Algumas reflexões sobre a tatuagem em pele negra

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Fotos: google

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Algumas pessoas nos escreveram com dúvida sobre as tatuagens em peles negras ou até mesmo buscando indicações de estúdios ou tatuadores especializados. Afim de atender as dúvidas dessas pessoas fomos pesquisar.

Que fique claro que a ideia que trabalharemos daqui em diante não busca “guetificar” de forma racista a questão, a intenção desse artigo é explicitar que há tatuadores que se especializam, no que se convencionou chamar como estilos. Existem os especialistas em oriental, assim como em old school, new school, realismo, black work e a lista segue. Seguindo essa lógica, se houvesse tatuadores especialistas em tatuar a pele negra, não seria algo fora do comum. Diríamos até que seria realmente interessante, uma vez que não existe muita informação acerca da questão. Assim como é baixa a produção de imagens que ilustrem belas tatuagens em diferentes tonalidades da pele negra.

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Falando em imagens, segundo informações que obtivemos durante a pesquisa – que inclusive achamos ser um problema e equívoco grande por parte dos profissionais da tatuagem -, normalmente não se fotografam tatuagens em pele negra, pois as imagens não ficam “tão boas” quanto em pele clara. Aos nossos ouvidos isso não soa muito bem… Em todo caso, o “tão boas quanto” pode dizer várias coisas de acordo com o nosso entendimento, por exemplo, que o desenho não fica tão definido quando fotografado; que não fica vendável posto em portfólio, o que enxergamos como um problema gritante, principalmente se tratando do Brasil, sabidamente o país da miscigenação e de muita gente de pele escura.

Pensamos que na verdade os profissionais perdem com essa postura um tanto questionável, pois não adianta exibir um portfólio somente com tatuagens em peles brancas e pálidas, quando o consumidor final também vai ser o pardo, o moreno, o negro… O que esses profissionais teriam para mostrar para esses clientes? Fica no ar. Há de se rever essas questões.

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Seguindo adiante, durante a pesquisa que fizemos conversamos com diversos tatuadores, de várias partes do Brasil e todos disseram que não conheciam algum profissional que fosse especialista em pele negra no Brasil. Grosso modo, um bom tatuador ou tatuadora, independente de seu estilo, estaria apto(a) a desenvolver um bom trabalho, seja na pele clara ou escura.

Faz-se necessário reforçar a importância de que se procure um profissional competente para que você possa se tatuar de forma tranquila e segura. Não se esqueça que uma tatuagem envolve, além da estética, uma série de questões de saúde.

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Em conversas informais com colegas tatuados e tatuadores circulava a ideia de que a tatuagem black and grey (preto e cinza) fosse a mais indicada para pessoas negras. Buscamos saber se isso era mito ou verdade e questionamos vários profissionais durante a nossa pesquisa atual, foi unânime a resposta que sim. De fato a tatuagem que se utiliza das tintas preta e cinza, seja para desenhos chapados ou sombreados, é uma alternativa muito boa e que já está colocada em prática.

Falando ainda na tatuagem em pele negra, se faz necessário e importante citar dados históricos. Como sabemos a tatuagem está presente no mundo desde os tempos mais remotos. Fechando o nosso recorte da tatuagem na África negra, na Nigéria, na Etiópia, no Zaire, Congo e Senegal, segundo o livro Teorias da Tatuagem de Célia Maria Antonacci Ramos ficamos sabendo que a “prática é bastante acentuada e suas crenças e desenhos bastante diversificados”. No entanto, é importante destacar que a introdução de tinta colorida intradérmica não funcionava para os negros, assim como para os brancos. Com isso surge, segundo vários antropólogos, a escarificação. A prática de se fazer incisões na pele de maneira voluntária, para que as cicatrizes formem desenhos.

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Segundo France Borel no livro Le Vêtement Incarné, essa marcação na pele se utilizava de “materiais pontiagudos – bastão, espinho, conchas, cacos de vidro – que produzem cortes retilíneos na pele, nos quais são introduzidos outros materiais como farinha, terra, folha de pimenta, óleo de dendê, fragmentos de bambu”. A ideia era que essas incisões fossem inflamadas, para que as cicatrizes ficassem o mais visível possível. Tal mentalidade também esteve presente quando a scarification chegou no Ocidente, inclusive ate pouco tempo atrás. É comum relatos de pessoas que usaram urina, vinagre, terra para inflamar suas cicatrizes, isso pouco menos de 8 anos atrás.

Tais inscrições no corpo acontecem entre os africanos desde os primeiros anos de vida e acompanham essas pessoas até a morte. Essa modificação corporal faz parte da cultura desses povos. Dentro dessa lógica sócio-cultural, quanto o maior número de cicatrizes-quelóides, maior o respeito dentro das tribos. Inclusive são essas marcas responsáveis em dizer quando uma moça ou um rapaz se tornam adultos.

Assim como a tatuagem que conhecemos hoje, as escarificações contam acontecimentos e mitologias pessoais da vida de cada um.

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Não pense que essa prática ficou restrita ao continente africano, como brevemente adiantamos acima. No começo do século XX, aqui no Brasil, o cronista carioca João do Rio escreveu sobre as pequenas profissões do Rio de Janeiro no livro “A alma encantadora das ruas”. Dentre as profissões mencionadas por João estava o tatuador. Sobre as técnicas em que se poderia marcar a carne, o cronista mencionou três, entre elas aquela que incluía incisões. Ao que parece, no Brasil em séculos passados os termos tatuagem e escarificação causavam uma certa confusão.

Saltando no tempo e fincando os pés em nosso presente, hoje sabemos distinguir a escarificação das tatuagens e sabemos que tanto uma prática quanto outra sofreram um processo forte de modernização. As escarificações passaram a aparecer na pele branca, assim como a tatuagem, inclusive colorida, passou a estar cada vez mais presente na pele negra. Ainda assim, há muitos cuidados que devem ser tomados.

Sobre a tatuagem em pele negra o tatuador Léo Neguin nos disse que:

“Nas pessoas de pele escura eu recomendo que escolham desenhos mais abertos (sem muitos detalhes fechados) e dependendo do tom da pele eu prefiro trabalhar em preto e cinza. Em alguns casos é possível trabalhar com algumas cores, mas depende muito do tom da pele e a frequência que a pessoa se expõe ao sol. Eu sou moreno e tenho algumas tatuagens coloridas, mas meu tom de pele é um pouco mais claro e eu evito ao máximo exposições prolongadas ao sol.”

A questão de se expor ao sol é bastante significante. Conversamos de forma informal com diversos tatuadores que tocaram no mesmo ponto. Nós que somos tatuados e vivemos em um país tropical, precisamos ter o cuidado de usar o filtro solar e se expor nos horários indicados como seguros para a qualidade e saúde da pele e, tão logo, para a beleza e conservação das tatuagens.

Léo Neguin reforça alguns pontos importantes quando o assunto é a tatuagem em pele negra:

“Acho que o importante é fazer as pessoas de tons de peles mais escuras entenderem que a escolha do desenho é o principal. Seguir o conselho do tatuador também é bem importante. Cada tom de pele é um caso, quanto mais escura menos possibilidade de trabalhar com cores. Mesmos os desenhos em preto e cinza tem que ser bem escolhidos porque pode perder definição com o tempo. Agora quanto a técnicas, não tem nenhuma em especial. A aplicação é trabalhada da mesma forma.”

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Colaborando também com o artigo os tatuadores Paulão e Igor do estúdio paulista Soul Tattoo nos disseram o seguinte:

“A pele negra é muito sensível e requer um cuidado maior na aplicação da tattoo, pois tem uma forte tendência a queloides, tem a cicatrização marcada e por isso muitas tribos africanas adotam a escarificação. Cores quentes, por exemplo, não pegam na pele. Já as cores frias aderem melhor, mesmo assim, por causa da pigmentação natural (melanina), a tinta precisa ser de tom mais escuro que a pele, pois a tinta é aplicada embaixo da epiderme, e por isso as tattoos com preto são as mais indicadas.”

Concluindo, o que fica claro é, na hora de se tatuar caso sua pele seja negra escolha um bom tatuador ou tatuadora, converse incansavelmente com ele(a) sobre o desenho que você pretende fazer. As tatuagens em black and grey são as mais indicadas, mas nada impede de você ter cores em seu corpo, desde que a conversa com o tatuador ou tatuadora seja honesta por ambas as partes e indique que haverá qualidade no resultado final.
A escarificação é mais uma opção também, com uma riqueza histórica, social e cultural tamanha.
Lembre-se nenhum corpo é igual ao outro e todos carregam belezas particulares. Modifique seu corpo de forma consciente e segura e com certeza o resultado será positivo.

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About T. Angel

No cenário da modificação corporal brasileiro desde 1997, inicialmente como entusiasta e posteriormente atuando no campo da pesquisa. Parte de seu trabalho está incluso no livro "A Modificação Corporal no Brasil - 1980-1990" e grande parte depositada aqui no FRRRKguys.com.br.