dados aqui apresentados já mostram muito mais do que o suficiente. Apenas vamos fazer uma (re)apresentação do economista. Repetimos a sua identificação para que sempre que formos, qualquer pessoa que seja, tecer algum comentário pejorativo, seja sobre modificações corporais ou sobre qualquer pessoa que seja diferente de nós, tenhamos em mente que corremos o sério risco de agirmos bem parecidos com gente que pensa dessa forma tão obtusa e reacionária.

Rodrigo Constantino é economista formado pela PUC-RJ e colunista da execrável Revista Veja, como já dito anteriormente. Foi considerado um dos “novos trombones da direita brasileira”, segundo a revista Istoé em 2012 . Manteve-se alinhado por muito tempo com o “filosófo” Olavo de Carvalho, notório conservador e articulista de direita. Ah! E registre-se: muito citado e lido por algumas pessoas presentes na Marcha da Família de São Paulo no último domingo. Constantino comemorou quando a Sheherazade passou a segui-lo no Twitter e esbanja fotos com artistas como Lobão, Roger do Ultraje e Danilo Gentili

Algumas de suas ideias: defende a privatização da Floresta Amazônica (artigo publicado em 2006 no “Mídia sem máscara”); Defende a ideia do livre comércio de órgãos humanos (artigo de 2006); Adversário das cotas raciais e ações afirmativas (artigo de 2007); Sugere que a “propaganda esquerdista” e os “intelectuais de esquerda” querem tornar a pedofilia uma orientação sexual (sic) (artigo de 2013); É a favor da redução da maioridade penal; Sobre os recentes “rolezinhos”, classificou seus participantes como “bárbaros incapazes de reconhecer a própria inferioridade” (artigo de janeiro de 2014).

Sério mesmo que são as pessoas com modificações corporais que precisam de tratamento psiquiátrico? Sério mesmo?

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About T. Angel

No cenário da modificação corporal brasileiro desde 1997, inicialmente como entusiasta e posteriormente atuando no campo da pesquisa. Parte de seu trabalho está incluso no livro "A Modificação Corporal no Brasil - 1980-1990" e grande parte depositada aqui no FRRRKguys.com.br.